Sexting. A nova ameaça para os adolescentes?

 

Houve a “era Playboy”, depois a revolução sexual, e agora, na era tecnológica atual, o sexting: neologismo inglês derivado da junção das palavras sex + texting, significando envio de mensagens eletrônicas de texto com conteúdo sexual. É apenas uma forma inofensiva de expressão sexual, ou trata-se de um fenômeno cada vez mais disseminado que está causando danos irreparáveis aos adolescentes?

 

Por: Meg Barbor, De Nova Orleans, EUA

Fonte: Site https://portugues.medscape.com

 

No congresso de 2017 do Institute of Psychiatric Services (IPS): The Mental Health Services 2017 Conference, a Dra. Swathi Krishna, médica, falou sobre o advento do sexting e suas possíveis repercussões entre os jovens.

O termo “sexting” costuma ser usado para abranger uma ampla variedade de atividades digitais. É mais comumente usado para descrever o ato de enviar, receber ou reencaminhar mensagens ou imagens de conteúdo sexual explícito, principalmente entre telefones celulares. O termo também pode se referir ao envio de mensagens com conteúdo sexual explícito por meio de mídias digitais, como e-mail, mensagens instantâneas e postagens em aplicativos de mídia social, como o Snapchat.

Segundo a Dra. Swathi, especialista em psiquiatria da criança e do adolescente na Emory University, em Atlanta, Georgia, o sexting é um exemplo de uma ampla mudança na expressão sexual, semelhante à revolução sexual da década de 60.

Estas mudanças alteraram o modo como a sociedade encara os modelos de expressão existentes, muitas vezes com consequências não intencionais com as quais a sociedade precisa lidar mais tarde.

“Nós tendemos a pensar nisso como sendo um desvio comportamental da juventude, mas eu acho que é mais produtivo pensar no sexting como um tipo de casamento natural entre o que já ocorria em termos de expressão sexual e a tecnologia”, disse a psiquiatra.

“Quando pensamos nestes comportamentos como sendo mais normais do que achávamos anteriormente, isso irá nos ajudar, como médicos e profissionais da saúde mental, a falar mais abertamente com os jovens e a entender que isso está acontecendo de forma bastante ampla”.

Em um estudo publicado no periódico Sexual Health em 2016, os pesquisadores fizeram uma enquete com 5.805 adultos solteiros entre 21 e 75 anos de idade. Vinte e um por cento dos participantes informaram enviar mensagens de texto com conteúdo sexual explícito, e 28% disseram receber este tipo de mensagens. Cerca de 30% referiram compartilhar essas mensagens com três amigos, em média. Os participantes do estudo também disseram se preocupar com as potenciais consequências do sexting na própria sua vida social, na sua carreira e no seu bem-estar psicossocial.

“Uma coisa a destacar é que pelo menos os adultos talvez pensem duas vezes”, observou a Dra. Swathi. “Os adultos têm consciência das potenciais consequências de seus atos, o que não costuma acontecer entre os mais jovens”.

Comportamento de risco

De acordo com a lei federal norte-americana, as imagens com conteúdo sexual explícito de menores de 18 anos são consideradas pornografia infantil, mesmo que os próprios menores tenham feito as imagens. Muitos menores desconhecem as implicações legais do sexting, para não falar nas possíveis consequências sociais, como a humilhação, a intimidação e as repercussões negativas para a reputação.

“Algumas vezes, nessa faixa etária, conversar sobre as ramificações sociais pode ter muito mais resultado do que falar sobre a questão legal”, disse a médica.

Em um estudo-sentinela de 2012, feito com 948 estudantes do ensino médio entre 14 e 19 anos de idade, 28% dos participantes informaram enviar fotos suas em que aparecem nus, ou “sexts”, por meio de aplicativos de mensagem de texto ou e-mail. Mais da metade revelou ter sido solicitada a enviar um sext de si, e 31% disseram ter pedido para alguém enviar um sext. Meninas tiveram uma probabilidade 25% maior de serem solicitadas a enviar um sext seu, e os meninos foram 25% maior propensos a pedir um sext do que as meninas.

“Então, mais da metade revelou ter sido solicitada a enviar fotos sem roupa, dentre os quais um terço enviou. Isso é muito alarmante”, observou a Dra. Swathi.

“Isso aconteceu antes do Snapchat (aplicativo multimídia de celular para o envio de mensagens e imagens que pode ser usado para enviar conteúdo que pode ser rapidamente apagado após o envio), então agora provavelmente isso está acontecendo em índices muito mais altos com a tecnologia e a mídia social modernas”.

