Mozart tcheco. Na Boêmia, de corpo e alma

 

Praga, em pleno centro, conserva sendeiros incrivelmente bucólicos como o da foto, que leva do Castelo ao bairro de Malá Strana. Mozart o percorria com frequência.

Praga, em pleno centro, conserva sendeiros incrivelmente bucólicos como o da foto, que leva do Castelo ao bairro de Malá Strana. Mozart o percorria com frequência. 

Por: Luis Pellegrini

Fotos: Lamberto Scipioni

Wolfgang Amadeus Mozart certamente tinha a voz embargada quando exclamou “Os checos me compreendem!”, após o estrondoso sucesso da estreia da sua ópera Don Giovanni, a 29 de outubro de 1787, no Teatro Stavovské Divadlo, de Praga. Ele tinha 31 anos de idade, e a casa de espetáculos, hoje chamada de Teatro dos Nobres, era e ainda é uma das mais importantes da nação que hoje se chama República Checa. Aquela noite assinalou talvez o ápice glorioso da carreira do compositor. O coroamento da fieira de muitos outros sucessos que marcaram a presença de Mozart em terras checas. Presença que, por sinal, perdura até os dias hoje, sem dar sinal de arrefecimento. Como todos os anos nos meses quentes de verão, o Teatro dos Nobres oferece diariamente a encenação do Don Giovanni, num sistema de revezamento de elencos de cantores e músicos da orquestra. Basta reservar seu ingresso com antecedência: a sala está sempre lotada. Quem não quer apreciar essa ópera sentado na mesma poltrona onde, possivelmente, Mozart também se sentou?

 

Fachada do Teatro dos Nobres, onde Mozart estreou várias óperas, inclusive o Dom Giovanni.

Fachada do Teatro dos Nobres, onde Mozart estreou várias óperas, inclusive o Dom Giovanni.

Mozart tinha razão: os checos não apenas o compreendiam, como o amavam. Talvez até mais que em sua própria terra natal, a vizinha Áustria. Basta contar que quando ele morreu, em Viena, no dia 5 de dezembro de 1791, e em Salzburgo, onde nasceu a 27 de janeiro de 1756, as homenagens foram bem parcas. Houve um rito fúnebre na catedral de Viena e, em seguida, como chovia e fazia muito frio, o corpo do jovem compositor foi simplesmente deixado no cemitério e acabou sendo enterrado numa fossa comum destinada a indigentes. Mas em Praga, assim que chegou a notícia, seus amigos organizaram uma monumental missa de despedida na Igreja de São Nicolas. Quem visita essa igreja, no Bairro Pequeno (Malá Strana), um dos mais tradicionais de Praga, se espanta ao imaginar como couberam lá dentro mais de quatro mil pessoas que se acotovelaram para participar da homenagem a Mozart.

A plateia do Teatro dos Nobres, bem como quase todas as suas instalações, preservam a decoração e o mobiliário dos tempos de Mozart.

A plateia do Teatro dos Nobres, bem como quase todas as suas instalações, preservam a decoração e o mobiliário dos tempos de Mozart.

Praga e Mozart, uma paixão fulminante

Na Boêmia – que era então o nome da atual República Checa -, Mozart morou também nas cidades de Olomouc e Brno. Na primeira, a estada foi muito longa. Ainda menino, ele ficou lá durante meses, com a família, para fugir de uma epidemia de peste que grassava na Áustria. Morou também, por menos tempo, na cidade de Brno. Mas para ele nada se comparava à capital, Praga.

Mozart se apegou a Praga como a pouquíssimas outras cidades por onde andou na sua curta existência de musico itinerante.  Não apenas porque os praguenses gostavam dele e da sua música, mas sobretudo porque ele se identificava totalmente com alguns aspectos fundamentais da personalidade da cidade e do povo que a habita. Passei lá algumas semanas, com a intenção de descobrir qual era o mistério desse encantamento recíproco entre o compositor e Praga. Um encantamento que foi capaz de influir até mesmo no espírito da sua obra musical. Resultado: acabei encantado eu também. Sem falar no fotógrafo Lamberto Scipioni, que há muito mais tempo já se deixara seduzir pelo charme da “Cidade das Cem Torres”, como Praga é chamada.

Atravessar a Ponte Carlos à noite e penetrar na Cidade Velha, é uma experiência inesquecível.

Atravessar a Ponte Carlos à noite e penetrar na Cidade Velha, é uma experiência inesquecível.

