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A Era do Excesso. Estamos intoxicados de tanta informação, comida e falatório inútil

 

Já parou para pensar na quantidade de informações que jornais, revistas, televisão e bilhões de sites na internet despejam diariamente sobre nossas frágeis estruturas cerebrais? Na miríade de ofertas gastronômicas feitas para inchar nossos estômagos e esvaziar nossos bolsos? Na enorme quantidade de energia vital que desperdiçamos falando e ouvindo tanto palavrório inútil? Sem falar nos carros que entopem as ruas, os remédios e roupas nos armários, o blá-blá-blá inconsistente dos políticos? Tudo que é demais intoxica. E, na verdade, estamos intoxicados.

Por: Luis Pellegrini

Vivemos em plena era do excesso. Vamos pelo mundo como ilhas ambulantes, a flutuar num oceano coalhado de produtos industrializados de todos os tipos, de medicamentos farmacêuticos, de poluição ambiental, de guarda-roupas cheios de peças inúteis, de constantes propagandas que nos conduzem à produtividade e ao consumismo insustentáveis. Sem falar no excesso de informação feita sob medida para poluir e intoxicar nossas mentes e nossos corações. Já parou para pensar na quantidade de coisas veiculadas pelos jornais, revistas, pela televisão e pelos milhões de sites na internet que, sem dó nem piedade, bombardeiam todos os dias nossas frágeis estruturas cerebrais?

No meu caso pessoal, a ficha caiu há uns trinta anos, quando fiz uma viagem de camper de Portugal até a Itália, atravessando a Espanha e a França. O camper, como vocês devem saber, é um daqueles carros com uma casinha atrás, com quarto, banheiro e mini cozinha. Ótimo para viagens longas e baratas, pois a gente come e dorme dentro do veículo. Para o abastecimento de produtos, parávamos todos os dias em algum shopping ou supermercado. E, ao longo dos dias, fui percebendo: em todos os lugares, em qualquer cidade de qualquer país, nas prateleiras dos mercados existia uma enormidade de produtos, dezenas, centenas de marcas de café, de marmeladas, de produtos de limpeza. Tais produtos, apesar de extremamente numerosos, eram sempre os mesmos. Não se conseguia encontrar nada mais original, algo que fosse representativo e típico do lugar, algo artesanal, feito à mão. Era tudo coisa produzida por máquinas industriais. Era tanta coisa de deixar a pessoa tonta, e, ao me sentir literalmente submergido por aquele tsunami de produtos industrializados, comecei, certamente por instinto de sobrevivência, a procurar as pequenas quitandas, as vendinhas de esquina, onde talvez ainda existisse um bolo da vovó feito ali mesmo e posto à venda ainda quente. Mas a tarefa permaneceu muito árdua: também neles a oferta de frutas era abundante, mas todas fabricadas em estufas, na da criado no fundo do quintal. Foi assim, naquela viagem, que comecei a me sentir intoxicado pelo excesso de oferta de produtos.

Tudo, em excesso, pode ser vetor de intoxicação

Tudo que é demais faz mal. Intoxica. Intoxicação, como verbete de dicionário, corresponde a uma “série de efeitos sintomáticos produzidos quando uma substância tóxica é ingerida ou entra em contato com a pele, olhos ou membranas mucosas”. Da mesma forma, tudo aquilo que entra pelas portas dos sentidos – visão, olfato, paladar, tato, audição – pode ser de natureza deletéria e nos intoxicar. Bem como as informações que penetram em nossos cérebros. O modelo de civilização que inventamos é tóxico e chegou agora a um estado de real paroxismo no qual a regra geral é a perda da consciência da medida das coisas.

Como costumo lembrar sempre que uma oportunidade se apresenta – pois na minha opinião este é o principal problema da nossa civilização contemporânea – para os antigos gregos o descomedimento – entendido exatamente como perda do senso de medida – era a maior de todas as falhas. Eles chamavam essa perda da consciência de limites de hubris, e consideravam que ela não tinha remissão. Quem cometia essa falha estava condenado ao inferno por toda a eternidade. Os deuses viam a hubris como a pior das formas de arrogância e puniam com severidade máxima todos que se deixavam seduzir pelo descomedimento.

