Brincar é preciso. O mundo como parque de diversões

 

“A diferença entre os homens e os meninos está no tamanho dos brinquedos”, dizia um adesivo colado no vidro traseiro de um jipe estacionado numa esquina de São Paulo. As manchas de barro grudadas na lataria do veículo – fruto provável de doidas correrias por estradas lamacentas – parecia demonstrar que seus donos levavam aquela frase ao pé da letra. Sorte a deles, por assumirem na teoria e na prática uma verdade que o mundo urbano moderno quase esqueceu: brincar é preciso.

Por: Luis Pellegrini

Neste momento em que, junto às peripécias circenses dos nossos políticos e da beleza dos Jogos Olímpicos do Rio, vemos nossas almas sendo invadidas pelos monstrinhos virtuais do Pokémon, considerar o mundo como um imenso parque de diversões me parece coisa bem necessária.

Todos os grandes gênios que a humanidade já produziu concluíram, mais cedo ou mais tarde, que nosso vasto mundo é um playground onde, de todas as moedas de troca, a mais importante é o bom humor. Seja na forma de circo, de quadra desportiva, de longas caminhadas a pé, de contar piadas numa roda de amigos, brincar é o melhor remédio. Para William Shakespeare brincar tem a ver com teatro: O mundo é um palco onde homens e mulheres são apenas atores; entre a entrada e a saída, cada um desempenha vários papéis, ele escreveu na comédia As You Like It (“Como Gostais”).

Gostar de brincar é coisa que nasce com a gente    

Gostar de brincar dispensa explicações. É como gostar de rir, cantar, dançar, caminhar na praia numa manhã de verão. Faz parte daquelas coisas essenciais que já nascem com a gente, e sem as quais a vida vira um mingau insosso. Basta observar a natureza: você já viu como os animais adoram brincar? Tive um gato chamado Hassim que, apesar de ter chegado à meia-idade dos gatos, todos os dias dava lições de bem viver. Hassim dividia sua existência em três atividades fundamentais: comer muito, dormir melhor ainda, e brincar o resto do tempo, inclusive quando perambulava em boemia pelos telhados à cata de namoradas bem dispostas.

No mundo cada vez mais distante da natureza em que vivemos com frequência esquecemos que brincar é fundamental para a saúde – física, psíquica e mental – e para a felicidade.

Há alguns anos fui ao zoológico paulista, lá na Água Funda, e deparei com uma cena significativa. Lá no fundo do parque, perto da área onde as pessoas fazem piquenique, havia um grande quadrado, todo cercado por um muro baixo. Dentro dele estavam pequenos animais domésticos, galinhas, pintainhos, coelhos, cabritos e cordeiros. Umas trinta crianças de idade pré-escolar também estavam dentro do recinto, a acariciar os bichos. Todas exprimiam aquele ar de encantamento que a criança tem quando encontra seu bichinho de estimação. Era lindo de ver. Mas era, também, de cortar o coração.

Fui falar com as três jovens professoras que tomavam conta das crianças e elas explicaram. Os pequenos eram de bairros periféricos da capital, moradores daqueles apartamentos tipo gaiola onde não é permitido ter sequer um canário. Muitos nunca tinham visto uma galinha viva e, antes daquela visita ao zôo, achavam que galinhas eram apenas pedaços de coisas que se comem, ou passarinhos engraçados de anúncios e desenhos animados na televisão. Foram as próprias escolas que, ao constatar certas anomalias no desenvolvimento dessas crianças, solicitaram ao zôo a instalação do cercado onde seria possível um contato direto com os bichos. Iniciativa louvável, já que pouco é melhor que nada. Porém, que pobreza. Sobretudo quando lembro da minha infância no interior do Estado, passada num quintal cheio de mangueiras, pés de jabuticaba, cachorros, passarinhos, minhocas e… tantas galinhas.

