A morte como ponto de mutação

 

Será o desaparecimento de Eduardo Campos um recado do Cosmo aos brasileiros?

 

Eduardo Campos

Eduardo Campos

 

Por: Luis Pellegrini

 

Na Grécia Antiga, cuja cultura deu origem a quase tudo que somos ou pretendemos ser em termos de seres pensantes, a morte sempre foi entendida e acatada como sinal de mutação, de mudança de ciclo pessoal, social ou histórico. Percebida – da mesma forma que o nascimento – como fenômeno natural inerente à própria dinâmica da existência, ela nunca foi vista como “fim”, mas sim como ponte necessária para se alcançar um recomeço. Portanto, como um “meio”. E para os gregos, inventores da filosofia ocidental, os meios sempre foram muito mais importantes do que os fins.

Como bem sabem os homens e mulheres sábios, sejam gregos antigos ou de qualquer outro tempo, não há renascimento sem morte que o anteceda, seja ela real ou simbólica. Uma morte é sempre sinal de que um ciclo novo tem de acontecer, e toca a todos que a testemunham agir para que o ciclo novo aconteça.

Esta reflexão é importante e necessária, no momento em que todos nós, brasileiros, nos defrontamos com a morte brusca e prematura de um jovem político candidato a ocupar o posto supremo da cidadania nacional, a Presidência da República. Eduardo Campos não era apenas um político jovem, inteligente e brilhante como todos a ele se referem agora. Ele representava, a cada dia mais, a possibilidade do surgimento em nosso país de uma nova casta de homens públicos diferenciados, caracterizados não necessariamente pela santidade – pois a política é muito mais arena de gladiadores do que panteão de santos – mas sim por um entusiasmo alegre e quase ingênuo, por um desejo honesto de mudar as coisas, típico dos idealistas que ainda não conhecem bem a espessura das barreiras que tentam impedir o avanço das reformas e das revoluções. Sabemos todos que as grandes utopias têm poucas chances de se realizar. Mas idealistas como Eduardo Campos são absolutamente necessários, sempre, e sobretudo quando uma nação cai no descrédito em relação ao mundo do poder, da política e dos políticos em geral. Alguém, honestamente, poderá negar que isso está acontecendo aqui e agora no Brasil?

O destino matou Eduardo Campos. Alguns comentaristas adjetivam seu súbito desaparecimento de “morte estúpida”. Mas basta subir uma oitava na escala do pensamento para se perceber que nenhuma morte é estúpida. Toda morte encerra uma lição, uma mensagem, um significado que deve ser decifrado, se não quisermos – como tantas vezes já fizemos e continuamos a fazer – perder o cavalo sem rabo do ensinamento que a existência quer nos dar.

No caso do Brasil, para se chegar a tal leitura, convém começar pelo recurso à raiz, à própria origem e base da alma nacional: o sincretismo corporal, psíquico, mental e anímico que nos caracteriza. Este sincretismo, queiramos ou não, gostemos ou não, é europeu-africano-indígena. Nele pontifica o orixá Olodumarê, o senhor supremo do destino. Ao lado dele, atuando como seu fiel servidor, está o orixá Exu, seu mensageiro, o encarregado da execução na Terra, e entre os homens, dos desígnios de Olodumarê.

Exu, que a santa ignorância dos missionários cristãos identificou com o diabo, nada mais é do que o braço regulador do destino. O princípio de poder que é ativado toda vez que a ordem natural das coisas é subvertida e quebrada, e que age – isento de qualquer consideração compassiva – para que essa ordem seja restabelecida.

O que provoca a ruptura da ordem natural das coisas? Em primeiro lugar a arrogância, a vaidade, o descomedimento, a perda da consciência de limites. Todos eles fatores perversos que o pensamento grego abrigava sob um mesmo denominativo: a hybris.

