Deixar para depois. Quando postergar as coisas se torna um vício

 

Como a preguiça, a mania de deixar para amanhã aquilo que poderíamos fazer hoje faz parte da natureza humana. Mas quando adiar a execução das tarefas vira hábito, isso pode nos paralisar e impedir nosso desenvolvimento. Aqui estão alguns truques para superar o problema.

Por: Equipe Oásis

Nos últimos tempos, em nosso país, nos habituamos a ver juízes supremos sentados em cima de pilhas de processos postergando ad infinitum pareceres e decisões que, muitas vezes, são de grande importância para a comunidade e a nação. O mau exemplo, no caso, vem cima: Se magistrados togados procrastinam, por que não podemos procrastinar? Mas há uma diferença fundamental: juízes o fazem também por interesses pouco confessáveis; nós, em geral, o fazemos por pura preguiça. Diferenças à parte, o que importa é que a prática generalizada do atraso, do adiamento, da procrastinação costuma acarretar resultados e consequências muito negativos.

Procastinar (*) é um verbo que parece palavrão, tanto pela sua sonoridade quanto pelo significado intrínseco. Procastinamos no trabalho, nas tarefas domésticas, no cuidado com as nossas relações pessoais, nas consultar médicas, etc. Procastinar, ou seja, adiar de um dia para outro todos aqueles pequenos e aborrecidos deveres é uma postura “clássica” da nossa espécie, a tal ponto que, desde sempre, filósofos e pensadores se debruçaram sobre a questão.

Ninguém ainda encontrou uma resposta completa, nem inventou uma vacina contra a preguiça e a tendência a deixar para amanhã aquilo que podemos fazer hoje. Mas existem algumas posturas que, se adotadas, podem remediar e até mesmo sanar o vício. Curiosamente, todas elas têm a ver com questões muito mais profundas da nossa estrutura psíquica e existencial. Veremos, abaixo, o quanto e como a procrastinação tem a ver com o medo, o autoengano, os condicionamentos que sofremos desde a mais tenra infância, e também alguns mecanismos automáticos. Aqui vão algumas sugestões:

1 – Dar o primeiro passo – Você escolheu ler imediatamente este artigo em vez de salvá-lo na despensa dos “preferidos” para lê-lo no Dia de São Nunca? Meus parabéns! Você já deu o primeiro passo para vencer a tendência à procrastinação: estabelecer um alvo mínimo, tão próximo e tão fácil de ser executado que até mesmo a sua parte mais preguiçosa não terá nada a objetar. Cientistas do comportamento testaram esse tipo de abordagem em um grupo de estudantes, e constataram que, iniciada uma tarefa, eles a julgam menos estressante e difícil, e até mesmo mais agradável, do que pensavam antes de começar. Tim Pychyl, que chefiou um desses grupos de pesquisas na Universidade de Carleton, Canadá, afirma que os estudantes disseram coisas do gênero “não sei porque deixava essa tarefa sempre para o amanhã, pois ela não é assim tão desagradável e aborrecida”, e também “teria produzido um trabalho muito melhor se tivesse começado antes”. Portanto, se você precisa produzir um e-mail que procrastina há muito tempo, experimente impor sua vontade sobre a preguiça. Comece ao menos por ligar o computador: apenas fazendo isso você experimentará uma gratificação que o levará a continuar. 

2 – Reconhecer as razões pelas quais você procrastina – Com frequência, procrastinar não é apenas uma questão de organização do tempo, mas um modo para se regular emoções mais profundas.: uma tarefa desagradável, o medo do fracasso, questões de autoestima. Em alguns desses casos podemos nos convencer de que “não estamos com o estado de espírito ou de humor adequado para aquele desempenho” apenas porque não dispomos dos instrumentos para enfrentar temores profundamente radicados. Dar um nome à emoção que se esconde atrás da exigência de procrastinar pode ajudar no enfrentamento (às vezes é necessária a ajuda de um psicoterapeuta para se vencer a barreira). Reformular as coisas, ou seja rever o modo como se percebe uma situação, pode ajudar a enfrentá-la e até mesmo a evitá-la.

3 – De qual tipo de adiamento se trata? – Combater um inimigo que possui contornos incertos e nebulosos é uma empreitada difícil: comece por classificar o tipo de procrastinação que você precisa enfrentar. Quando falamos de atrasos, por exemplo, existem vários tipos diferentes:

– inevitáveis: porque você está cheio de compromissos, ou porque precisa colocar tudo em compasso de espera para poder se ocupar de uma crise mais urgente (um familiar que precisa ser acudido, uma emergência no trabalho, etc);

– de arousal (ativação, excitação): muitas pessoas funcionam melhor quando se acham sob pressão, e por esse motivo esperam até o último momento para se lançar à tarefa;

– hedonistas: primeiro o prazer, depois o dever. São os atrasos motivados pela escolha de obter uma gratificação imediata e deixar para depois as tarefas que precisam ser cumpridas;

– devido a problemas psicológicos: Você se sente bloqueado por causa de alguma outra condição aguda (como um luto, por exemplo) ou crônica (ataques de pânico, depressão);

– intencionais: não são, na realidade, procrastinações verdadeiras. Mais que isso, você está tomando tempo para pensar e amadurecer seu raciocínio antes de escrever uma carta, por exemplo;

– irracionais: estas são as formas verdadeiras de procrastinação. Aparecem sem nenhum motivo aparente e motivadas pelo medo ou pela ansiedade.

