A crença é inútil. Se você cruzar na rua com o Buda, mate-o

 

Aqueles que não acreditam em nada, mesmo assim podem ter uma vida espiritual? A resposta é sim. A vida espiritual depende da fé, e não da crença. A fé verdadeira aceita e convive bem com a dúvida. Para muitos a dúvida é o melhor meio para se incrementar a fé.

 

Por: Luis Pellegrini

A crença – o ato de acreditar, de ter por certo, de dar como verdadeiro, de presumir –  será uma capacidade imprescindível para todo aquele que pretende desenvolver na vida alguma atividade espiritual? Essa pergunta sempre me perseguiu como uma sombra inquietante, dado que, por natureza, não sou  homem de crença, e sim de conhecimento. Quero dizer com isso que, à maneira de São Tomé, custa-me muito acreditar em coisas que não posso objetivamente ver, tocar, ou pelo menos assimilar através dos mecanismos da mente racional. Talvez tenha sido exatamente para compensar essa tendência à incredulidade que me dediquei tanto, ao longo dos anos, ao trabalho jornalístico na área dos temas que convencionou-se chamar de espiritualistas, esotéricos, ocultistas, metafísicos. Todos eles temas pertencentes ao misterioso reino do subjetivismo, onde as coisas podem ser pressentidas, mas raramente percebidas e agarradas concretamente pelos sentidos.

Vidas passadas, vidas futuras, espíritos desencarnados; os reinos elementais com seus orixás, silfos, duendes, ninfas e salamandras; o plano angélico com seus arcanjos e querubins; a possibilidade mágica da comunicação e do diálogo com esses mundos através dos canais da mediunidade e da sensitividade paranormal. Tudo isso faria parte de outras dimensões da realidade, ou seria apenas produto da imaginação humana destinado a preencher o grande vazio de respostas definitivas para nossa existência? Ninguém até hoje conseguiu dar uma resposta definitiva a esse grande dilema.

 

 

Não ter certeza de nada

No meu caso pessoal, a dúvida tem sido uma companheira constante. Não tenho certeza absoluta de nada, embora não negue a possibilidade de qualquer coisa. Pois, da mesma forma que não se pode provar objetivamente a existência de outros planos da realidade, também não existem argumentos que possam negá-los de modo definitivo. Assim, posso dizer que o exercício da dúvida honesta desde sempre faz parte da minha vida espiritual. E, francamente, não vejo nenhuma possibilidade de que essa situação mude tão cedo.

A dúvida nem sempre é um fardo fácil de carregar; às vezes ele é bem pesado. Mas, como tudo na vida é medalha de pelo menos duas faces – há medalhas que tem três e até mais faces -, também a companhia da dúvida apresenta as suas vantagens e utilidade. Uma delas é impossibilitar  a prática cega da crença. Quem acredita, acha que já encontrou, e pode viver as delícias da certeza. Quem não acredita, continua inquieto e tem de prosseguir no movimento de continuar buscando.

Um fato muito confortador foi descobrir que não estou sozinho nessa busca do espírito através dos caminhos paradoxais da dúvida e da descrença. Esta é, por sinal, uma estrada super transitada, inclusive por caminhantes dotados de imenso brilho pessoal.

Um deles foi   Gautama Buda, o Buda histórico, um preconizador da dúvida sistemática. Buda dizia que não se deve acreditar em absolutamente nada que não tenha passado pelo crivo da experiência pessoal. E mesmo assim a experiência pessoal deve ser renovada de tempos em tempos pois, embora ela possa continuar sendo a mesma, é o nosso crivo pessoal que pode evoluir e mudar. Buda aconselhava inclusive a que se duvidasse das  palavras e ensinamentos que ele próprio pronunciava. A ele é atribuída uma frase significativa: “Se você cruzar na rua com o Buda, mate-o”. Com isso queria dizer que é preciso duvidar do Buda externo, aquele com quem se “cruza nas ruas”, até o ponto de “matá-lo” se isso for necessário. O que importa é deixar que o Buda interno viva a sua experiência pessoal, reflita longamente sobre ela, e chegue às suas próprias conclusões. E esteja sempre pronto e disposto a mudar essas conclusões se isso se fizer necessário.

Carl Gustav Jung também não se sentia um homem de crença. Já  no final da vida, o grande psicólogo deu uma entrevista à televisão inglesa. Quando lhe perguntaram se acreditava em Deus, sua resposta foi pronta: “Não, eu não acredito em Deus. Eu sei.”

