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Astrologia. O destino escrito nas estrelas

 

“Ciência do significado das coisas” é uma das muitas definições da astrologia. Sistema de conhecimento tão antigo quanto a própria humanidade, alguns de seus fundamentos são hoje comprovados pela ciência

 

Por Luis Pellegrini 

Há muitos anos, na Índia, fazendo uma reportagem sobre sistemas tradicionais de cura, visitei, na província do Kerala, uma escola de medicina ayurvédica – um dos sistemas terapêuticos mais antigos do mundo.

A escola possuía uma seção de farmacologia, onde se preparavam os remédios ayurvédicos, quase todos à base de folhas, flores, raízes, óleos essenciais e substâncias minerais. Soube lá que um grupo de estudantes, dirigido por um professor, preparava-se para coletar ervas e plantas nas colinas vizinhas. Pedi autorização para acompanhar o grupo, e a resposta foi positiva. Fui avisado que sairíamos às duas horas da madrugada. “Vamos aproveitar um aspecto favorável da Lua com Mercúrio entre as 5 e 6 horas da madrugada. Temos de estar prontos no lugar para cortar as plantas exatamente nesse horário, quando o princípio ativo delas estará estimulado ao máximo”, disse o professor.

O que? Então havia horários astrológicos favoráveis – e outros desfavoráveis – para se colher vegetais que depois vão virar remédios? perguntei, surpreso. O professor sorriu: “Claro. Há horários astrológicos para tudo na vida e no mundo. Para se colher plantas, para se confeccionar medicamentos e, inclusive, para se ministrar remédios aos doentes. Até nas cirurgias é preciso considerar o momento astrológico. Os riscos de hemorragia são muito menores se a operação for feita no momento oportuno. Uma noite de lua cheia, como a de hoje, é ótima para partos naturais, porém péssima para cirurgias”.

Naquela madrugada, no alto de uma colina, sentei no chão junto aos estudantes que aguardavam a “hora favorável” para colher as plantas. Falavam pouco, na sua língua velha de milênios, e em voz baixa, revelando o respeito natural que sempre devotaram àquele trabalho. Para os indianos a medicina continua a ser aquilo que sempre foi: um misto de ciência, magia e religião.

A hora astrológica

A lua redonda caía pouco a pouco no horizonte do oeste, e seu clarão era tão forte quanto o do amanhecer. Fiquei quieto, à espera da hora astrológica. Enquanto ela não chegava, procurei entender por que a astrologia, sistema de conhecimento tão antigo quanto o próprio ser humano, sempre foi considerada uma ciência-mãe. Como ainda hoje, em relação às medicinas orientais, a astrologia no passado sempre esteve ligada a todas as demais áreas do conhecimento. No decorrer dos séculos 19 e 20, pela primeira e única vez na história, ela foi alijada de seu poder e significado pela mentalidade racionalista que cimenta as bases da civilização moderna ocidental. A nossa civilização.

Lembrei-me, para começar, de algumas definições de astrologia: estudo das relações reais ou pretendidas entre os céus e a terra; ciência que trata das influências das forças cósmicas que emanam dos corpos celestes sobre o caráter e o destino humano; ciência que toma por base a posição dos astros no momento do nascimento de uma pessoa, ou da ocorrência de um fato qualquer, e deduz, pelos aspectos que os astros formam, a natureza do que se deseja averiguar. Todas as definições explicam enfim, em síntese, que entre nós e os astros as interações são tantas e tão estreitas que, de algum modo, simbólico e metafórico, fica difícil estabelecer a diferença entre uma coisa e outra.