Não apenas a política brasileira, mas o mundo como um todo, vive hoje sob a égide da hybris. Não é por acaso falta de consciência de limites o que estamos fazendo ao dilapidar e poluir nossa própria casa, o planeta Terra? Não é descomedido o modelo de civilização que criamos, inteiramente assentado na escravidão da produtividade e do consumismo insustentáveis? Não será, por acaso, forrado de arrogância o mercado persa em que se tornou nosso mundo político, verdadeiro ringue de MMA vale tudo para o embate de todos os tipos de fisiologismos, de acordos e de alianças espúrias e pouco recomendáveis, praticados por legiões de políticos transformados em peagadês da Lei de Gérson?

Faz parte da ordem natural das coisas, no entanto, o fato de que carreira política é quase sinônimo de sacerdócio. Na sua etimologia original, política significa:  “Arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados”. Será possível conceber-se a prática dessa arte ou ciência de modo dissociado do conceito de Sacrum Officium, ofício sagrado, significando a submissão dos desejos do ego pessoal às necessidades do bem comum?

Quando, no mundo, uma função sagrada – seja ela a do professor, a do médico, a do sacerdote, a do homem público – é vilipendiada e descaracterizada, isso configura ruptura da ordem natural das coisas. Isso ativa o poder de Exu. O princípio regenerador se manifesta, quase sempre de forma violenta e cega, desfazendo na sua fúria cega coisas, valores e pessoas que num instante estavam íntegras e no instante seguinte viraram pó. É este o momento em que, com frequência, os inocentes pagam pelos pecadores…

É o momento em que o inexorável Olodumarê, ao tirar de nós Eduardo Campos e aquilo que ele representava, talvez esteja querendo corroborar as belas palavras que o físico Fritjof Capra escreveu em seu livro “O ponto de mutação”, quando quis apresentar um ensinamento do bruxo Don Juan: “Ambições mun­danas, impulsos competitivos, a ânsia de status, poder ou bens materiais, tudo tende a dissipar-se quando visto contra o pano de fundo da morte potencialmente iminente. É como escreveu Carlos Castaneda, ao descrever os ensinamentos do feiticeiro yaki Don Juan: ‘Uma quantidade imensa de mesquinhez é abandonada quan­do a tua morte te acena ou a entrevês num breve relance. (…) A morte é a única conselheira sábia que possuímos”

O SUS britânico. Que inveja!

Michael Moore, cineasta norte-americano, especializou-se em documentários corajosos que apontam algumas das maiores mazelas do sistema de vida ocidental contemporâneo. Exatamente o sistema em que vivemos.

Às vezes, Moore mostra soluções exemplares para esses problemas. É o caso deste vídeo, trecho do documentário “SOS Saúde” (SiCKO, de 2007); o trecho em questão trata do sistema de saúde pública no Reino Unido. Publico na esperança de que nossas autoridades governamentais tenham alguma inspiração para resolver essa calamidade que é a saúde pública no Brasil.

Feliciano e Cia.: Um bando de irresponsáveis

 

Acabei de ler no portal Terra: “Com poucos manifestantes presentes, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara dos Deputados conseguiu aprovar nesta terça-feira (18/06) o projeto de decreto legislativo que trata da “cura gay”. Desde que o presidente da comissão, pastor Marco Feliciano (PSC-SP), foi indicado para o colegiado, a CDH se tornou palco de manifestação entre ativistas pelos direitos humanos e pastores evangélicos apoiadores de Feliciano.”

É simplesmente espantosa a soberba e a audácia desses deputados-pastores. Vivem um delírio de onipotência. Subiu-lhes à cabeça o sentimento de impunidade. A tal ponto que, mesmo diante da situação que estamos vivendo, com centenas de milhares que saem às ruas em protesto contra a cornucópia de desmandos cometidos por nossos políticos e homens públicos, simplesmente não se importam em lançar mais lenha na fogueira. Eles são mesmo irresponsáveis e não merecem representar ninguém na câmara legislativa nacional. Nem mesmo aqueles que votaram neles.

Como se não bastasse, Feliciano e Cia. informam que provavelmente terão candidato próprio à presidência da República! Só falta isso: um racista e homófobo sentado na cadeira hoje ocupada por Dilma!