Como Mozart, Praga possui um evidente caráter duplo, um misto de sagrado e profano que encanta e excita a mente, o coração e os sentidos. Ela é uma cinderela fascinante, embora diferente daquela narrada nos contos de fadas. De dia, sob a luz do sol, as cores vivas do seu casario antigo, dos palácios e igrejas rebrilham e a cidade aparece nas vestes de jovem adolescente. Mas, quando a noite cai, Praga surge como dama de vermelho e negro, maga misteriosa, e sob seu poder tudo se transfigura e o dourado do sol se torna prata da lua.

Imobilizado para sempre na pedra, a imagem gigantesca do Rei Carlos, na entrada da Ponte Carlos, parece vigiar a Cidade Velha.

Imobilizado para sempre na pedra, a imagem gigantesca do Rei Carlos, na entrada da Ponte Carlos, parece vigiar a Cidade Velha.

Não à toa o filósofo André Breton declarou em 1935 que Praga era “a capital mágica da velha Europa”. Essa magia não vem apenas dos astrólogos, magos e alquimistas tratados a pão-de-ló na corte do rei Rodolfo II, célebre consumidor de ocultismos, no final do século 16. Nem tem a ver com a lenda judaica do Golem, surgida mais tarde, já em época romântica – o Golem era uma espantosa criatura artificial que os magos criavam com suas artes para que se transformasse numa espécie de serviçal. Tampouco tem origem na simpática e sinuosa Rua dos Alquimistas, onde fica a minúscula casa do escritor Franz Kafka. Não, a verdadeira magia de Praga deriva do amálgama das múltiplas culturas que se fundiram naquela região, através das invasões, dos comércios e dos acontecimentos vividos pelos homens e mulheres aguerridos e orgulhosos que forjaram sua personalidade.

Santos sobre a Ponte Carlos se tornam fantasmagóricos imersos na neblina da noite em Praga.

Santos sobre a Ponte Carlos se tornam fantasmagóricos imersos na neblina da noite em Praga.

O mistério de Praga, no entanto, não é obscuro. Ele aparece em plena luz ao turista que passa pela Ponte Carlos, de 1380, a mais antiga da cidade,  sobre o rio Moldava. Monumento nacional, ela ostenta de ambos os lados nada menos que 30 conjuntos de estátuas em bronze das quais a protagonista é a de São João Nepomuceno.  Dizem que beijar ou acariciar o cachorro que permanece fiel aos pés do santo traz sorte e anula pecados. Assim sendo, embora a cor do santo seja o verde patinado do bronze antigo, seu cão é totalmente dourado de tantas mãos que lhe alisaram o pelo metálico. Da ponte descortina-se o panorama das muitas torres de Praga. Encostados nas balaustradas, e como acontece desde a Idade Média, há sempre uma porção de artistas populares, músicos que tocam e cantam, pintores e caricaturistas que tentam vender seus quadros, artesãos que aproveitam o tempo para produzir mais alguma peça, malabaristas e palhaços fazendo suas graças. Presenças que humanizam e aquecem a rigidez das pedras e a frieza dos bronzes. O espectro do jovem Mozart ainda perambula por ali, cruzando a ponte em direção à Cidade Velha, seu bairro preferido em Praga.

Panorama noturno da colina do Castelo, em Praga.

Panorama noturno da colina do Castelo, em Praga.

Um cenário de teatro barroco

Na Ponte Carlos, basta elevar a mirada para se ver a colina de Petrin e o castelo lá no alto, eminência gigantesca que domina a cidade toda. Pode-se ler de imediato o desenho do espaço urbano, a tal ponto esse lugar se oferece como grande cenário de teatro barroco.

Os mesmos ares boêmios sopram também logo depois da ponte, ao se entrar nas ruelas estreitas da Cidade velha, repleta de fachadas barrocas, de cafés e bistrôs. A maioria deles decorada com móveis de outros tempos e com grandes toldos que anunciam a bebida nacional checa: a cerveja loira tipo Pilsen, servida em jarras de meio litro. As mesas desses bares são excelentes postos de observação do vai-e-vem nas ruas, sempre apinhadas de gente que se move a pé. As ruas da Cidade Velha certamente não foram pensadas para os modernos automóveis, ônibus e motos…

O antigo Relógio Astronômico, uma das atrações da Cidade Velha, em Praga.

O antigo Relógio Astronômico, uma das atrações da Cidade Velha, em Praga.

