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Dinheiro, religião, sexo. As três pernas do trono do diabo

 

“Quando o diabo decide agir, ele comanda a partir de um trono que possui três pernas: dinheiro, religião e sexo”, dizia minha avó Anna. Pouco tenho a acrescentar à antiga sabedoria carregada por aquela italiana do Veneto, mãe de minha mãe. A não ser, talvez, dizer que um dos nomes do diabo é Poder. João de Deus se esqueceu disso, e deu no que deu.

Por: Luis Pellegrini

Poder, como todas as coisas que contam, é moeda de duas faces: uma voltada para a luz, a outra para a escuridão. Nos identificar com uma ou com outra depende exclusivamente do uso que fazemos do poder que nos foi atribuído. Se usarmos nosso poder de maneira não egoísta, honesta, despojada, inteiramente voltada para o bem comum, ele se transformará em luz que ilumina. Caso contrário, como sempre acontece mais cedo ou mais tarde, ele se tornará motor da pior magia negra, aquela que conduz ao reino das trevas.

Essa visão do mundo e da própria existência humana não deriva, como alguns poderão pensar, de algum moralismo banal. Emerge, bem diferentemente, do núcleo essencial do sistema de ideias que deu origem à nossa civilização: a filosofia da Grécia Antiga.

Para os antigos gregos, existia apenas uma falha, um erro, um equívoco fundamental e irremissível ao qual davam o nome de hubris: a arrogância, o descomedimento, a perda da consciência de limites. Incorrer na falha de hubris atiça a cólera dos deuses e condena o arrogante à danação eterna. Só aos deuses, entidades absolutas, é permitido ir além dos próprios limites. O homem, ser frágil e escravo do relativo, precisa existir dentro de medidas precisas, nem permanecer aquém nem ir além delas. Para aqueles homens e mulheres que viveram na Grécia Antiga, quando um ser humano se arroga o direito de agir, dizer e pensar fora da medida justa – fora do métron, para usar o termo original – ele cria o caos e, ao mesmo tempo, desencadeia a força de Nêmesis, o princípio restaurador da ordem. Nêmesis, cerne do poder que mantem o universo organizado, dissolve e destrói tudo aquilo que representa uma ameaça à ordem como Princípio Universal.

Tais considerações, creio eu, podem ser oportunas no momento em que o país é sacudido por mais um escândalo de Poder: as revelações sobre a incontinência sexual do médium João de Deus. O que mais, além da perda da consciência de limites, levaria um homem tido como santo benfeitor por milhares de pessoas a cometer um número tão grande de abusos sexuais? Libido é uma benção que nos foi presenteada pela generosidade da Mãe Natureza, sem distinção de raça, idade, gênero, credo, condição social ou preferencia sexual. Mas, como tudo o mais, quando o libidinoso perde a medida justa, ele se transforma em tarado, e esse estigma dificilmente deixará de acompanhá-lo até o final da sua vida. É a maldição da hubris.

Por interesse profissional e dever profissional, já que sou jornalista mais ou menos especializado, conheci e tive contato, ao longo da minha vida, com vários “gurus”, “mestres”, “instrutores espirituais”, “sacerdotes”, “terapeutas” e outros do gênero que se oferecem no mundo como guias e condutores dos complicados processos pessoais de autoconhecimento e do despertar interno desse tipo particular de estado de consciência que costumamos chamar de “luz espiritual”. Aprendi muito com todos eles e devo reconhecer – com gratidão – que muito do que hoje sou se deve à luz dos seus ensinamentos. Porém, da mesma forma – já que não sou cego, nem mudo ou surdo, e muito menos tonto e desavisado – percebi que vários desses professores resvalavam com facilidade no terreno de areias movediças do fanatismo religioso, da ganância pelo dinheiro e a posse de bens materiais e, sobretudo, do sexo. Exatamente as três pernas do trono do Poder.

Encontrei, também – felizmente – gurus que conseguiam se manter fora do alcance das garras de Nêmesis. Mas para nenhum deles isso era tarefa fácil. Eram obrigados a manter uma vigilância constante, às vezes exaustiva contra as tentações que estão sempre à espreita, prontas a induzi-los a esquecer o padrão da medida justa. Prontas a torna-los escravos da Lei de Gérson, aquela que afirma ser correto levar sempre vantagem em tudo. Prontas a nos convencer de que temos, sim, o direito de achar que somos o centro do mundo e que tudo o mais – inclusive o mundo e as demais pessoas – existem para o nosso deleite e serviço. E se você achar que essas carapuças cabem perfeitamente na cabeça de certos homens e mulheres do Poder, políticos e assemelhados, pode estar certo de que não se trata de simples coincidência.

João de Deus pagará agora o preço dos seus excessos. E essa derrocada levará de roldão a maior parte das coisas boas e acertadas que ele certamente fez. Que sua tragédia nos sirva de exemplo.