Essa gente não têm nenhum conhecimento da história, não sabem que ela se repete. “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”, vociferava Cícero contra Catilina em pleno senado romano. O célebre discurso acusatório do cônsul romano contra Lúcio Catilina, senador corrupto, venal e traidor, foi pronunciado em 63 antes de Cristo. Mas, passados mais de dois mil anos, parece feito sob medida para os dias de hoje. “Por quanto tempo ainda esse teu rancor nos enganará? Até que ponto a tua audácia desenfreada se gabará de nós?”. Esses questionamentos de Cícero, que se seguem àquela primeira pergunta, não estariam implícitos no próprio cerne dos protestos populares que testemunhamos agora, não apenas no Brasil, mas em muitos outros lugares do mundo?

Falido moral e financeiramente, Catilina, juntamente com seus seguidores subversivos, planejava derrubar o governo republicano para obter riquezas e poder. No entanto, após o confronto aberto por Cícero no senado, Catilina resolveu afastar-se do senado, indo juntar-se a seu exército ilícito para armar defesa. Pouco adiantou: no ano seguinte o rebelde falhado caiu, vindo a morrer no campo de batalha.

Sim, a história se repete. Seria portanto mais prudente, para o seu próprio bem, que nossos políticos e homens públicos – de qualquer cor, tendência ou partido – prestassem muita atenção e interpretassem corretamente o que está ocorrendo nas ruas e praças públicas das nossas principais cidades. Catilina, hoje, são muitos, existem até em excesso. Mas Cícero também se multiplicou, e hoje vive na cabeça e nos corações de centenas de milhares que, simplesmente, estão perdendo a paciência.

 

“CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS” – Roberto Shinyashiki

Roberto Shinyashiky

Sob o título “Cuidado com os burros motivados”, a revista ISTOÉ publicou há poucos anos esta entrevista com Roberto Shinyashikyi, médico psiquiatra, com pós-graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista.

 O que o entrevistado diz me parece a cada dia mais pertinente. Por isso reproduzo aqui suas palavras, para quem ainda não as leu, ou para quem está precisando se lembrar delas. Roberto solta os cachorros e aponta toda uma série de equívocos que cometemos em relação a uma escala de valores existenciais realmente verdadeira. Vale a pena ler e refletir.

Em sua obra “Heróis de Verdade”, ele combate a supervalorização das aparências, e diz que falta ao Brasil competência, e não autoestima. Quem quiser saber mais sobre a pessoa e as ideias de Roberto Shinyashiki pode visitar seu site: www.shinyashiki.uol.com.br
– Quem são os heróis de verdade?

Roberto Shinyashiki – Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe.
O mundo define que poucas pessoas deram certo.
Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.
E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados.
Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena, porque não conseguiu ter o carro, nem a casa maravilhosa.
Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe.
O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes.
Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida e não para impressionar os outros.
São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

– O Sr. citaria exemplos?

Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia.
Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis.
Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem.
É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes.
O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana.
Em países como o Japão, a Suécia e a Noruega, há mais suicídios do que homicídios.

Por que tanta gente se mata?

Parte da culpa está na depressão das aparências, que por exemplo acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

Qual o resultado disso?

Paranoia e depressão cada vez mais precoce.
O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece.A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança.
Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas.
Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo…

Por quê?

O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento.
É contratado o sujeito com mais marketing pessoal.
As corporações valorizam mais a autoestima do que a competência.
Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras.
Disse que ela não parecia demonstrar interesse.
Ela me respondeu estar muito interessada, mas como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade e não de relações públicas.
Contratei-a na hora.
Num processo clássico de seleção ela não passaria da primeira etapa.

Há um script estabelecido?

Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa “O Aprendiz”?

Qual é seu defeito?

Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
– Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.
É exatamente o que o chefe quer escutar.
Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido?
É contratado quem é bom em conversar, em fingir.
Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse:
Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir.
Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor!

Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento.
Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência.
Cuidado com os burros motivados.
Há muita gente motivada fazendo besteira.
Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado.
Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão.
Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado.
Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia.
O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

Está sobrando autoestima?