Na praça da Prefeitura, de hora em hora, mas sobretudo ao meio-dia, as pessoas se aglomeram e elevam o olhar para observar o ritual do Relógio Astronômico. Mozart morou a poucas quadras dali e, fascinado, deve ter parado muitas vezes no local. Quando os ponteiros do relógio se juntam, os sinos dobram, uma portinhola se abre e os doze apóstolos saem por ela, um a um, com suas roupagens e atributos pessoais (São Pedro, claro, carrega uma enorme chave) e saúdam os presentes. Conclui o cortejo o galo dourado que, lá no alto das engrenagens, cacareja e bate as asas. Construído em 1410 pelo relojoeiro Mikulás de Kadari, o complexo ocupa toda a parede externa de uma torre medieval. As partes mais antigas ainda em funcionamento são a máquina mecânica do relógio e a esfera astronômica que marca com grande precisão a posição dos corpos celestes.

A cada bater das horas, os Doze Apóstolos saem de suas janelas e vêm saudar o povo.

A cada bater das horas, os Doze Apóstolos saem de suas janelas e vêm saudar o povo.

Fundada no século 9, a história de Praga oferece uma continuidade excepcional. A grande harmonia urbanística e arquitetônica que a caracteriza ainda hoje é o produto final disso. Poupada de bombardeios na Segunda Grande Guerra, a capital da República Checa permanece como uma testemunha única da história europeia. Sempre foi a capital política do ducado, e depois do reino da Boêmia. Tornou-se praticamente a capital política de toda a Europa entre 1346 e 1378, quando foi residência imperial de Carlos IV de Luxemburgo, Imperador do Santo Império. Criado na corte da França, esse rei quis fazer de Praga uma segunda Paris, num espaço muito amplo onde floresceu o esplendor da arquitetura gótica do século 14, estilo que predomina na parte mais antiga da cidade até os dias de hoje.

Villa Bertranka, o casarão onde Mozart se hospedou várias vezes durante suas visitas a Praga.

Villa Bertranka, o casarão onde Mozart se hospedou várias vezes durante suas visitas a Praga.

Compreender o sentido do mundo

Rodolfo II, da dinastia austríaca dos Habsburgos, nela estabeleceu, de 1575 a 1612, um dos grandes centros europeus do Renascimento, atraindo para lá uma multidão de pensadores, artistas e escritores, provenientes de toda a Europa, e todos empenhados num enorme esforço para “compreender o sentido do mundo”.

Uma placa assinala o caminho que leva a Villa Bertranka.

Uma placa assinala o caminho que leva a Villa Bertranka.

Tal atmosfera perdurou ao longo dos séculos seguintes e marcou desde então a própria personalidade de Praga e dos seus moradores. Foi certamente nesse contexto que lá residiu, por vários períodos, Wolfgang Amadeus Mozart. Villa Bertranka, o casarão que quase sempre o hospedava, é aberto à visitação pública e hoje virou museu dedicado ao compositor. Está quase intacto, com toda a arquitetura e o mobiliário clássicos que asseguravam o conforto de Mozart. Foi lá que ele terminou a composição do Dom Giovanni, sua obra prima. Não muito distante, no coração da Cidade Velha, o atual Teatro dos Nobres também foi muito pouco modificado ao longo dos restauros. Há pouco mais de cem metros do teatro está um apartamento onde Mozart preferia ficar durante os períodos dos ensaios de suas obras em Praga. Basta perguntar onde fica a casa de Mozart, e as pessoas indicam. Há uma placa em letras douradas designando o local. Conta-se que Mozart fez grande amizade com um coetâneo checo que morava exatamente no prédio do outro lado da rua, e que os dois conversavam em voz alta até a madrugada, cada um da sua janela, para desespero dos vizinhos.

A esplêndida Biblioteca Clementinum, no complexo arquitetônico Barroco Clementinum, em Praga. Mozart a visitou várias vezes.

A esplêndida Biblioteca Clementinum, no complexo arquitetônico Barroco Clementinum, em Praga. Mozart a visitou várias vezes.

A criação da Checoslováquia, em 1918, apenas confirmou, na forma de um Estado independente, as posições de autonomia conquistadas ao longo dos séculos precedentes. Mas, de 1938 a 1989, os dois totalitarismos invasores – o alemão e o soviético – quiseram extrair Praga e toda a Boêmia da Europa ocidental. A ocupação alemã, de 1939 a 1945, foi demasiado curta para conseguir isso. O comunismo, imposto aos checos em fevereiro de 1948, a integrou num bloco oriental, brutal e totalmente ignorante das suas tradições históricas, culturais e anímicas. Os invasores russos tentaram tudo para quebrar as instituições democráticas, a vida social. A língua russa tornou-se praticamente o idioma oficial, de ensino obrigatório, e a cidade empobrecida, imersa na burocracia e na corrupção estatal, foi obrigada pela primeira vez a se descuidar do seu imenso patrimônio arquitetônico. Ele só pode ser restaurado e salvo a partir de 1989, quando a liberdade voltou a reinar na república.

A nave principal da Catedral de Praga.

