VOCÊ FALA PSICOLOGUÊS?

 VOCABULÁRIO FREUDIANO INVADE O DIA-A-DIA

Uma das invasões mais bem sucedidas dos últimos cem anos é a penetração do vocabulário psi no linguajar comum. Esse sucesso é prova da imensa importância da psicologia na revolução mundial dos costumes atualmente em curso.

Por Luis Pellegrini

“Meu marido tem um ego do tamanho de um bonde. Claro, com a mãe histérica que ele teve, só poderia mesmo se tornar um edipiano obsessivo. O tempo todo ele manifesta traços esquizóides. Mas não vou ficar paranóica, não vou frustrar minhas pulsões naturais nem meus desejos e impulsos por causa dele. Não vou projetar no mundo minhas carências nem minha falta de um marido verdadeiro, de uma minha alma gêmea. Não vou deixar que essa relação bloqueie minha libido, nem que me transforme numa neurótica reprimida, dessas que somatizam as agressões de que são vítimas. Ele pode ter pulsões sádicas, mas eu não sou uma masoquista. Minha resiliência impedirá que eu desenvolva um sentimento de rejeição por causa desse verdadeiro ato falho que é meu casamento”.

Você entendeu tudo o que essa lamentosa esposa quis exprimir no texto acima? Parabéns! Você fala psicologuês. O texto contém nada menos de 28 expressões correntes (aquelas marcadas em itálico) dessa nova língua inventada ao longo do século 20 pelos psicólogos.

Sem nos darmos conta, o psicologuês invadiu nossas casas, nosso ambiente de trabalho, nossas escolas, nossa vida social e passou a fazer parte do quotidiano das pessoas. Como tudo que cai na boca do povo, esse imenso vocabulário especializado, ao se popularizar, adquiriu infinitos matizes e significados.

No Brasil e no resto do mundo, o fenômeno não cessa de se ampliar. Nem poderia ser diferente já que, entre nós, a psicologia se tornou uma das profissões mais importantes e procuradas, e as diversas psicoterapias se transformaram em artigos de consumo de massa.

Não temos, no Brasil, dados precisos a respeito de quantos profissionais atuantes da psicologia existem, nem de quantos brasileiros recorrem ou já recorreram a seus serviços. Mas os números em nosso país devem ser proporcionais aos da França. Na França, onde estatística é coisa séria, as informações são claras. Em 1945, haviam apenas 11 psicanalistas naquele país. Em compensação, o último censo, de 2003, mostrava que um pequeno exército de 5 mil psicanalistas, 13 mil psiquiatras, 1.200 pedopsiquiatras, 15 mil psicoterapeutas e 40 mil psicólogos estava à disposição para cuidar da alma de uma população francesa de cerca 70 milhões de pessoas. Calcula-se que nos últimos sete anos, na França, esses números aumentaram em 30%!

Quais as razões desse verdadeiro boom dos profissionais da saúde psíquica? Para começar, logo após a Segunda Guerra, e talvez até mesmo como conseqüência dela, ocorreu na França e no resto da Europa uma revolução cultural que logo contagiou o mundo: a revolução do inconsciente. Ela ainda não terminou. Após 1945, a popularização do vocabulário psi coincidiu com um desejo global de liberalização em todos os setores da vida do indivíduo e da sociedade. Nesse contexto, a explicação freudiana do inconsciente se integrava no cortejo de várias outras correntes libertadoras de pensamento, tais como o existencialismo de Jean-Paul Sartre e todos os movimentos de contra-cultura que se sucederam. A pedagogia como um todo foi muito influenciada por essas correntes. A sexologia científica emergiu com toda a força. A libido e muitas outras manifestações da psique passaram a ser melhor compreendidas e respeitadas. Graças à difusão e à penetração dos conceitos e termos da moderna psicologia na consciência coletiva, as sociedades ocidentais começaram a superar o velho hábito repressivo de nunca falar de seus problemas pessoais. Nos consultórios psicológicos, as pessoas aprenderam a se abrir, a perder a vergonha de falar de suas questões pessoais profundas. Ao sair dos consultórios, elas levavam a liberdade recém conquistada para as ruas, estimulando outras pessoas a fazer o mesmo.