Brincar estimula as conexões cerebrais

Essa perda crescente do meio ambiente adequado para se brincar e, como consequência, da própria capacidade de brincar, produz muitos efeitos negativos na vida das pessoas – crianças e adultos. Nos últimos tempos cientistas de várias áreas dedicaram-se a investigar a filosofia e a psicologia do ato de brincar: o que acontece com o corpo, cérebro e comportamento de uma criatura quando ela se diverte com travessuras. Desde o início, os resultados surpreenderam: é justamente quando se brinca que as células cerebrais formam mais e mais conexões sinápticas, criando uma rede densa de ligações entre neurônios que passam sinais eletroquímicos de uma célula para outra. Ou seja, o ato de brincar estimula e exercita as diferentes funções cerebrais. Sinapses dos neurônios do cerebelo, na base do crânio, brotam em grande número especialmente durante a prática de travessuras. O cerebelo é a parte do cérebro responsável pela coordenação motora, pelo equilíbrio e controle dos músculos. Por meio dos intensos estímulos físicos e sensoriais produzidos pelas brincadeiras, são reforçadas as ligações sinápticas cerebelares que, em troca, aceleram o desenvolvimento motor nas crianças e, nos adultos, preservam e reforçam essas mesmas capacidades motoras. Provavelmente outras partes do cérebro também se beneficiam da estimulação da brincadeira, o que pode explicar o fato de as espécies com cérebros grandes, como a dos primatas e a dos golfinhos serem tão brincalhonas. Nessas criaturas – sem esquecer que o homem é também um bicho de cérebro grande – o cérebro continua a amadurecer muito tempo depois do nascimento e, portanto, precisa, o mais possível, desses beliscões do mundo externo facilmente proporcionados pelas brincadeiras.

Os movimentos vigorosos das brincadeiras também ajudam no amadurecimento dos tecidos musculares. Ao enviar tipos variados de sinais nervosos para os músculos do corpo, o ato de brincar assegura a distribuição e o crescimento adequado das fibras musculares de resposta rápida, necessária para atividades aeróbicas. Os estudos de desenvolvimento muscular de camundongos, gatos e outro animais revelam que o crescimento e a diferenciação dos tratos fibrosos são maiores justamente quando esses bichos estão na fase mais brincalhona de suas vidas.

Brincar, contudo, não é fundamental apenas para o bom desenvolvimento e para a manutenção do cérebro e dos músculos. Do ponto de vista psicológico e comportamental essa atividade tem importância ainda mais profunda e sutil. Por meio das brincadeiras, os animais superiores ensaiam muitos dos movimentos de que vão precisar ao longo da vida. Antílopes jovens, zebras e cordeiros brincam de fugir e esconder de predadores imaginários. Eles precisam desenvolver o talento da fuga, para depois poder fugir dos leões, lobos e hienas verdadeiros. Os felinos, por seu lado, que são bichos carnívoros, desde cedo brincam de capturar presas: aproximam-se em silêncio, pulam em cima, mordem, sacodem e rosnam. Os morcegos pequenos, logo que aprendem a voar, volteiam uns sobre os outros, traçando no ar trajetórias em arco similares às manobras que os adultos realizam para capturar insetos.

O austríaco Konrad Lorenz, Prêmio Nobel especialista em etologia, a ciência que estuda o comportamento dos animais, afirmava que brincar tem também uma função adicional em espécies sociais, a de facilitar a passagem de um animal para a vida em grupo, onde tendências egoístas ou hostis têm que ser domadas ou mesmo eliminadas. Os macacos jovens, por exemplo, gastam a metade do seu tempo brincando desde os três meses de idade. Observou-se que quanto mais o animal brinca, maiores são suas chances de tornar-se um membro bem integrado no bando adulto. Brincando de lutar, o animal aprende quando deve submeter-se ou não, assim como perder sem reclamar. Lembrete: o ser humano é também um animal social.

Os primatas, por outro lado, adoram brincar de médico, e parece que é através desses troca-trocas inocentes que eles desenvolvem o bom desempenho sexual que irá assegurar, no momento certo, a perpetuação da espécie.

Adultos chatos e rabugentos não gostam de brincar

No mundo natural, muitos adultos de espécies sociais brincam tanto quanto seus filhotes. Os caititus, porcos do mato brasileiros, brincam freneticamente com seus companheiros de vara, muitas vezes por dias inteiros. Claro, como na sociedade humana, também entre os animais existem adultos chatos, rabugentos e enfadonhos que não gostam de brincar. Mas eles são minoria. Entre os animais os cientistas observaram muitos exemplos de brincadeiras entre pais e filhos, algo que era considerado característica dos seres humanos. Os filhotes dos ursos-marrons do Alasca – os enormes kojaks – brincam tanto com a mãe quanto com os irmãos. A farra favorita é abraçarem-se amorosamente e saírem rolando pelas ribanceiras. As mamães gorilas brincam de esconde-esconde com seus nenens e a mamãe chimpanzé acha o máximo fazer caretas para eles.