A nave principal da Catedral de Praga.

Uma capital religiosa

A alcunha de “cidade das cem torres” é motivo de orgulho para os checos. Essas torres não são apenas decorativas, mas sim testemunhas de uma vida religiosa intensa. O cristianismo é a religião dominante desde o século 8. São Venceslau, duque da Boêmia entre 921 e 935, consolidou na cidade a aliança entre dinastia real e religião. Logo depois, no reinado de Carlos IV, Praga se encheu de mosteiros e igrejas. A vida cultural já era intensa, antes mesmo da fundação por Carlos IV da universidade que leva seu nome. Primeira universidade da Europa central, ela também foi, até o início do século 15, a única do império.

Detalhe de um dos vitrais da Catedral de Praga.

Detalhe de um dos vitrais da Catedral de Praga.

Desde a Idade Média, os judeus estiveram presentes em Praga, vivendo num bairro separado, dotado de suas próprias instituições e com o direito de praticar livremente as suas tradições religiosas. A comunidade judaica de Praga abriu-se ao mundo moderno no século 19, assimilando-se com rapidez, integrando-se na sociedade alemã e depois, no final desse século, igualmente ao nacionalismo checo. O nazismo eliminou cerca de 90% da população de 130 mil judeus que ocupavam o bairro. Os que conseguiram se salvar emigraram para outros países europeus ou para as Américas (o Brasil acolheu parte deles). Mas o velho cemitério judeu, um dos mais antigos, belos e melhor conservados de toda a Europa, permaneceu em seu lugar, intacto. Bem como as sinagogas muito antigas que hoje fazem parte da paisagem urbana de Praga.

O Cemitério Judaico de Praga é um dos mais antigos e mais bonitos de toda a Europa.

O Cemitério Judaico de Praga é um dos mais antigos e mais bonitos de toda a Europa.

Vida artística e intelectual

Praga é uma extraordinária cidade-museu, perfeita para ser descoberta em caminhadas a pé. Todos os períodos artísticos, desde a arte romana até a arquitetura mais contemporânea nela estão representados. O patrimônio cultural da cidade é simplesmente impressionante. Não existem apenas alguns poucos edifícios góticos, mas sim dois bairros inteiros: o Castelo e a Malá Strana (Cidade Velha). Eles convivem perfeitamente com extensas áreas de arquitetura barroca, edificada no século 17. A arte dos séculos 19 e 20 também não se restringe a alguns edifícios isolados, mas está presente em ruas inteiras, em bairros inteiros dedicados à arquitetura do romantismo e do modernismo. No centro da cidade, ao lado de belas construções como o Hotel Europa, se eleva a Prefeitura, obra-prima absoluta do estilo Secessão. No começo do século 20, e no período entre as duas grandes guerras, desenvolveu-se um estilo funcionalista, influenciado pelas regras da Bauhaus e dos primeiros modernistas alemães, e também pelo cubismo. O período comunista constituiu um parêntese catastrófico com o surgimento de periferias mal construídas, cheias de prédios cinzentos feitos de paredes pré-fabricadas de concreto armado. Mas quando a independência voltou, grandes arquitetos internacionais voltaram a se dedicar a Praga, produzindo obras muito interessantes, no estilo mais contemporâneo, como é o caso da Casa que Dança, projetada por Frank Gehry.

A suntuosidade dos museus de Praga brilha na Galeria Nacional, com os museus de Arte Antiga, o museu do século 19, e também do Museu de Arte Contemporânea recentemente inaugurado, o segundo na Europa central, após Budapeste.

O Castelo visto desde a margem do rio Moldava.

O Castelo visto desde a margem do rio Moldava.

Se os turistas ocidentais – inclusive um número crescente de brasileiros – se aglomeram nas ruas da cidade rapidamente modernizada, se hoje jovens provenientes das três Américas, alemães, franceses, italianos ou ingleses decidem estudar e viver alguns anos em Praga,  é porque na cidade sopram ventos realmente particulares , carregados de ricas tradições históricas, do charme da vida quotidiana, de uma sociabilidade alegre que foi recuperada. A civilização que encontramos em Praga, e em toda a república Checa, é a mesma do resto da Europa Ocidental, porém com mais calor humano, mais contato com a natureza esfuziante das florestas e dos rios da Boêmia Central. E tudo movido por uma gastronomia farta, cheia de sabores antigos, onde as regras homeopáticas da Nouvelle Cuisine parecem ser abominadas. Haja visto as enormes porções de pato, marreco, lombinhos de porco, embutidos, queijos, chucrutes, massas e pães que são servidas na maior parte dos restaurantes. E tudo regado a muita cerveja Pilsen. Em Praga, fica fácil perceber por que Mozart se apaixonou por ela, e ela por ele…