Falta às pessoas a verdadeira autoestima.
Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha autoestima está baixa.
Antes, o “ter” conseguia substituir o “ser”.
O cara mal educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.
Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser, nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.
As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam.
E poucos são humildes para confessar que não sabem.
Embora a autoestima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Isso vem do vazio que sentimos.
A gente continua valorizando os heróis.
Quem vai salvar o Brasil? O Lula.
Quem vai salvar o time? O técnico.
Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.
O problema é que eles não vão salvar nada!
Tive um professor de filosofia que dizia:
“Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarreia durante um jantar no Palácio de Buckingham”. Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarreia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo.
A gente tem de parar de procurar super-heróis, porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Exatamente… A gente não é super-herói nem superfracassado.
A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza.
Não há nada de errado nisso.
A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente.
Há várias coisas que eu queria e não consegui.
Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos.
Com uma criança especial, eu aprendi que, ou eu a amo do jeito que ela é, ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse.
Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo.
O resto foram apostas e erros.
Dia desses apostei na edição de um livro, que não deu certo.
Um amigão me perguntou:
“Quem decidiu publicar esse livro?”
Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir…

Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las.
São três fraquezas:
A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.
Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade…
A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se eles não tivessem significados individuais.
A segunda loucura é você ter de estar feliz todos os dias.
A terceira é você ter que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo.
Por fim, a quarta loucura: Você ter de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe.
Não há um caminho único para se fazer as coisas.
As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.
Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.
Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo à praia ou ao cinema…
Quando era recém-formado, em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais.
Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.
A maior parte pega o médico pela camisa e diz:
“Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz”.
Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.
Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.

8º FEMUSC: UM TSUNAMI MUSICAL – FESTIVAL EM SC É UMA REVOLUÇÃO

:

Na manhã de 28 de janeiro cheguei a Jaraguá do Sul para assistir a um festival de música, o 8º Femusc, Festival de Música de Santa Catarina. Mais que um festival, encontrei uma revolução: Um exercício de reviravolta geral no plano das ideias, das emoções e do espírito, protagonizada por cerca de 700 estudantes, 80 professores e 50 mil espectadores

Concerto de encerramento das seções infantil e juvenil do 8º Femusc. Desde o início o Femuskinho reúne centenas de crianças e pré-adolescentes

Concerto de encerramento das seções infantil e juvenil do 8º Femusc. Desde o início o Femuskinho reúne centenas de crianças e pré-adolescentes. Muitos que passaram pela fase de iniciação musical agora participam pela fase seguinte, de ensino mais formal para adolescentes

Por: Luis Pellegrini

Uma revolução, sim. Como definir de outro modo o que acontece no Femusc, festival educativo de música em Jaraguá do Sul, interior de Santa Catarina?

Primeiro, em termos de números: 28 países representados entre professores e alunos participantes; 19 estados brasileiros representados por professores e alunos; 30 mil horas/aula e cerca de 3 mil ensaios; mais de 700 obras do melhor repertório sinfônico e de câmera executadas, a grande maioria por sugestão dos próprios alunos; 14 dias contínuos de evento; mais de 200 apresentações em teatros, igrejas, presídios, asilos e outras instituições de dez cidades vizinhas; 450 empregos diretos e indiretos gerados.

 

Construído e mantido com fundos privados da comunidade civil de Jaraguá do Sul, o Centro Cultural da cidade possui dois teatros, várias salas de aula e ensaio, galerias de arte, restaurante, bar, área de lazer, escritórios. É um dos maiores e mais bem equ

Construído e mantido com fundos privados da comunidade civil de Jaraguá do Sul, o Centro Cultural da cidade possui dois teatros, várias salas de aula e ensaio, galerias de arte, restaurante, bar, área de lazer, escritórios. É um dos maiores e mais bem equipados espaços culturais da América Latina

Segundo, em termos de pedagogia do ensino da música e seus efeitos na consolidação da estrutura moral e cívica e da consciência de cidadania. Criado em 2006 por iniciativa do maestro e oboísta brasileiro Alex Klein, a proposta inicial do Femusc era “qualificar, democratizar, popularizar e internacionalizar o aprendizado da música erudita no Brasil”. Talvez nem o próprio Alex Klein foi capaz de prever o alcance , a extensão e o interesse que, rapidamente, a iniciativa iria conquistar, não apenas em âmbito nacional, mas também internacional, sobretudo latino-americano. Se não, como explicar a presença em Jaraguá do Sul, em 2013, de 50 estudantes de música colombianos, 30 mexicanos, 40 chilenos, e outros tantos do Equador, da Argentina, do Uruguai, do Paraguai, da Venezuela e da Bolívia, sem falar nos caribenhos da Costa Rica e do Panamá até os que vieram dos confins da Europa, como alguns da Turquia?