Um outro desses peregrinos da dúvida era o etnofotógrafo Pierre Verger, autoridade em matéria de religião afro-brasileira. Visitei Verger no final de 1994, em sua casa de Salvador, Bahia. Era o dia do seu aniversário, e Pierre completava 92 anos de idade,  a maior parte dos quais dedicados à investigação incansável da tradição religiosa da África Ocidental transplantada para o Brasil sob o nome de candomblé. Quando perguntei a ele qual o significado espiritual de toda a sua vivência no candomblé, sua resposta deixou-me literalmente boquiaberto: “Significado espiritual nenhum. Não acredito em nada disso”. Refeito da surpresa, pedi-lhe explicações, e Pierre desatou um longo e belo discurso sobre os motivos profundos que o mantiveram por quase toda a sua vida ligado à tradição africana. Disse, entre outras coisas, não conceber nenhum outro espetáculo mais poderoso e mais fascinante do que aquele que acontece quando, num terreiro de candomblé, um filho de santo entra em transe de possessão pelo seu orixá de cabeça. “Você já viu aquelas baianas que vendem acarajé nas ruas de Salvador? No terreiro algumas delas podem se transformar em verdadeiras rainhas, respeitadas como tais por todos os presentes. Ou então um simples estivador do porto que, possuído por Xangô, revela a sua natureza profunda e incontestável de rei. Que poder é esse capaz de transformar as pessoas mais simples e humildes em seres com a força e a estatura dos deuses?”

 

O etnofotógrafo Pierre Verger, em 1992 (Foto Lamberto Scipioni)

O etnofotógrafo Pierre Verger, em 1992 (Foto Lamberto Scipioni)

 

Verger continuava buscando, sempre inquieto

Verger, naquela altura da sua vida, ainda se perguntava “que poder é esse?” Ele continuava buscando, inquieto. Ele ainda não tinha respostas definitivas. Em lugar de acreditar, ele permanecia indagando. Seu fascínio era pela experiência viva nos terreiros de candomblé, onde, nos rituais de transe de possessão, a natureza mais íntima da pessoa, a sua verdade mais arquetípica aflora e se manifesta em toda a sua mágica grandeza. Esta parecia ser, para Verger, a mais religiosa das experiências: quando o mais puro padrão humano, em geral escondido e trancado no fundo do nosso ser, consegue superar a barreira dos condicionamentos e da persona social e se manifestar em toda a sua integridade.

Quanto ao mais, Pierre Verger definia-se honestamente como um cético. E no entanto ele passou por todas as provas iniciáticas do candomblé, ganhou todos os títulos, e só não foi um pai-de-santo, um babalorixá plenamente estabelecido com terreiro próprio e tudo o mais, porque não quis. Um babalorixá que, apesar de verdadeiro, “não acreditava em nada”.

Oxum, orixá das águas doces no Candomblé

Oxum, orixá das águas doces no Candomblé

 

Mas o mais supreendente discurso em favor da dúvida e sobre a “inutilidade da crença” chegou-me aos ouvidos proveniente de uma fonte totalmente inesperada: uma entidade espiritual manifestando-se através de um médium.  Essa entidade foi o “marinheiro” que se incorpora no medium Carlos Buby, babalorixá do Templo Guaracy de Umbanda, em São Paulo. Foi na primeira gira de janeiro de 1995 quando, dentro da tradição da umbanda, após a sessão habitual de pretos-velhos, foram invocadas as entidades da linha complementar dos marinheiros. Dirigindo-se à assistência, disse o marinheiro: “Quando vocês vêm ao templo, devem vir por vocês. Não devem vir pelas entidades que aqui se manifestam, nem pelos orixás, nem pelo próprio templo. Devem vir por vocês. Não é necessário acreditar em nós, nem nos orixás, nem no templo. Porque a crença é uma coisa muito bonita, mas completamente inútil. Quem acredita, já encontrou o que quer, e não precisa buscar mais. Mas quem duvida continua buscando, continua trabalhando para encontrar”.

De todas as vezes em que saí para o mundo das coisas comuns, após ter participado de uma gira em terreiro de umbanda ou outro templo qualquer, aquela foi a vez em que me senti mais tranquilo e feliz. Se a própria entidade espiritual me desobrigava de ter de acreditar nela para poder com ela me relacionar, que outra preocupação poderia ainda me ocorrer?