Apenas 3% dos meninos se sentiram incomodados por ter recebido um pedido de sext, em comparação com 27% das meninas. “Isso pode evidenciar um discreto risco de vitimização sexual para meninas do ensino médio”, disse a Dra. Swathi.

“Elas se sentem mais incomodadas, mas de todo o modo fazem o que lhes é solicitado, enquanto os meninos não se incomodam mesmo”. Neste estudo, o comportamento de sexting chegou ao ápice dos 16 anos aos 17 anos, diminuindo a seguir.

Em um estudo de 2014 publicado no periódico Sexuality Research and Social Policy, os pesquisadores entrevistaram estudantes universitários de uma grande universidade do nordeste dos Estados Unidos sobre o comportamento deles enquanto frequentaram o segundo grau. Mais da metade disse ter trocado sextings quando era menor de idade. A maioria dos que responderam (61%) não sabia que enviar imagens com conteúdo sexual explícito configura prática de pornografia infantil, o que é crime passível de punição. Além disso, 59% dos entrevistados disseram que saber das consequências legais os “teria”, ou “provavelmente teria”, dissuadido de trocar sextings. “Ou seja, podemos fazer diferença”, disse a Dra. Swathi.

O comportamento de trocar sexting foi correlacionados a início de namoro ou a ter tido vários parceiros sexuais durante o ensino médio, e ao uso de álcool ou drogas antes da atividade sexual. As correlações entre o sexting e outros comportamentos sexuais de risco, como fazer sexo sem preservativo e ter múltiplos parceiros, foram sugeridas, porém não foram comprovadas.

Más escolhas

A Dra. Caitlin Costello, psiquiatra infantil e forense da University of California em San Francisco, que copresidiu a sessão, disse que a maturidade cognitiva é alcançada por volta dos 16 anos, porém a maturidade psicossocial — a capacidade de compreender os riscos, resistir aos impulsos, resistir à influência dos amigos e pensar no futuro em vez de somente no presente — só começa em torno dos 15 anos de idade. Consequentemente, os jovens aos 15 anos têm o mesmo nível de maturidade psicossocial das crianças de 10 anos.

“De modo que, na faixa dos 15 aos 16 anos, você tem um grupo de adolescentes maduros cognitivamente, mas que fazem péssimas escolhas, porque a maturidade psicossocial ainda não é plena. São estes os adolescentes que nos preocupam. É plausível que façam boas escolhas on-line? Provavelmente não “, disse a psiquiatra.

Segundo a Dra. Caitlin, pedir a opinião de adultos é um dos fatores que levam à tomada de decisões maduras entre os adolescentes. Os profissionais da saúde mental pode ser estes orientadores, potencialmente mitigando os riscos, ou ajudando os adolescentes que fizeram coisas das quais se arrependeram.

Os profissionais de saúde devem considerar o risco de vitimização sexual associado ao sexting, disse a Dra. Swathi. Um artigo recente publicado no New York Times relatou que mais de metade dos adolescentes tinha saído com alguém que havia tentado monitorá-los ou controlá-los por meio de conteúdo digital (ou seja, espalhando rumores, postando mensagens embaraçosas ou ofensivas, ou fazendo ameaças).

Mais de um terço sofreu coerção sexual digital, inclusive sendo pressionado a fazer sexo, recebendo imagens de conteúdo sexual indesejadas, sendo constrangido a enviar imagens de conteúdo sexual, ou por alguém tendo enviado fotos suas nuas para outras pessoas sem a sua permissão.

Dra. Caitlin insistiu com os médicos para que façam perguntas sobre a atividade on-line de seus pacientes adolescentes e para que orientem os pais a fazer perguntas a esse respeito, e a falar diretamente com os filhos adolescentes sobre os riscos on-line. Perguntas como: “Como você se sentiria se o seu irmão/professor/técnico visse o que você estava enviando?” podem ser úteis.

Dra. Caitlin aconselhou que os pacientes sejam informados sobre as consequências sociais e legais não intencionais, como perder o poder sobre as imagens do próprio corpo. “Abra este diálogo com os adolescentes”, disse a médica.

“Nós não sabemos se está melhorando. Trata-se de uma área relativamente nova de estudo, mas estamos falando sobre isso mais como um comportamento normativo, e isso poderia estar ajudando”, disse a Dra. Swathi. Orientadores e professores nas escolas de ensino médio estão atualmente falando sobre o assunto com os alunos, o que há alguns anos não acontecia.

“Estes são temas desconfortáveis para os adolescentes e os pais, mas o diálogo aberto é realmente importante. Foi constatado que falar sobre suicídio não leva ninguém a se matar. O mesmo acontece aqui. Se você conversar com eles sobre sexting, isso não quer dizer que eles vão começar a trocar sextings,” disse a médica.

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