No entanto, durante os dias do festival, em Jaraguá do Sul respirava-se um ar cheio de força e alegria jovem, o ar que serve aos apaixonados da boa música. Por mais diferentes que fossem as línguas de origem dos participantes, todos se entendiam perfeitamente bem a partir da mais universal de todas as línguas: a do discurso musical.

No refeitório, os alunos do Femusc aproveitam as horas do almoço para se apresentar

No refeitório, os alunos do Femusc aproveitam as horas do almoço para se apresentar

Havia também um terceiro elemento revolucionário no Femusc 2013: a energia que impregnava a cidade e, sobretudo, os locais nos quais as atividades musicais eram desenvolvidas, notadamente a sede da SCAR – Sociedade de Cultura Artística de Santa Catarina, onde aconteciam os ensaios e os concertos, e as salas e anfiteatros da PUC – Pontifícia Universidade Católica, onde eram realizadas as máster classes, as aulas magnas ministradas por professores renomados.

Depois dos espetáculos à noite, chega a hora da balada. Os alunos relaxam ao som de muito samba e salsa. NO Femusc, ninguém é de ferro

Depois dos espetáculos à noite, chega a hora da balada. Os alunos relaxam ao som de muito samba e salsa. No Femusc, ninguém é de ferro e nas horas vagas a música popular é tão importante quanto a erudita

Percebi essa energia assim que pus os pés no saguão de entrada da SCAR. Havia um burburinho de gente, um vai-e-vem de rapazes e moças cujas idades iam da pré-adolescência até o despontar da fase adulta, cada um deles carregando suas caixas com instrumentos, flautas, oboés, violinos, trompas, violas e violoncelos, fagotes e clarinetas. Tive a curiosa sensação de penetrar na cenografia de alguma versão atualizada da série Harry Potter, especialmente criada para bruxinhos músicos com bastões mágicos substituídos por instrumentos musicais ou por outra baqueta talvez ainda mais preciosa – a de maestro.

Como definir de outro modo a sensação quase surreal de penetrar num espaço enorme, cheio de salões, salas de aula, salas de ensaio, galeria de arte, dois teatros formais de excelente acústica (um para cerca de mil espectadores, o outro, menor, para cerca de 300), restaurantes, áreas de lazer, onde o som da música é produzido e ecoa em toda a parte o tempo todo? Durante o festival, não há recanto, nas áreas do SCAR, onde grupos de jovens músicos não estejam aprendendo ou ensaiando. Como conseguem se concentrar em meio ao agito? Esse é um mistério cujo aprendizado eu também gostaria de ter.

Maestro e oboísta Alex Klein, idealizador do Femusc. Ele dirige também a Orquestra Sinfônica da Paraíba

Maestro e oboísta Alex Klein, idealizador do Femusc. Ele dirige também a Orquestra Sinfônica da Paraíba e desenvolve agora, nesse estado do nordeste, o projeto “Prima”, de inserção e resgate sócio-cultural de jovens oriundos de comunidades carentes através do ensino e da prática da boa música 