Rapidamente o vocabulário psi se democratizou. Ao sair do ambiente fechado da psicologia para entrar no domínio público, esse “psicologuês” se tornou uma cultura comum, compartilhada por um imenso número de pessoas. Claro, conhecer uma palavra e ser capaz de usá-la, nem sempre significa conhecer o seu real significado. Mas, ao nível da cultura de massa, isso talvez tenha menor importância. O que conta é que o psicologuês se tornou um importante auxiliar da vida quotidiana. A melhor prova disso é o uso quase constante desse linguajar que observamos hoje na televisão e em todo o resto da mídia falada e escrita.

TRIUNFO DO INDIVIDUALISMO

Que significa essa invasão da cultura psi? A socióloga Dominique Mehl, diretora de pesquisas do Centro de Estudos dos Movimentos Sociais (CNRS), na França, acha que ela tem a ver com um certo “triunfo do individualismo” característico da nossa sociedade contemporânea. Ela diz: “Esse fenômeno está ligado à evolução de nossas sociedades modernas para o triunfo do individualismo: as pessoas estão em busca de sua própria identidade e de sua própria moral. Elas se esforçam para encontrar suas próprias orientações no atual mosaico de escolhas possíveis e não hierarquizadas. Nesse contexto, os psicólogos fornecem argumentos e recursos àqueles que têm necessidade de pontos de referência. Com o declínio das instituições tradicionais, o indivíduo se tornou o único responsável por suas escolhas de vida. Para se organizar, ele deverá dialogar com o outro, com o grupo, o social… Essa é a razão pela qual houve tanta perda de pudor por parte da mídia. E, logicamente, os psicólogos ocupam um lugar privilegiado nesse dispositivo fundamentado na escuta da vivência do outro e da introspecção em público, pelo simples fato de que eles conhecem tudo a respeito de nossos conflitos familiares, de nossos problemas conjugais, etc.”

Pequeno dicionário de psicologuês

 Ego – Seu significado anda um tanto depreciado, já que muita gente só entende o termo em versão negativa. Por exemplo, o ego “tamanho de um bonde” do marido na nossa historinha, indicando megalomania e egocentrismo. O termo apareceu no linguajar comum no final do século 19, inicialmente para designar a pessoa no sentido filosófico do termo. A psicologia o define como a experiência que o indivíduo tem de si mesmo, ou a concepção que faz de sua personalidade. Em psicanálise, ego é apenas a parte da pessoa em contato direto com a realidade, e cujas funções são a comprovação e a aceitação dessa realidade.

 Ato falho – A expressão foi criada por Freud para designar os erros, esquecimentos, gafes, confusões significativas que revelam uma intenção diferente daquela que gostaríamos de testemunhar a priori. Assim, esquecer um encontro importante pode esconder o medo de se comprometer (no caso de um encontro amoroso) ou de ter êxito (no caso de um encontro profissional). “Todo ato falho é uma mensagem bem sucedida”, dizia o psicanalista Jacques Lacan.

Como para a maioria dos termos do psicologuês, a vulgarização da idéia do ato falho atribuiu ao fenômeno os significados mais diversos, muitas vezes estapafúrdios, sobretudo quando queremos ver no comportamento dos outros aquilo que nos é mais conveniente. Exemplo: “Ela me chamou pelo nome do ex-namorado. Significa que ela está interessada em mim”.

 Bloqueio – É a rejeição involuntária de uma realidade psíquica perturbadora. No dia-a-dia, o bloqueio serve de justificativa ou de pretexto para nos livrarmos de alguma coisa incômoda: “Tenho um bloqueio para fazer minha declaração do imposto de renda. Você poderia faze-la para mim?”

 Frustração – Vem do latim frustrare, roubar (um bem ou alguma coisa). No final do século 17, na França, o termo assume o significado de “impedir a satisfação”. Freud, por seu lado, distingue a frustração interna (a pessoa se impede a satisfação de um desejo) e a externa (o meio onde a pessoa vive, ou a sociedade como um todo, lhe recusam essa satisfação). Na linguagem corrente, passou a significar confusamente o desprazer e a insatisfação crônica.