Mas hoje, para nossa perdição, perdemos essa noção fundamental da sabedoria grega, e manifestamos nossa perda da consciência de limites o tempo todo. Estaríamos todos, assim, na visão existencial dos antigos gregos, condenados à danação eterna. Não acredita em nada disso? Melhor refletir a respeito. É fácil perceber, por exemplo, até que ponto fomos tomados pela compulsão de fazer tudo melhor, em maior quantidade e no menor tempo possível. Da manhã à noite ouvimos injunções vindas de fora – mas também de dentro – repetindo que é preciso fazer isso, ou aquilo, agir assim ou assado. Pouco a pouco, essas injunções tornam-se vozes interiores, autoritárias, que logo deixam de ser vozes e se transformam em gritos de ordem: produzir, comprar, consumir!

E tais estímulos neurotizantes não se limitam à comida, às roupas e aos demais objetos materiais que lotam as prateleiras. Pensem em quantas horas por dia passamos em média diante de uma tela de televisão ou de celular ou de computador vendo imagens, ouvindo palavras que, na verdade, pouco ou nenhum significado contêm. Cada imagem inútil dessas que vemos, cada palavra vazia que ouvimos, consomem um quantum de nossa energia vital. Uma fração do tempo e do espaço de nossas existências. Se permanecermos passivos diante da miríade de ações que nossa civilização inventou para nos intoxicar e nos manter existencialmente e espiritualmente anestesiados, estaremos perdidos. Transformados em meras latas de lixo nas quais são atirados os excessos da nossa civilização da produtividade e do consumismo insustentáveis.

Cruzar os braços?

Felizmente, no mundo já são muitos os que perceberam a realidade do aturdimento em que vivemos, e que tentam encontrar saídas e propor soluções para a nossa sobrevivência física, emocional, afetiva, mental e espioritual.

O filósofo francês Fabrice Midal, por exemplo, é o líder do movimento “Soltar as rédeas”, que a cada dia reúne mais adeptos em seu país. Midal, que ensina meditação há mais de 20 anos, é um especialista no assunto – o próprio título que deu a seu movimento sugere isso. Ele afirma: “Quando ordeno a mim mesmo que tenho de responder a todos os meus e-mails hoje, sem falta, mesmo àqueles que não são urgentes, eu me coloco sob pressão e começo a me sentir culpado se deixar passar apenas um minuto sem fazer alguma coisa. O tempo todo é preciso fazer melhor, mais rápido, incrementar o desempenho. Mas o único resultado disso é nos trazer mais frustração. É preciso, portanto, que mandemos todas essas injunções para o inferno, obrigando-as a nos deixar em paz”.

O que tiver de ser, será

Mas seria então o caso de cruzar os braços, de realmente mandar tudo para o inferno, de não fazer mais nada? Parece que não. Soltar as rédeas significa eliminar a pressão, mas não significa que temos de deixar de agir. Como fazer isso? Simplesmente mudando o ângulo de visão, a perspectiva. Por exemplo: você tem um projeto e deverá apresentá-lo a um potencial patrocinador. Você estudou, pesquisou, caprichou na elaboração do projeto. Mesmo assim, chega ao escritório do patrocinador como quem se aproxima do patíbulo.

Na sua cabeça, as preocupações dão pinotes como cavalos bravios. E se eu não conseguir me explicar? E se a ideia não agradar? E se tudo der errado? Você chega lá estressado, e sua angústia tem origem num único ponto: a impossibilidade de poder controlar tudo. Na melhor das hipóteses, você manda todas as preocupações para o inferno, decide enfrentar com coragem o desafio e exclama: “O que tiver de ser será”. É nessa postura que reside sua maior chance de ter sucesso na empreitada: quando deixamos correr solta a lógica da vida, descobrimos que ela oferece naturalmente as forças que conduzem ao progresso e à cura.