O bruxo-mor do Femusc é o próprio Alex Klein. Maestro, pedagogo e solista de oboé no Brasil, Estados Unidos, China, França, Japão, México, Panamá e Portugal, ele nasceu em Porto Alegre, cresceu em Curitiba e estudou em São Paulo. Alex Klein é detentor de vários prêmios internacionais e, até hoje, é o único músico brasileiro a conquistar um Prêmio Grammy individual na música erudita, fora quatro prêmios em conjunto Grammy, considerado o maior reconhecimento musical do mundo. Atualmente ele atua também como maestro adjunto do Festival de Música de Saint Barthelemy, nas Antilhas Francesas, e é maestro titular da Orquestra Sinfônica da Paraíba. Por sinal, nesse estado do nordeste brasileiro, Klein capitaneia outro mega projeto, o “Projeto Prima”, voltado para a inclusão social através da música e da arte em geral. A proposta do Prima é que, dentro de 2 ou 3 anos, a Paraíba tenha 40 orquestras e uma série de polos de ensino de música. Alex Klein será entrevistado nas próximas semanas pela Revista Oásis para falar do Projeto Prima e da filosofia do seu trabalho. Ele parece concordar com minhas impressões ao declarar, referindo-se ao Femusc: “Estamos assistindo a uma nova revolução. O Brasil já viveu momentos marcantes com a abolição, com a democratização, e não tenho dúvidas que teremos uma revolução com estes músicos, que serão as futuras lideranças da América Latina”.

Maestro e violinista Leon Spierer e sua esposa no coquetel de encerramento do 8º Femusc. Desde o início, Spierer apoia o festival e comparece todos os anos atuando como músico e como professor

Maestro e violinista Leon Spierer e sua esposa no coquetel de encerramento do 8º Femusc. Desde o início, Spierer apoia o festival e comparece todos os anos atuando como músico e como professor. Músico mítico, conhecido em todo o mundo, ele foi violinista spalla da Filarmônica de Berlim durante 28 anos, sob a regência de Herbert von Karajan

Alex Klein, bruxo-mor do Femusc. Mas não o único, com certeza. Na lista dos professores, em 2013, como em todos os anos anteriores, surgem nomes de tirar o fôlego. Sabem quem estava lá, dando aulas para os jovens violinistas latino-americanos? Ninguém menos que Leon Spierer, violinista mítico, spalla da filarmônica de Berlim sob a batuta do também mítico Herbert Von Karajan durante quase 30 anos! Difícil descrever o que se sente quando se vê, no interior de Santa Catarina, Leon Spierer, do alto dos seus 80 e tantos anos, regendo com resultado magnífico a Orquestra de Cordas do Femusc, formada quase inteiramente por garotos, tocando o dificílimo e belíssimo poema sinfônico “Noite Transfigurada”, de Arnold Schoemberg. Ou quando, na noite de encerramento, o mesmo Leon Spierer senta-se na penúltima fila dos violinos, em meio à garotada, para integrar a já tradicional Mega Orquestra Femusc, que reúne professores e alunos.

Marlos Nobre, considerado o maior compositor vivo do Brasil foi homenageado no 8º Femusc com a execução da sua obra PoemaIV, tendo como solista o contrabaixista romeno Catalin Rotaru

Marlos Nobre, considerado o maior compositor vivo do Brasil foi homenageado no 8º Femusc com a execução da sua obra Poema IV, tendo como solista o contrabaixista romeno Catalin Rotaru

Outro violinista da Filarmônica de Berlim na atualidade, o italiano Simone Bernardini foi mais um que arrasou, tanto tocando na Sinfonia de Câmera nº 1, também de Arnold Scoenberg, quanto nas suas máster classes. Sem falar na presença do contrabaixista clássico Catalin Rotaru, de origem romena, considerado o melhor do Brasil no momento; o violinista Charles Stegeman, concertino da Pittsburg Opera e Ballet; o percussionista português Pedro Carneiro, um dos raros instrumentistas de percussão a dedicar-se por completo à carreira de solista; o pianista baiano Ricardo Castro, hoje radicado na Suíça, que arrasou no concerto Imperador de Beethoven; o violoncelista e professor brasileiro Claudio Jaffé; o contrabaixista francês radicado no Brasil Tibó Delor. E tantos outros grandes músicos e professores – impossível citar todos – que, quase que por pura paixão, se entregaram por inteiro, durante intensos 15 dias, ao festival de Jaraguá do Sul. Sem esquecer nosso maior compositor vivo, o maestro pernambucano Marlos Nobre, convidado e homenageado pelo festival com a execução do seu Poema IV, para contrabaixo e cordas, magistralmente interpretado pelo contrabaixista Catalin Rotaru.