Nada mais fácil, naquela calma madrugada de banho de lua no alto de uma colina na Índia, quando o satélite prateado parecia estar ao alcance da mão, acreditar que os astros realmente se relacionam conosco e nos influenciam. Assim foi para os antigos, quando as pessoas viviam praticamente ao ar livre e num meio ambiente cheio de coisas inexplicáveis. Todos os fenômenos da natureza eram cercados então por uma aura sobrenatural: a chuva, o frio, o calor, os relâmpagos e trovões, a marcha regular das estações do ano. O homem logo relacionou esses fenômenos naturais aos astros que via se moverem nos céus, ao mesmo tempo em que esses eventos ocorriam na Terra. Dando forma humana e atributos divinos aos astros, o homem antigo estabeleceu os rudimentos da astrologia: aprendeu a ler seu destino na escrita celeste. Os astros passaram a representar deuses e a ter áreas de atuação definida. O Sol representa Apolo, simbolizando os ciclos da natureza; a Lua é Ártemis, e representa a fertilidade, a maternidade e vários outros atributos do feminino; Mercúrio, o Hermes grego, é o mensageiro dos deuses olímpicos e governa a comunicação, as viagens, o comércio; Vênus é emblema de Afrodite, deusa do amor, da beleza e dos prazeres sensuais; Marte foi associado a Ares, deus da guerra e da ação; Júpiter, o Zeus da mitologia grega, é o pai dos deuses e rege as leis, os tratados e juramentos; Saturno, o deus do tempo, determina os limites do homem e das coisas, rege a semeadura e governa nossos destinos; Urano é o Céu, filho da Terra, com quem gerou, num  incesto, toda a humanidade e de quem rege os processos de transformação; Netuno representa Possêidon, o deus do mar, governa a psique profunda e representa a prevalência do espírito sobre a matéria; Plutão simboliza Hades, senhor dos mundos subterrâneos, o deus do fogo e dos mortos, regente dos processos de morte e renascimento.

A posição desses astros-deuses no céu no momento do nascimento de uma pessoa configura o seu horóscopo natal: a astrologia o interpreta como um espelho do caráter e da personalidade da pessoa e como um mapa do seu destino.

Um caráter, uma personalidade e um destino fixos e imutáveis, refratários a qualquer transformação? Não. A astrologia moderna insiste no fato de que ela não é uma ciência fatalista. O horóscopo indica apenas probabilidades mais ou menos fortes, mas nunca determina fatos ou características irreversíveis. Existe, acima de todas as forças astrológicas, uma força superior, capaz de neutralizar ou alterar qualquer tendência que os astros apontam: a força do livre arbítrio. Ela é, por seu lado, um atributo da consciência humana. Para a astrologia – como para qualquer outra ciência esotérica -, nenhum poder é superior à consciência. Acima dela só existe a onipotente Vontade de Deus.

Ela não é apenas um meio para se prever o futuro

Os astrólogos modernos consideram a astrologia muito mais como uma ferramenta útil para o autoconhecimento. Ela é usada, hoje, inclusive por muitos médicos e psicoterapeutas, especialmente para o diagnóstico e para traçar o quadro clínico do cliente. Sérgio Mortari, velho amigo infelizmente já falecido, era médico clínico em São Paulo, cirurgião plástico e astrólogo. Dr. Sérgio costumava afirmar que o horóscopo de um paciente é capaz de mostrar com muita precisão quais as suas probabilidades de doenças, e quando ele estará mais propenso a manifestá-las.

O grande público em geral vê na astrologia apenas um meio mais ou menos válido de prever o futuro. Há também os céticos – quase sempre intelectuais de formação racionalista cartesiana – que desacreditam da astrologia, e justificam sua descrença com o argumento de que ela não tem fundamento e constitui uma superstição do homem primitivo em seu esforço de encontrar a ordem num universo caótico e sem significado.