Serviço: A oferta de hotéis em Praga é muito grande e de boa qualidade. Para quem deseja uma sugestão, indicamos o Four Seasons Hotel, instalado num sítio privilegiado, à beira do rio Moldava, entre a Ponte Carlos e a entrada da Cidade Velha. Cinco estrelas com todos os confortos modernos, todos os seus quartos têm vista para o rio e para o castelo. À direita do hotel, existe um pequeno parque na margem do rio. O lugar é mágico, e o panorama que se contempla, bem como a sua atmosfera de magia antiga, sobretudo à noite, fazem dele um sítio inesquecível.  Endereço: Veleslavínova 1098/2a, 110 00 Praga 1-Staré M?sto, República Checa.Tel.+420 221 427 000. Site: www.fourseasons.com/prague/

 

Galeria de imagens: O fotógrafo Lamberto Scipioni selecionou algumas fotos, dentre as muitas centenas que fez, em Praga, Olomouc, Brno e Karlovy Váry, as principais cidades que Mozart frequentou na atual República Checa.

 

Efígie de Mozart sob as janelas do seu apartamento, no coração da Cidade velha, em Praga.

Efígie de Mozart sob as janelas do seu apartamento, no coração da Cidade velha, em Praga.

À direita, o apartamento de Mozart no centro da Cidade Velha. À esquerda morava o amigo checo com quem ele varava as madrugadas conversando, de janela a janela.

À direita, o apartamento de Mozart no centro da Cidade Velha. À esquerda morava o amigo checo com quem ele varava as madrugadas conversando, de janela a janela.

Parte superior do magnífico órgão da Capela dos Espelhos, no Clementinum, tocado por Mozart várias vezes.

Parte superior do magnífico órgão da Capela dos Espelhos, no Clementinum, tocado por Mozart várias vezes.

Detalhe do órgão no Clementinum.

Detalhe do órgão no Clementinum.

A Igreja de São Nicolau, uma das favoritas de Mozart em Praga.

A Igreja de São Nicolau, uma das favoritas de Mozart em Praga.

Em todo o esplendor do estilo clássico, o órgão da Igreja de São Nicolau, em Praga, era um dos instrumentos prediletos do compositor.

Em todo o esplendor do estilo clássico, o órgão da Igreja de São Nicolau, em Praga, era um dos instrumentos prediletos do compositor.

Entrada da capela do Mosteiro Strahov, um dos mais importantes em Praga.

Entrada da capela do Mosteiro Strahov, um dos mais importantes em Praga.

Arco homenageia a imperatriz austríaca Maria Teresa e assinala a entrada da cidade de Olomouc. Mozart passou sob esse arco quando chegou à cidade.

Arco homenageia a imperatriz austríaca Maria Teresa e assinala a entrada da cidade de Olomouc. Mozart passou sob esse arco quando chegou à cidade.

Pátio interno do Mosteiro de São Venceslau, em Olomouc, onde Mozart e sua família se refugiaram quando houve epidemia de peste em Viena.

Pátio interno do Mosteiro de São Venceslau, em Olomouc, onde Mozart e sua família se refugiaram quando houve epidemia de peste em Viena.

Em Olomouc, o caminho que levava do mosteiro até o hospital militar era quase diariamente percorrido a pé por Mozart ainda menino.

Em Olomouc, o caminho que levava do mosteiro até o hospital militar era quase diariamente percorrido a pé por Mozart ainda menino.

O Hospital Militar, em Olomouc, ponto de chegada das caminhadas do jovem Mozart.

O Hospital Militar, em Olomouc, ponto de chegada das caminhadas do jovem Mozart.

Em Brno, o casarão onde Mozart morou em Brno, hoje transformado em Centro Cultural do município. A estátua de bronze representa o compositor ainda muito jovem.

O casarão onde Mozart morou em Brno, hoje transformado em Centro Cultural do município. A estátua de bronze representa o compositor ainda muito jovem.

Ângulo noturno da área central de Brno, cidade que Mozart visitou várias vezes.

Ângulo noturno da área central de Brno, cidade que Mozart visitou várias vezes.

Mozart amava caminhar horas a fio por caminhos solitários como esse que ladeia um pequeno rio nas proximidades da cidade de Brno.

Mozart amava caminhar horas a fio por caminhos solitários como esse que ladeia um pequeno rio nas proximidades da cidade de Brno.

Carroças de passeio esperam passageiros na rua central das Termas de Karlovy Váry, lugar que o compositor adorava.

Carroças de passeio esperam passageiros na rua central das Termas de Karlovy Váry, lugar que o compositor adorava.