Coisa curiosa é que, tanto nas brincadeiras dos bichos quanto nas dos humanos, é essencial o rápido desenvolvimento de uma linguagem que deixe claro a natureza lúdica do que se está propondo. “Oi, vamos brincar!” Ou, se a brincadeira for um tanto bruta: “Olha lá, eu estou só brincando”. Os movimentos de muitas brincadeiras são, de modo atenuado, os mesmos movimentos de uma agressão verdadeira. Por isso é preciso deixar óbvio que se está apenas brincando.

Através de jogos, brincadeiras barulhentas e fantasias de todos os tipos, as crianças praticam e desenvolvem habilidades de que vão precisar na idade adulta. Da mesma maneira que outros animais sociais, as crianças, ao brincar, aprendem a arte de viver em sociedade, de dar e receber, de transformar ou diluir impulsos agressivos em risadas divertidas. A similitude dos comportamentos brincalhões humanos e animais é tão grande que alguns psicólogos chegam a achar que nossas brincadeiras são, na verdade, reminiscências do comportamento dos nossos antepassados primatas. Deles, por exemplo, conservamos a tendência de dividir-se por sexo e praticar brincadeiras diferentes. Meninos geralmente gostam de vigorosos contatos físicos, de brincar de guerra e de transformar qualquer coisa em arma de combate. Meninas preferem jogos de coordenação fina, que exigem destreza e inteligência, como amarelinha ou pular corda. Elas gostam também, em todas as culturas, de brincar de papai e mamãe, de casinha, de bonecas. Se essas tendências universais dos estilos de brincar são inatas em cada sexo, ou se são produtos de condicionamentos culturais, isso ainda é tema de debates intermináveis entre os estudiosos da psicologia humana.

Meninos e meninas, brincadeiras diferentes

O que se sabe, com certeza, é que os humanos também usam a brincadeira para dominar a linguagem verbal e gestual que lhes permite uma mais plena exteriorização da própria individualidade. Curiosamente, as meninas com frequência mostram maior fluência verbal do que os garotos durante as brincadeiras. Os meninos apresentam em geral maior eloquência gestual.

Como todas as demais atividades humanas importantes e essenciais, as brincadeiras – principalmente aquelas que aparecem sob a forma de jogos -, também possuem um significado psicológico-espiritual. Muitas delas são ricas de um simbolismo arquetípico, como é o caso do pau-de-sebo, que está ligado aos mitos da conquista do céu (da mesma forma que o trepar em árvores ou, por analogia, o escalar montanhas). O futebol, à disputa pelo globo solar entre duas fratrias antagonistas. O papagaio que se empina representa, no Extremo Oriente, a alma do seu proprietário. Para mostrar que este, embora permanecendo com os pés bem fincados sobre a terra, é capaz, ao liberar a alma, de elevar-se a grandes alturas criativas através da imaginação, do sonho e da fantasia. A amarelinha representa, provavelmente, o antigo mito do labirinto – símbolo das vicissitudes da vida -, onde o herói se perde e enfrenta uma série de provas até retornar ao mundo da luz. Muitas brincadeiras, portanto, não são apenas divertimentos lúdicos, mas sim técnicas simples para o aprendizado iniciático espiritual.

E você, faz parte do time dos brincalhões folgados ou é daqueles que confundem seriedade com chatice rabugenta? Eu já fiz minha opção: gosto de brincar e assumo o risco de, às vezes, até passar por tonto. Já tive, aos vinte anos, minha fase de andar pelo mundo como esses manequins que acham um charme desfilar nas passarelas com cara amarrada de enfado. Mas isso nada me trouxe de bom e fiz um esforço para mudar. Entendi que, se para a criança a vida lúdica é fundamental, deixar de brincar não é, no adulto, sinal de maturidade. É passaporte certo para a decrepitude.

Claro, sei que a melancolia existe e precisa ser respeitada. Quando ela chega, deixo que se instale e desempenhe o seu papel. Mas, na primeira oportunidade procuro seduzi-la com o regalo do bom humor. Ela quase sempre aceita o presente e entra no jogo. Pois, embora não pareça, até a melancolia gosta de brincar.

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