Um estudo acurado e sem preconceito, porém, permite verificar que a astrologia se mostra muito mais complexa do que consegue admitir a maioria tanto de seus seguidores quanto dos céticos. Da mesma forma que a arte e a religião, a astrologia possui múltiplas facetas e o seu corpo de conhecimento se situa em níveis e oitavas muito diferentes.
No passado, como no presente, grandes espíritos como Platão (século5 a. C.), Pitágoras (século6 a. C.), Tomás de Aquino (1225-1274), o astrônomo Johannes Kepler (1571-1630), o físico Isaac Newton (1642-1727) interessaram-se pelo refinado simbolismo da astrologia. Não a consideravam apenas um meio de predizer o futuro, mas também um plano básico da estrutura e do funcionamento do universo – um código completo da teoria e da prática das leis universais. Muito provavelmente, todos esses luminares da humanidade não estavam enganados em suas convicções. Para desgosto dos racionalistas ortodoxos, a física moderna descobriu correlações entre fatos celestes e terrestres que cientistas da geração passada julgariam impossíveis. Por exemplo, o princípio fundamental da astrologia reside na hipótese de que o universo não se deve ao acaso, mas constitui manifestação de uma vontade divina. Um universo ordenado e coerente pode ser interpretado, e a astrologia é considerada uma chave que abre as portas dessa interpretação. Ela afirma também que as mesmas leis evolutivas de nascimento-vida-morte-renascimento regem todos os fenômenos do universo, tanto os cósmicos e celestes, quanto os terrestres e humanos. Daí o célebre moto astrológico “aquilo que está acima corresponde àquilo que está abaixo”.

À parte a questão de fé da “vontade divina”, todo o resto do conteúdo desses princípios poderia facilmente ser assinado por qualquer físico contemporâneo. Will Keepin, físico-astrólogo americano, é um deles. Keepin demorou em aceitar a astrologia como ciência real. “Para mim, tudo isso não passava de pura crendice sem fundamento, até que examinei certas estatísticas”, disse ele. As estatísticas em questão foram coletadas a partir de 1950 por um matemático francês chamado Michel Gauguelin. Após tabular, segundo os métodos da estatística matemática, dezenas de milhares de horóscopos individuais, ele descobriu algumas correlações significativas. Por exemplo, grandes atletas e chefes militares em sua maioria apresentavam um Marte forte em suas cartas natais. Resultados similares foram encontrados para escritores (a Lua), políticos (Júpiter), e cientistas (Saturno). Os estudos de Gauquelin, diz Will Keepen, são comparáveis às experiências que levaram ao nascimento da física moderna no início do século. “Você tem milhares de experiências que confirmam a física de Newton. Mas você tem também duas ou três anomalias que não se encaixam nela – e foram essas anomalias que fizeram surgir a revolução quântica e a teoria da relatividade”.

O universo é um holomovimento

Uma chave para se entender a eficácia científica da astrologia pode, segundo Keepin, estar contida na física teórica – especialmente nas idéias de um discípulo de Albert Einstein, o físico David Bohm, recentemente falecido. Ao tentar entender alguns mistérios tais como a propriedade dos elétrons serem ao mesmo tempo ondas de força e partículas de matéria, Bohm começou a conversar com mestres espirituais como Krishnamurti e o Dalai Lama. Após vinte anos de estudos e trocas de idéias com personagens desse calibre, ele propôs uma nova teoria segundo a qual o universo é um holomovimento: uma única unidade integrada em perpétuo movimento, na qual cada parte reproduz a totalidade.

Convém meditar sobre essa idéia, mesmo que ela possa parecer um tanto complicada para quem não está habituado ao jargão científico. Ela poderá, em breve, determinar toda uma nova visão não apenas do universo, mas também do ser humano e da astrologia. Se, como afirmam hoje em coro os físicos e os astrólogos, cada parte reproduz o todo, fica mais fácil aceitar a velha visão astrológica segundo a qual nosso sistema planetário é um espelho do universo, da mesma forma que cada ser humano é um espelho do sistema solar.

No método astrológico, o raciocínio está mais vinculado à analogia do que à lógica. Esse método afirma que existe uma analogia entre todas as coisas, como indica a expressão “assim na terra como no céu” da célebre oração cristã. Concebido assim como um conjunto estreitamente unido e integrado, o universo funciona como um imenso organismo em cujo interior cada uma das partes se relaciona com todas as demais. O sistema solar, nessa ótica, não constitui apenas um aglomerado fortuito de matéria estelar, mas um cosmos sensível, organizado, com vida indissoluvelmente ligada à Terra, ao homem e a todas as coisas que dizem respeito ao homem. É exatamente este o objetivo fundamental da astrologia: estabelecer o significado das analogias entre o movimento dos astros e o movimento da existência do ser humano e de todas as coisas sobre a face da terra.