O Femusc possui um conjunto de 18 harpas. É o segundo maior do mundo, superado apenas pelo conjunto de 19 harpas de uma instituição musical do estado de Indiana, nos Estados Unidos

O Femusc possui um conjunto de 18 harpas. É o segundo maior do mundo, superado apenas pelo conjunto de 19 harpas de uma instituição musical do estado de Indiana, nos Estados Unidos

Qual o mistério desse fenômeno revolucionário chamado Femusc? Por que consegue atrair tantos grandes professores, tantos alunos interessados, um público tão numeroso, atento e apaixonado? As respostas seriam muitas. Mas a primeira palavra que me vem à mente é: honestidade. O Femusc não apenas parece honesto: Ele é honesto. A começar pela proposta de base: Nele não transparece nenhum outro objetivo que não seja o de promover, através da música, uma real alquimia física, intelectual, espiritual e artística em todos os participantes, público inclusive. Parece não haver politicalha no Femusc. Em momento algum ali se ouvem os costumeiros discursos verborrágicos de exaltação a líderes e a partidos políticos. Claro, os governos catarinenses, estadual e municipal, colaboram ativamente como copatrocinadores. Mas nenhum patrocinador, civil, empresarial ou governamental aparece mais do que os outros. A propaganda é mínima e discreta. O resultado dessa ausência de grandes contaminações é o que se vê: um festival de música realmente revolucionário não apenas por seus resultados mas também pelo seu caráter exemplar. Nesse sentido, recomendamos ao resto do país – e não apenas aos responsáveis por outros festivais de música e de arte em geral – que se mirem no exemplo do Femusc. Ele é a prova de que, se houver competência e paixão nas ações, se os meios e os fins forem sempre igualmente honestos e importantes, ninguém mesmo irá segurar este país.

Sinfônica do Femusc. Várias orquestras e conjuntos instrumentais são formados durante o festival, para apresentação dos alunos e professores

Sinfônica do Femusc. Várias orquestras e conjuntos instrumentais são formados durante o festival, para apresentação dos alunos e professores

Ano que vem, de 19 de janeiro a 1º de fevereiro de 2014, acontecerá a 9ª edição do Femusc. Uma das suas provas de fogo já foi revelada: nada menos que a Quinta Sinfonia de Prokofieff! Um desafio de cortar o fôlego de qualquer músico tarimbado. Reserve já o seu hotel (a entrada é franca para os espetáculos; Jaraguá do Sul é cidade encantadora, toda cercada por colinas e pela mata atlântica, com bons hotéis e restaurantes, cheia de recantos lindos para conhecer) e acompanhe o noticiário do festival no site: www.femusc.com.br Se você for músico ou estudante de música, as inscrições para as turmas de alunos serão abertas no dia 15 de agosto. O festival cobrou este ano uma taxa de R$ 400,00 por aluno, tudo incluído, cama, mesa farta e todas as aulas, cursos e espetáculos. Uma pechincha!

Crianças do Femuskinho apresentam seus trabalhos na manhã do último dia do festival

Crianças do Femuskinho apresentam seus trabalhos na manhã do último dia do festival

 

Vídeos do 8º Femusc:

 

Concerto de abertura

Cerimônia de abertura do Femusc – 8º Festival de Música de Santa Catarina, no Centro Cultural de Jaraguá do Sul, e Concerto Inaugural com a participação da Orquestra Filarmônica da SCAR – Sociedade Cultura Artística, sob a regência do maestro Norberto Garcia e a presença como solistas de Rita Costanzi e Gustavo Beaklini. Programa – “O barbeiro de Sevilha” (Giácomo Rossini), “A paixão dos anjos” (Marjan Mozetich) e “Adios nonino” e “Fuga e mistério” (ambas de Astor Piazzolla).

 

Concerto das Nações

Grupos de jovens instrumentistas das diversas nações participantes do festival se apresentam com músicas de seu país.

 

Série Grandes Concertos

Trechos de “Os Mestres Cantores de Nuremberg”, de Richard Wagner e da Sinfonia nº 10, de Shostakovich, pela orquestra sinfônica do Femusc, com regência de Catherine Larsen-Magure