 Panorama de Karlovy Váry a partir de um bosque em pleno outono.


Panorama de Karlovy Váry a partir de um bosque em pleno outono.

Numa colina de Karlovy Vary está o túmulo do filho de Mozart que tinha o mesmo nome do pai.

Numa colina de Karlovy Vary está o túmulo do filho de Mozart que tinha o mesmo nome do pai.

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O futuro bate à porta. As máquinas vão tomar os nossos empregos?

 

O aprendizado de máquina não se destina mais apenas a tarefas simples, como avaliar risco creditício e separar correspondências. Hoje, ele é capaz de aplicações muito mais complexas, como corrigir redações escolares e diagnosticar doenças. Com esses avanços, surge uma questão incômoda: será que no futuro um robô vai tomar o nosso emprego?

 

Vídeo: TED – Ideas Worth Spreading

Tradução: Raissa Mendes. Revisão: Maricene Crus

Anthony Goldbloom é um dos fundadores da empresa Kaggle, que organiza eventos e competições a respeito de processos de aprendizado das máquinas. Através dos sistemas da Kaggle, cientistas fazem o download de dados e o upload de soluções para os mais diferentes problemas. A empresa possui uma comunidade de mais de 600 mil cientistas e trabalha com mega-companhias que vão do Facebook à gneral Electric, tratando de questões que vão de como prever o aparecimento de novas amizades até os tempos de chegada de aviões.

Vídeo: Conferência de Anthony Goldbloom no TED

Tradução integral da palestra de Anthony Goldbloom:

Essa é minha sobrinha. O nome dela é Yahli. Ela tem nove meses. A mãe é médica; o pai, advogado. Quando a Yahli entrar para a faculdade, o trabalho que os pais fazem vai estar radicalmente diferente.

Em 2013, pesquisadores da Universidade de Oxford fizeram um estudo sobre o futuro do trabalho e concluíram que praticamente um em cada dois empregos possui um alto risco de ser automatizado por máquinas. O aprendizado de máquina é a tecnologia responsável por grande parte dessa revolução. É o ramo mais poderoso da inteligência artificial. Permite que máquinas aprendam com dados e imitem algumas das coisas que os humanos fazem. Tenho uma empresa de ponta no aprendizado de máquina, a Kaggle. Reunimos milhares de especialistas para resolver problemas importantes para a indústria e o mundo acadêmico. Isso nos dá uma perspectiva única sobre o que as máquinas podem fazer, o que não conseguem fazer e quais empregos elas vão automatizar ou ameaçar.

Anthony Goldbloom

Anthony Goldbloom

O aprendizado de máquina começou na indústria no início da década de 90. Primeiro, com tarefas relativamente fáceis, coisas como avaliar o risco creditício de empréstimos, e separar a correspondência pela leitura do número do CEP manuscrito. Nos últimos dez anos, temos feito avanços incríveis. O aprendizado de máquina agora é capaz de tarefas bem mais complexas. Em 2012, a Kaggle desafiou sua comunidade a fazer um algoritmo que corrigisse redações do ensino médio. Os algoritmos vencedores foram capazes de se equiparar às notas dadas por professores humanos. Ano passado, lançamos um desafio ainda mais difícil: conseguir, com imagem dos olhos, diagnosticar uma doença ocular chamada de retinopatia diabética. De novo, os algoritmos vencedores foram capazes de se equiparar aos diagnósticos dados por oftalmologistas humanos.

De posse dos dados certos, as máquinas superarão os humanos nesse tipo de tarefa. Um professor pode ler 10 mil redações ao longo de uma carreira de 40 anos. Um oftalmologista pode examinar 50 mil olhos. Uma máquina pode ler milhões de redações ou examinar milhões de olhos em poucos minutos. Não temos a menor chance de competir com as máquinas em tarefas frequentes e volumosas.

No entanto, há coisas que conseguimos fazer, mas as máquinas não. As máquinas têm feito pouco progresso em lidar com situações novas. Elas não conseguem lidar com coisas que não viram muitas vezes antes. As limitações fundamentais do aprendizado de máquina é que ele precisa aprender através de grandes volumes de dados passados. Mas os humanos não. Temos a habilidade de ligar pontos aparentemente díspares para resolver problemas que nunca vimos antes.

Percy Spencer foi um físico que trabalhava com radar durante a Segunda Guerra, quando notou que o magnetron estava derretendo sua barra de chocolate. Ele foi capaz de ligar seu conhecimento de radiação eletromagnética com seu conhecimento culinário para inventar… algum palpite? O forno micro-ondas.

