Vá, pensiero, sull’ali dorate

Há pouco, em Roma, durante as comemorações dos 150 anos da unificação da Itália, o primeiro ministro Silvio Berlusconi e os vários políticos que estavam em sua companhia tiveram de enfrentar uma exemplar manifestação de revolta italiana. Aconteceu dentro do Teatro de Ópera de Roma, durante a apresentação da ópera “Nabucco”, de Giuseppe Verdi, regida pelo maestro Ricardo Mutti.

O coro de "Vá, pensiero", da ópera Nabucco, de Verdi, na montagem de Roma

Nabucco é uma opera musical e política: evoca o período de escravidão dos judeus na Babilônia. Seu famoso coro “Vá, pensiero, sull’ali dorate” (Vai, pensamento, com asas douradas), o canto dos oprimidos, é um dos maiores libelos de todos os tempos contra todas as formas de tirania e opressão. Na Itália, desde a primeira vez em que foi entoado, esse canto tornou-se símbolo da busca de liberdade tanto individual quanto popular. Muitos italianos sugerem que ele deveria ser o hino nacional do país, e não o atual “Fratelli d’Italia”. Na época em que “Nabucco” estreou, no Teatro alla Scala, em Milão, em 1842, a Itália estava dominada e invadida pelas tropas austríacas do império Habsburgo. Conta-se que durante a execução, com a presença das principais autoridades austríacas na platéia, o público presente, encorajado pelas palavras do “Vá, Pensiero”, pôs-se a gritar palavras de ordem e brados contra os invasores. A manifestação ficou gravada na história, e junto a outras ações de combate foi possível expulsar os invasores e o processo culminou com a criação da Itália Unificada.

Como na estréia, em 1842, panfletos caíram sobre a platéia do Teatro de Ópera de Roma, durante a estréia de "Nabucco", de Giuseppe Verdi.

A cena se repetiu, desta vez em Roma, 150 anos depois. Desta vez, no entanto, o alvo não mais eram os invasores estrangeiros, e sim a própria classe política italiana, cada vez mais considerada incompetente e corrupta pela população. Antes da apresentação, Gianni Alemanno, prefeito de Roma, cometeu a imprudência de subir ao palco para pronunciar um discurso denunciando a retaliação por parte do Ministro da Cultura que estava no governo, apesar de que Alemanno era membro do partido governante e velho ministro de Berlusconi. Essa intervenção política, em um momento cultural de extrema importância simbólica para a Itália produziu um efeito inesperado, já que Silvio Berlusconi em pessoa assistia à estréia da ópera.

Ricardo Mutti, diretor da orquestra, conta que foi uma verdadeira revolução: “No princípio houve uma grande ovação do público. Depois começamos com a ópera que se desenvolveu muito bem até chegarmos ao coro “Va pensiero”. Imediatamente senti que a atmosfera no público estava muito tensa. Existem coisas que não podemos descrever, porém as sentimos. O que se sentia era o silêncio do público. No momento em que o coro começou a cantar, esse silêncio era de puro fervor. Podia-se sentir a reação visceral do público ante o lamento dos escravos que cantavam: “Oh minha pátria, tão bela e perdida”.

Quando o coro chegou ao final, já se ouviam na platéia vários gritos de bis. Muitos começaram a gritar “Viva a Itália!”, “Viva Verdi!”, “Longa vida à Itália!”. As pessoas da galeria começaram a atirar panfletos com mensagens patrióticas e uma chuva de papéis caiu sobre a platéia.

A impressionante cenografia da montagem de 2011 da ópera "Nabucco", de Verdi, no Teatro de Ópera de Roma.

Apenas numa outra ocasião, em 1986, no Scala de Milão, Ricardo Mutti aceitara conceder um bis, sempre para o “Vá, pensiero”, pois esse maestro acha que uma ópera não deve ser interrompida, “a não ser que haja um motivo extremamente forte para fazê-lo”. Desta vez, em Roma, Mutti não se limitou a reger a orquestra. Voltou-se para o lugar onde estava Berlusconi, disse estar de acordo com a manifestação do público, e fez um breve discurso denunciando a mediocridade da política cultural do atual governo. Ele disse: “Já não tenho mais 30 anos; vivi minha vida, viajei muito pelo mundo, e hoje tenho vergonha do que acontece em meu país. Então cederei ao pedido do público para um bis para o “Vá, pensiero”. Não apenas pelo patriotismo que sinto, mas também porque, esta noite, quando regia o coro que cantava “Oh minha pátria, tão bela e perdida”, pensei que se continuarmos assim vamos matar completamente a cultura sobre a qual foi construída a história da Itália. Nesse caso, nossa bela pátria estará realmente perdida”.

Veja o vídeo com os momentos acima descritos:


Comentários

comentários

3 ideias sobre “Vá, pensiero, sull’ali dorate

  1. Elicio Pontes

    Maravilhoso. Obrigado por divulgar. Já repassei para vários amigos

  2. Luna Alkalay

    Luis,
    Sempre leio o teu Blog. Me mantem informada, me mantem próxima a vc. Mas passei um tempinho longe. Hoje voltei e che meraviglia! Grazie Luigi, Viva L´Italia, il Brasile,e tutti noi! Beijo

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