A maior dificuldade para se entender corretamente a astrologia são os inúmeros preconceitos – intelectuais, psicológicos, religiosos – que a envolvem. Argumentos a favor ou contra ela são, em geral, emitidos a partir de conceitos construídos em bases falsas tais como os chamados “horóscopos” de jornais, os manuais de signos de nascimento, as previsões “infalíveis” de alguns astrólogos profissionais sobre acontecimentos pessoais, sociais, nacionais, mundiais, etc. Há uma relação muito remota entre a verdadeira astrologia e as abordagens desse tipo. Quem se dedica seriamente a estudar essa ciência percebe que os signos de nascimento apresentam importância reduzida, e que não e possível falar de astrologia sem ter como referência duas coordenadas: o tempo e o espaço. Para elaborar um horóscopo individual precisa-se saber com exatidão a hora e o local geográfico do nascimento da pessoa.

Por outro lado, como bem sabem os bons astrólogos, o conteúdo de um destino provém também de fatores extra-horoscópicos, como a hereditariedade e as condições econômicas e sócio-culturais. O horóscopo indica a forma e o ritmo do destino, a maneira como será cumprido. Portanto, horóscopos idênticos, de pessoas nascidas no mesmo lugar e na mesma hora, não significam destinos iguais, mas análogos.

“Não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos, a culpa de sermos inferiores”, escreveu William Shakespeare – ele mesmo um ocultista. A astrologia não determina o destino do homem. Mas, bem compreendida, ela pode indicar caminhos para a sua libertação e crescimento.

Tipos humanos na astrologia

A astrologia atribui diferentes características aos planetas e às constelações zodiacais, as quais correspondem às distintas funções ou ações que supostamente eles controlam ou simbolizam. As qualidades ou os atributos de um signo solar – isto é, a constelação sobre a qual o Sol parece se levantar em cada nascimento – são bem conhecidos. O indivíduo nascido sob o signo de Áries, por exemplo, está propenso a um caráter impulsivo, autoritário, imprudente; o nascido sob Touro é mais moderado, paciente, reflexivo; o de Gêmeos é mental, ágil, adaptável e comunicativo; o de Câncer tende a ser sensível e emotivo; o de Leão é voluntarioso, empreendedor e generoso; o de Virgem é pontual, organizado e perfeccionista; o de Libra tem o sentido da justiça e do equilíbrio, é tolerante, refinado e esteta; o de Escorpião é lúcido, penetrante, crítico e perspicaz; o de Sagitário é fogoso, aventureiro e independente; o de Capricórnio é reservado, fiel e perseverante; o de Aquário é idealista, original e apaixonado pela paz; o de Peixes é receptivo, sentimental e ilógico.

As muitas astrologias

A astrologia divide-se também em vários ramos, dependendo de sua aplicação específica. A astrologia natal relaciona-se ao momento e ao lugar de nascimento de um indivíduo e procura traçar o panorama de seu caráter inato e as grandes linhas de seu destino. A astrologia médica aplica-se sobretudo como auxiliar do diagnóstico clínico, quando aparecem sintomas desconcertantes ou doenças indefinidas. A astrologia mundana ou judicial considera as posições astrológicas tendo em vista sua influência sobre populações, grupos, cidades, localidades. A astrologia horária constitui um guia astrológico levantado para o momento do nascimento de uma idéia, pergunta ou evento. A astrologia eletiva é usada para indicar qual o momento mais propício para se iniciar um empreendimento, uma viagem, etc. A astrologia agrícola é usada nos trabalhos de cultivo da terra, semeadura e colheita. A astrologia psicológica talvez seja a ramificação da astrologia que mais se desenvolveu nas últimas décadas. Ganhou enorme impulso após a divulgação dos estudos do psicólogo Carl Jung sobre aspectos profundos da psique humana. Jung encontrou analogias assombrosas entre as figuras astrológicas e muitas das grandes vertentes de manifestação do inconsciente humano, a que ele chamou de “arquétipos”.