Esse é um exemplo especialmente notável de criatividade. Mas esse tipo de polinização cruzada acontece com todos nós em pequena escala, milhares de vezes ao dia. As máquinas não conseguem competir conosco quando se trata de situações novas, e isso coloca um limite fundamental nas tarefas humanas que as máquinas vão automatizar.

Assim, o que isso significa para o futuro do trabalho? O futuro de cada emprego está na resposta a uma única questão: “Até que ponto esse emprego é reduzível a tarefas frequentes e volumosas, e até que ponto ele envolve lidar com situações novas?” Em tarefas frequentes e volumosas, as máquinas estão cada vez melhores. Hoje elas corrigem redações e diagnosticam certas doenças. Nos anos vindouros, vão realizar auditorias e vão ler informações básicas de contratos legais. Contadores e advogados ainda serão necessários para tarefas fiscais complexas e litígios inovadores. Mas as máquinas vão cortar postos e tornar mais difícil a obtenção desses empregos.

Como mencionei, as máquinas não estão obtendo progresso em situações novas. O texto de uma campanha publicitária precisa prender a atenção do consumidor. Tem de se destacar na multidão. Estratégia empresarial é achar lacunas no mercado, algo que ninguém esteja fazendo. São seres humanos que vão criar o texto dessas campanhas publicitárias, e serão eles que vão desenvolver nossa estratégia de negócios.

Assim, Yahli, seja lá o que você decida ser, deixe que cada novo dia lhe traga um novo desafio. Se trouxer, então você vai estar à frente das máquinas.

Obrigado.

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Capacete eletrônico

A vingança do livro. Pendrive telepático derrubará o Google e o Facebook

 

Ler em 2040 será um anacronismo, quer por razões tecnológicas quer por já não termos capacidade de concentração. A vingança póstuma do livro é que, por sua vez, a telepatia eletrônica destronará o YouTube e o iPad.

Por: Hernán Casciari

Fonte: Jornal El Mundo – Madri

Participo de um simpósio de pessoas cultas, no México. Convidaram-me para dissertar sobre o futuro do livro. Embora a sala esteja repleta de personalidades eminentes ainda consigo um lugar na segunda fila. Como a minha apresentação é no dia seguinte, entretenho-me ouvindo o orador, mas depressa me disperso. No século 20 conseguia concentrar-me sem problemas. Podia ler e escrever durante horas ou assistir a longas conferências e ouvi-las atentamente. Agora, não.

Pouco a pouco foi acontecendo qualquer coisa. Ao princípio, não tinha importância e não me apercebi. É como um sapo que nada num tacho de água morna sob o qual foi aceso o lume. O sapo não se dá conta de que a água começa a aquecer e não tenta fugir. Quando finalmente se apercebe do perigo da ebulição já é tarde demais: o sistema nervoso deixa de ter capacidade de resposta e o sapo não consegue saltar de lá para fora. Aconteceu-me qualquer coisa deste gênero. Já não consigo concentrar-me meia hora sem ir consultar as últimas novidades na internet, sem olhar para outro lado, sem passar o dedo no iPad. A minha cabeça divaga e eu me evaporo.

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A apresentação dura há um quarto de hora. Olho para a quantidade de páginas que o conferencista ainda tem para ler e tento perceber quanto tempo falta. “Dez minutos? Quinze? Talvez vinte. Será que ao menos o texto está impresso em helvética corpo 16? Espero que tenham utilizado dupla entrelinha”. Ao fim de 20 minutos acontece um fenômeno peculiar: todos os membros da assistência tiram os celulares do bolso e ligam para alguém a pretexto de qualquer coisa.

Vidrados no celular

Normalmente fazemos de conta que vamos publicar no Twitter uma frase notável do orador. Na realidade, o que queremos é ver a telinha acesa. Isso evita que nos sintamos ligados a outra coisa: é só para dar uma olhada nas mensagens do correio eletrônico, saber que horas são no nosso país de origem, saber o que dizem nas redes sociais os que não tiveram oportunidade de assistir a este simpósio no México.

Entretanto, a apresentação segue o seu curso e, para cúmulo da desgraça, o orador é muito inteligente. Tento retomar o fio da meada do discurso, mas o celular vibra na minha mão para me trazer novas informações tão urgentes como fúteis (que jogadores do Barcelona vão jogar contra o time do Real Madrid, por exemplo). Quando fico sabendo que a apresentação será publicada integralmente na internet daqui a alguns dias, e que a poderei ler na próxima semana, começo a pensar noutra coisa e já sem sentimento de culpa.

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O futuro do papel

Penso que, no dia seguinte, estarei no lugar do pobre orador. Terei de dissertar sobre o futuro do livro durante uma hora, ouvir burburinho ao fim de um quarto de hora e ver aparecer celulares na plateia cinco minutos depois de começar a falar.