 Histérico – Do latim hystericus e do grego hysterikos, de hyster – útero. Termo surgido no século 16. Ensinam alguns livros de ciências que até o século 19 a origem da histeria era atribuída ao desarranjo de três tipos de órgãos: o útero, o encéfalo e os nervos. Para o neurologista francês Charcot (cerca 1880) a histeria designa um conjunto de sintomas com aparência de doenças orgânicas, mas sem lesões evidentes. Freud procurou entender os mecanismos inconscientes relacionados à histeria, que ele classifica no rol das neuroses. Todas essas definições “oficiais” do termo histeria diferem daquelas de uso corrente. Estas últimas, em geral de forte cunho pejorativo, descrevem um comportamento incoerente e exuberante, descomedido, quase sempre relacionado ao mundo feminino. Exemplo: “Em plena festa, Maria subiu na mesa e começou a dançar o cancã. Estava completamente histérica”.

Libido – Palavra latina significando desejo, anseio, anelo. Nome dado por Freud à sexualidade, na multiplicidade de suas formas e de suas transformações. No decurso dos primeiros anos de vida, a libido passa por diferentes estágios: oral (prazer de mamar para o bebê); anal (satisfação das necessidades orgânicas); genital (descoberta dos órgãos genitais). A libido mistura desejo sexual e agressividade: é uma versão socializada da pulsão (ler mais abaixo). No sentido mais moderno, a libido é sobretudo alguma coisa que deve ser satisfeita.

Masoquismo – Termo derivado do nome do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch (1836-1895). Seu romance mais célebre, Vênus de Vison, de 1870, apresenta a protagonista Wanda, uma mulher dominadora que transforma os homens em escravos. Após ler o livro, o sexólogo alemão Krafft-Ebing criou, em 1886, o termo masoquismo, que ele define como sendo o prazer sexual ligado à dor. Para Freud, esse termo designa toda satisfação cuja origem é o sofrimento.

 Neurose – Noção inventada em 1777 pelo médico escocês William Cullen. Designa, originalmente, um conjunto de distúrbios nervosos que afetam diversos órgãos. Para Freud, os distúrbios neuróticos exprimem a existência de um conflito entre desejo e culpa; eles constituem uma expressão da estrutura da nossa personalidade. Para os psicanalistas, a neurose se opõe à psicose (esquizofrenia ou paranóia, por exemplo), que seriam verdadeiras doenças mentais. A maioria dos psicólogos concorda que em cada um de nós existe algum componente neurótico.

Obsessão – Do latim obsidere – assediar, situar. Palavra que data do século 15. Em psicanálise, ela aparece na expressão “neurose obsessiva”. A pessoa que sofre desse distúrbio dissimula seus desejos e cria uma barreira feita de pensamentos e de rituais para mantê-los à distância. Na linguagem usual, obcecado é sinônimo de maníaco. Pode-se ser obcecado por qualquer coisa, pelas próprias posses, pelas moças, pelos números ímpares, etc…

 Édipo – “Fixação sexual no genitor de sexo oposto, e ódio ao genitor de mesmo sexo considerado como um rival”: esta é a definição mais comum do Complexo de Édipo encontrada nos dicionários. Édipo é um dos raros nomes próprios que figuram como nome comum nos dicionários. Na mitologia grega, esse herói involuntariamente – e, portanto, inconscientemente – mata seu pai e desposa sua mãe. Quando percebe a gravidade do que fez, e tomado pelo sentimento de culpa, ele fura os próprios olhos. Para os psicanalistas, Édipo exprime o fato de que o ser humano se encontra na encruzilhada de desejos contraditórios. São esses conflitos que o levam a se construir e a se civilizar. No linguajar comum, o termo diz respeito sobretudo às relações das crianças de todas as idades com a própria mãe.