Midal e outros estudiosos estão convencidos de que tal postura, aparentemente paradoxal, é suficiente. Ele diz que “essa postura basta para suspender o desejo de perfeição, de sucesso, que nos estrangula”. Perguntado se a compreensão profunda do significado de “o que tiver de ser será” é decorrência da prática bem feita da meditação, Midal comenta: “Claro, muitos hoje vêm às práticas de meditação com a ideia de que têm um desafio a enfrentar, uma tarefa a ser executada, a obrigação de alcançar o objetivo: a serenidade. São esses pressupostos que, quase sempre, levam à frustração: a sensação, principalmente no começo das práticas, de não conseguir chegar aos resultados preconcebidos em nossa mente a respeito do que deve ser a meditação. A pessoa chega com a ideia de que terá de encarnar uma sabedoria”.

Presença plena

O mecanismo explicado por Midal é exatamente o mesmo que aplicamos a qualquer outra circunstância da vida: temos um desejo, que transformamos em um plano, e logo o projetamos a partir de uma perspectiva utópica, idealizada. Como raramente o resultado dos nossos esforços corresponde aos resultados idealizados, acabamos muitas vezes frustrados e sequer conseguimos desfrutar dos aspectos positivos de nossas realizações.

Dessa forma, voltando ao caso da meditação, como a sabedoria utópica parece não chegar, o que sobrevém é um sentimento de culpa por não se ter alcançado o sucesso esperado. Isso deriva em boa parte do fato de que, em geral, o sentido do termo “meditação” é mal compreendido. Na mindfulness meditation (meditação da consciência plena), por exemplo, esse termo induziu uma intelectualização da prática meditativa dentro de um espírito cartesiano. Na verdade, o sentido real da expressão não diz respeito a uma “consciência plena”, e sim a uma “presença plena” a tudo que acontece em nós, e notadamente em nosso corpo.

Para desfrutarmos da realidade como ela é – e esta é a única realidade que existe –, devemos suspender os desejos de perfeição e de sucesso, pois eles nos estrangulam e oprimem. Para alguns, convém aceitar tranquilamente o fato de não sermos perfeitos. Para outros, aceitar o fato de não sermos amados, de não conseguirmos nos manter calmos, de ainda não dominarmos nossas emoções, etc. Tais colocações, na verdade, constituem a plataforma básica de todas as psicoterapias, da psicanálise à hipnose ou à de linha junguiana.

Todas elas não nos pedem um trabalho voluntário para que aprendamos a controlar o que se passa em nós – postura que, a rigor, nos transformaria em escravos submissos a nós mesmos. Muito mais que isso, as técnicas psicoterápicas – bem como as religiões verdadeiras – nos convidam a retomar o gosto pela vida, a deixar que a vida siga seu curso a partir da sua própria lógica – e não a partir dos condicionamentos e injunções da atual cultura da produtividade e do consumismo enlouquecidos pelo excesso. Esse é o grande segredo que, uma vez desvendado, nos permite escapar das intoxicações provo­cadas pela nossa “civilização das 500 mil coisas”. Para a verdadeira realização da pessoa humana, é muito mais importante “ser” do que “fazer”.

Profusão de informações

Quanta informação é produzida hoje? A cada dia, centenas de milhões de pessoas escrevem textos, tiram fotos e fazem vídeos que enviam a seguir. Governos reúnem dados, de boletins de ocorrência a censos demográficos, e empresas globais coletam informações sobre compras, preferências de consumidores e tendências. Há pouco menos de um ano, a Universidade Northwestern (EUA) divulgou um cálculo sobre isso. Confira os números (que, ressalve-se, têm crescido exponencialmente a cada ano):

  • 3 exabytes (3 quintilhões de bytes) de informação são produzidos a cada dia. Eles equivalem a:
  • 600 milhões de canções
  • 160 milhões de iPhones
  • 5,5 milhões de laptops
  • 270 mil Bibliotecas do Congresso dos EUA (a biblioteca tem mais de 164 milhões de itens em quase 1.350 quilômetros de estantes
  • 95 anos de vídeo em alta definição (HD)

Já está passando a hora de simplificarmos as coisas!