Digo a mim mesmo que, então, poderei admitir, perante a plateia, que o futuro do livro me é absolutamente indiferente. Idem para o futuro do papel, da mídia eletrônica, da coexistência dos dois, da morte de um ou de ambos. idem para o que é saber se as pessoas leem menos ou mais que há trinta anos, ou como os autores, os jornalistas e os editores irão fazer para manter o seu nível de vida e pagar as prestações quando toda a gente obtiver conteúdos gratuitos na internet e a indústria não se importar com isso. É-me indiferente.

A minha filha é uma criança da Era digital. Às vezes digo a ela: “Filha, pega neste livro de quando eu era pequeno, sente o cheiro da tinta e do papel”. Ele me devolve o livro e diz: “*Que horror, cheira mal!”

O que me importa agora, o que me incomoda terrivelmente é já não conseguirmos nos concentrar. É isso que me inquieta. É o fato de não conseguirmos ler, escrever e ouvir os outros.

Nesta sala, no decorrer do simpósio somos todos muito inteligentes e estamos muito acordados. Não somos pessoas que não leem. Somos uma elite de pessoas preocupadas com o futuro da palavra impressa. Na sala estão editores, bibliotecários, escritores, humanistas, livreiros, jornalistas.

Em outras palavras, descemos à terra para refletir sobre o que devemos fazer para que os outros leiam. Os outros. Para nós está tudo aparentemente bem. Nós que participamos de seminários e simpósios, nós que não temos problemas desse tipo… Ou será que temos? Será que lemos como antes? Com a mesma concentração?

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Perdidos na conferência

É isso mesmo: acho que não. Quando estamos sozinhos num quarto de hotel, neste simpósio ou em qualquer outro lugar, a maioria de nós, os iluminados, já não conseguimos nos concentrar nem mesmo no que nos estimula. E seguramente não são os livros, digitais ou em papel. Então, que fazemos com o nosso tempo livre? Eles, os outros participantes não sei, mas eu, se tiver de trazer a lume o meu histórico de navegação na internet de ontem à noite no hotel, ficarei muito envergonhado.

O conferencista continua a ler. Faltam-lhe apenas dez páginas para terminar e nós estamos tristes e enfadados nas nossas cadeiras de veludo.

De repente penso numa coisa horrível. Imagino que numa realidade paralela somos pouco a pouco transformados em bulímicos e anoréxicos, sem conseguirmos evitá-lo. Por causa disto organizamos simpósios para saber se é melhor cozinhar em fogões tradicionais ou em microondas.

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Somos pele e osso, temos os olhos encovados e padecemos de problemas alimentares, mas dizemos alto e bom som que “mesmo que o micro-ondas seja o futuro, o forno a lenha nunca morrerá completamente”.

E ninguém neste mundo paralelo, questiona o que vai fazer para voltar a provar comida com prazer. Nem pergunta como evitar que as crianças vão para os banheiros vomitar escondidas. Muito menos como poderemos voltar a gostar de comer de boca aberta sem nos preocuparmos onde os alimentos foram cozinhados.

A minha filha é uma criança da Era digital. Não tem a menor nostalgia dos livros em papel. Às vezes lhe digo: “Filha, pega este livro de quando eu era pequeno. Sente o cheiro da tinta e do papel de vez em quando”. Ela me devolve o livro, dizendo: “Que horror, cheira mal!” Tem razão. Tenho inveja da falta de nostalgia do papel da minha filha. É mais feliz ao ver vídeos no YouTube ou utilizando aplicações do iPad do que lendo livros ou revistas. Até há pouco tempo isso me preocupava. Agora, percebo o meu erro, e a coisa me é indiferente. Não acredito que, daqui a trinta anos, o mundo continue a considerar a concentração uma virtude.

Somos o sapo na água fervente. É tarde demais para saltar fora do tacho e nos salvar.

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Em 2040, quanto a minha filha for da minha idade, talvez seja convidada para o III Simpósio Mundial dos Pendrives Telepáticos. Nessa altura, os conteúdos culturais entrarão na nossa cabeça através de uma entrada USB em menos de um minuto: “Bzzzzzz! Ler Dom Quixote ou o Lusíadas vai demorar tanto como hoje para se copiar um arquivo. Em vinte segundos, o utilizador terá dentro da cabeça as aventuras de Alonso Quijano (o Quixote) sem necessidade de ler o livro. Então a minha filha irá a este simpósio e sentirá nostalgia do iPad, dos tempos em que as pessoas ainda viam vídeos no YouTube durante nove minutos sem pestanejar…

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