 Paranóia – Do grego paranoia – loucura. Para a moderna psicologia, trata-se de uma psicose próxima do delírio de perseguição, na qual a ordem e a clareza das idéias permanecem aparentemente preservadas. Com bom humor, o psicólogo e escritor francês Alain Sarton distingue três grupos de paranóicos: os políticos, os alienados e “aqueles que não suportam que outros além deles se tomem por deuses e que estudam psiquiatria para provar a todos quem é quem”. Ou seja, os psicólogos! No vocabulário corrente, paranóico é quase sempre um insulto.

Perversão – Palavra inventada no século 12. Deriva do latim perversus, inverter de alto a baixo. Para o psicanalista, o perverso revela uma tendência patológica para praticar atos nocivos ou para obter uma satisfação sexual por outros meios que o coito convencional. O fetichismo, o voyeurismo, o exibicionismo constituem algumas das formas clássicas de perversão. No linguajar popular o termo adquire conotações ainda piores, tornando-se sinônimo de psicopatia, de tendências criminosas.

Pulsão – Do latim pulsus, empurrar com violência. Tradução para línguas latinas do termo alemão Trieb, empregado por Freud. Para muitos psicólogos, pulsão é o “combustível” da atividade humana, uma força bruta transmitida pelo corpo à psique. Nós conseguimos organizar e desfrutar dessa energia inconsciente de origem biológica graças à nossa propensão à sublimação, a qual nos empurra, por exemplo, na direção da cultura e das artes. Na linguagem corrente, o termo pulsão recupera seu caráter selvagem e incontrolável, evocando um desejo irresistível – freqüentemente sexual – que obriga a pessoa a realizar o ato.

Reprimido – Para os psicanalistas, o termo se aplica àquilo que tentamos esquecer e não deve ser usado para qualificar alguém. Às vezes, uma recordação é tão forte e presente que não pode ser reprimida. Iremos então reprimir a palavra que lembra esse acontecimento. Trata-se nesse caso de uma maneira “mágica” de fazer desaparecer tal lembrança. Na linguagem corrente, aquele que reprime é taxado de ignorante, de covarde, de “homem de má fé”. Acredita-se que uma pessoa reprimida é alguém que nega seus instintos naturais, notadamente os sexuais.

 Regressão – Do latim regressio, retornar a um estado anterior. A regressão é considerada essencial para o bom desenrolar da cura psicanalítica. Quando sonhamos, estamos em plena regressão, uma regressão criativa e benéfica. No linguajar comum, o sentido do termo é com freqüência menos positivo: significa dar uma resposta infantil a uma situação que não somos capazes de enfrentar. Mas a regressão também é, em muitos casos, um prazer solitário e geralmente inconfessável, tal como comprar para si próprio, em segredo, um vídeo game para crianças ou, em pleno regime, comprar uma caixa de chocolates suíços…

 Esquizofrenia – Inventado pelo psiquiatra suíço Bleuler no começo do século 20, o termo era então sinônimo de demência precoce, caracterizada pela dissociação das funções mentais e por uma perda de contato com a realidade. Mesmo se ela se manifesta em geral por uma “fratura mental”, essa psicose nada tem a ver com o sentido corrente da palavra esquizofrenia, a qual designa um desdobramento da personalidade, com duas facetas, uma controlada, a outra monstruosa.

 Resiliência – Do inglês resilience. Significa o ato de retorno da mola, elasticidade. Nos últimos anos o termo virou coqueluche nos meios psi, designando o poder de recuperação da psique frente aos golpes e traumas sofridos pela pessoa. Assim, um indivíduo resiliente é aquele que tem grande capacidade de se recuperar dos golpes sofridos e retornar com rapidez à boa forma antiga. Em palavras simples, é aquele que, ao cair, é capaz de “se levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

 Somatizar – Do grego soma, corpo. Inicialmente empregado pelo biólogo francês Lamperière, em 1620, com a grafia “somático”, no sentido de problema do corpo. Esse termo médico, recuperado pelos psicólogos, foi popularizado nos anos 1970, quando se difundiu a idéia de que corpo e espírito existem de forma integrada, se influenciando um ao outro. Somatizar significa, portanto, transformar um problema psíquico em problema corporal.

Comentários

comentários

Comente