Essas tipologias não se excluem umas às outras e nem sempre devem ser necessariamente combatidas. Muitos gênios do passado – como Leonardo da Vinci, que tinha fama de não terminar as obras que começava – desenvolveram formas peculiares de procrastinação próprias do seu próprio impulso criativo: aprenderam a conviver com a inércia, tirando vantagem e proveito dela.

4 – Aprenda a arte da procrastinação – Se procrastinar as coisas faz parte da nossa natureza, por que não tirar vantagem dessa tendência? Em 1996 John Perry, professor de filosofia na Universidade de Stanford, cunhou a expressão “procrastinação estruturada” para indicar uma tática que tira proveito das debilidades do procastinador contumaz para obrigá-lo da mesma forma a realizar e levar a bom termo as suas tarefas. O truque é preencher os primeiros lugares da lista de tarefas a serem feitas com os itens mais importantes – aqueles que sempre tenderemos a evitar – e prosseguir depois com as incumbências menos importantes, mas sempre úteis. Esteja certo desde já que, provavelmente, você não realizará quase nada dessa lista. Mas, ao fazê-la, em vez de permanecer inerte, largado na poltrona, pensando na morte da bezerra, você talvez encontre ânimo suficiente para fazer uma limpeza da escrivaninha, arrumar os papeis, por a contabilidade em dia ou responder a alguns e-mails.

5 – Seja gentil com os “si mesmos” do futuro – O ser humano tem uma extraordinária capacidade imaginativa e consegue se projetar com facilidade no passado ou no futuro. Os especialistas sugerem que essa capacidade seja aproveitada para “encontrar” os “si mesmos” do amanhã e imaginar com realismo as suas muitas possibilidades. Com frequência, na verdade, procastinamos nossas tarefas convencidos de que no futuro teremos mais energia, mais tempo disponível, menos problemas, seremos mais resolutos. Embora estas expectativas todas sejam muito pouco realistas, já que dificilmente conseguiremos mudar nossos hábitos no arco desse tempo. Eve-Marie Blouin-Hudon, psicóloga da Carleton University (Canadá), sugere dez minutos diários de visualização de si mesmo no futuro. Como você estará vestido? Qual será o seu estado de humor predominante? O que escreveremos naquele e-mail que espera há meses para ser enviado? Talvez, provavelmente, nada de tudo isso será muito diferente do que você poderia fazer hoje, aqui e agora…

6 – Criar planos de emergência e prevenir as tentações – Existirá sempre um contratempo que lhe levará a pensar: “Que vá tudo pro inferno, farei isso amanhã!” Suponhamos que você, pela enésima vez, prometeu a si próprio ir ao trabalho de bicicleta e que, exatamente quando abria a porta para sair de casa, começou a chover. E se em vez de se esquecer das suas boas intenções pensasse no quanto você se sentiria melhor, mais tonificado, se pedalasse até o escritório? Os psicólogos chamam essa técnica de “se, então”: é um modo de elaborar “planos de emergência” que parece funcionar porque propõe ações específicas – “Se vou pedalando para o escritório, então me sentirei tonificado o dia todo”, o que soa bem melhor do que pronunciar um genérico “devo ir ao escritório de bicicleta”. Um outro truque fácil é prevenir as situações de risco. Se basta uma vibração do celular para lhe distrair dos seus deveres e levá-lo à procrastinação, deixe o celular mudo. Se você já percebeu que aquele seu colega de trabalho acaba com a sua vontade de fazer as coisas, evite ter contato com ele. Tudo isso parece bastante óbvio, mas na verdade não o é.

7 – Não se deixe abater nem baixar a moral – Quando o procastinador tem medo ou se sente culpado, ele está recriminando não apenas as suas atuais hesitações, mas também todas aquelas ante as quais ele sucumbiu no passado: trata-se de uma espiral emotiva da qual é difícil escapar. Tente se dirigir a si mesmo com a gentileza e a compreensão que você usa para com uma pessoa amiga. Você pode dizer a si mesmo, sem mentir, que você não é o primeiro a deixar para amanhã o que poderia fazer hoje, e nem será o último. Usar de um pouco de indulgência, pelo menos em relação a situações passadas, lhe ajudará a dissolver um pouco aquela massa de incertezas que bloqueia os seus passos, e a se concentrar no problema corrente.

(*) Procrastinação é o diferimento ou adiamento de uma ação. Para a pessoa que está a procrastinar, isso resulta em estresse, sensação de culpa, perda de produtividade e vergonha em relação aos outros, por não cumprir com as suas responsabilidades e compromissos. Embora a procrastinação seja considerada normal, torna-se um problema quando impede o funcionamento normal das ações. A procrastinação crônica pode ser um sinal de problemas   psicológicos ou fisiológicos. A palavra em si vem do latim procrastinatuspro- (à frente) e crastinus (de amanhã). Um procrastinador é um indivíduo que evita tarefas ou uma tarefa em particular.

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