Não, a crença não é necessária para se ter uma vida espiritual. Dependendo da crença, até atrapalha. Como é sempre o caso da crença em valores dogmáticos, que devem ser aceitos passivamente e a priori, não importando nada se nossa mente e nosso coração os rejeitam como absurdos ou impossíveis.

 

A crença e a descrença pertencem ao universo do ego

 

A crença e a descrença, bem como todas as coisas binárias, que caminham sempre juntas a seus contrários, o sim e o não, o preto e o branco, o bem e o mal, pertencem ao universo do ego e da assim chamada mente racional. E o ego, de todos os entes que fazem parte da estrutura psicológica do ser humano, é o menos apto a viver e a compreender as nossas experiências espirituais. Mais apta do que o ego para a vida espiritual é a alma humana, aquela entidade psicológica que não habita em nossos cérebros, e sim em nossos corações. Diferente do ego, a alma não funciona em termos de certo e errado, claro e escuro, espírito e matéria, Deus e o diabo, e por isso ela não examina nossas vivências em termos de crença ou descrença. O ego gosta da dualidade, e por isso é capaz da crença, mas  a alma privilegia a unidade, e esta é a razão pela qual ela é capaz da fé. A fé não é uma ideia, um raciocínio, um pensamento. A fé é antes de tudo um sentimento, e não exige e nem admite explicações.  Isso nos permite reavaliar o sentido daquela resposta acima transcrita de Carl Gustav Jung quando lhe perguntaram se acreditava em Deus. Suponho que ele provavelmente quis dizer que não acreditava em Deus, mas que O conhecia através da sua fé.

De todas as escolas contemporâneas de sabedoria, a que foi estruturada por Jung e seus discípulos talvez seja a que deu maior contribuição  para a grande abertura espiritual do homem moderno. Essa escola coloca muita ênfase num fenômeno psicológico ainda relativamente pouco conhecido, mas de imensa importância. Trata-se do fato de que a psique humana não distingue realidade objetiva de realidade subjetiva. Quer dizer, para a nossa psique, tanto faz se uma experiência acontece no plano objetivo da vida real, ou no plano subjetivo do sonho ou da imaginação. A psique considera ambos os planos verdadeiros, e o efeito evolutivo nela produzido é o mesmo, não importando em qual plano a experiência ou o estímulo acontece. Assim, se a psique precisa, por exemplo, da experiência de uma paixão, e se essa paixão não acontece concretamente na assim chamada “vida real”, ela poderá viver uma paixão na dimensão do sonho, ou da fantasia imaginativa. Seus efeitos serão os mesmos.

Ora, se é na psique – que significa alma em grego – que acontece a  experiência espiritual, e se para a psique é indiferente se a experiência é “objetivamente real” ou “subjetivamente imaginária”, isso nos leva a uma conclusão fundamental: para se viver uma experiência espiritual não é preciso  acreditar com certeza, ou seja, crer, sequer na realidade de um plano ou mundo espiritual. Novamente, conclui-se que a crença, embora não seja necessariamente um estorvo, é algo inútil.

Dentro desse quadro, a generosa e  libertadora contribuição que aquele “marinheiro” ofereceu  para a assistência e para o corpo mediúnico do Templo Guaracy foi muito, muito grande. Desobrigados da crença, os visitantes daquele templo, ou de qualquer outro templo, podem frequentá-lo por si mesmos e para si mesmos,  livres para viver a experiência que realmente conta: aquela que acontece no âmbito da alma de cada um, e que nao pode sequer ser descrita com as palavras que a mente racional produz. Da mesma forma, os médiuns, desobrigados inclusive do dever  de acreditar que  as próprias entidades que incorporam são mesmo entidades externas, oriundas do plano espiritual, e não, eventualmente,  entidades internas, emanadas da  psique inconsciente do próprio médium, estão livres para viver aquilo que para eles mais importa: a experiência espontânea, desimpedida e mágica do fenômeno mediúnico.

Para  viver a vida, tanto a vida “real” quanto a “espiritual” – se é que existe mesmo alguma diferença a separá-las – não é necessário acreditar em nada. Basta viver a vida. Pois a  vida, como disse o já citado Gautama Buda, “não é uma pergunta a ser respondida. A vida é um mistério a ser vivido”

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