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O poder da introversão. Quando o silêncio e a quietude valem ouro

Na nossa cultura, ser extrovertido, sociável e descolado são posturas apreciadas e aplaudidas, capazes de abrir muitas portas. Mas, por outro lado, pode ser difícil, até mesmo vergonhoso, possuir uma natureza introvertida. No entanto, como argumenta Susan Cain nesta palestra, introvertidos podem possuir talentos e habilidades extraordinárias, e deveriam ser encorajados e aplaudidos.

Vídeo: TED Ideas Worth Spreading

Tradução: Viviane Ferraz Matos. Revisão: Mariangela Andrade

Líder do movimento Quiet Revolution (Revolução Silenciosa), a norte-americana Susan Cain mostra-se incansável em sua luta em defesa de valores como a quietude e a contemplação. Ela alcança milhões de pessoas através de seus livros, vídeos e ações desempenhadas pela sua organização.

Vídeo: Quiet Revolution – O poder dos introvertidos

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Tradução integral da palestra de Susan Cain:

Quando eu tinha nove anos fui para um acampamento de férias pela primeira vez. E minha mãe encheu minha mala de livros, o que me pareceu a coisa mais natural do mundo. Porque na minha família, ler era nossa principal atividade em grupo. E isso pode soar antissocial para vocês, mas para nós era apenas um jeito diferente de ser sociável. Você tem o calor da sua família sentada bem a seu lado, mas você também é livre para perambular pela terra das aventuras em sua própria mente. E eu tinha essa ideia que o acampamento seria assim, só que melhor. Imaginava 10 meninas numa cabana, sentadas confortavelmente, de pijamas combinando, lendo livros.

O acampamento foi como um festival do vinho sem vinho. E no primeiro dia nossa monitora reuniu todo mundo e nos ensinou um refrão que ela disse que iríamos repetir todos os dias até o fim do verão para entrarmos no espírito de acampar. E era assim: “R-O-W-D-I-E, é assim que se soletra “rowdie”. Agitadas, agitadas, vamos ficar agitadas.” É. Eu não conseguia entender por nada deste mundo porque deveríamos ficar tão agitadas, ou porque tínhamos de soletrar essa palavra incorretamente (Rowdy). Mas eu recitei o refrão. Recitei o refrão junto com todo mundo. Fiz o meu melhor. E só esperava o momento em que poderia me isolar e ler meus livros.

Mas na primeira vez que tirei meu livro da mala, a menina mais legal do alojamento se aproximou e perguntou, “Porque você está assim tão quieta?” quieta, claro, sendo exatamente o oposto de R-O-W-D-I-E. Na minha segunda tentativa, a monitora se aproximou com uma expressão preocupada e repetiu o objetivo do espírito de acampar e disse que deveríamos fazer um esforço para sermos extrovertidos.

Então guardei meus livros, novamente na mala, coloquei-os embaixo da cama, e lá ficaram por todo o verão. Eu me sentia meio culpada por isso. Sentia que os livros precisavam de mim, estavam me chamando e eu os havia abandonado. Mas os abandonei mesmo e não abri mais a mala até voltar para casa com minha família no fim do verão.

Conto a vocês essa história sobre o acampamento. Poderia ter-lhes contado outras 50 parecidas – todas as vezes que captei a mensagem que, de alguma forma, meu jeito quieto e introvertido de ser não era bem o jeito certo de ser, que eu deveria tentar parecer mais extrovertida. Em meu íntimo sempre senti que isso estava errado e que introvertidos eram excelentes exatamente como eram. Mas durante anos neguei essa intuição, e por isso tornei-me advogada em Wall Street, em vez da escritora que sempre desejei ser – em parte por precisar provar a mim mesma que poderia ser audaciosa e assertiva também. Eu sempre ia a bares lotados quando o que queria mesmo era um jantar agradável com amigos. E em autonegação fiz essas escolhas tão automaticamente, que nem tinha consciência de que as fazia.

Isso é o que muitos introvertidos fazem e a perda certamente é nossa, mas também é de nossos colegas e de nossa comunidade. E, correndo o risco de soar pretensiosa, a perda é do mundo. Pois quando se trata de criatividade e liderança, precisamos dos introvertidos fazendo o que sabem fazer melhor. De um terço à metade da população é introvertida – de um terço à metade. Isso é uma em cada duas ou três pessoas que conhecemos. Então, mesmo que vocês sejam extrovertidos, estou falando de seus colegas de trabalho, seus cônjuges e seus filhos e da pessoa sentada a seu lado agora – todas sujeitas a esse preconceito que é bem arraigado e real em nossa sociedade. Todos nós interiorizamos isso desde pequenos sem ao menos termos uma linguagem para o que fazemos.

Para enxergar claramente o preconceito vocês precisam entender o que é introversão. É diferente de ser tímido. Timidez tem a ver com o medo do julgamento social. Introversão é mais sobre como alguém reage à estimulação, incluindo estimulação social. Portanto, extrovertidos precisam de muita estimulação, enquanto os introvertidos se sentem mais vivos, mais ativos e mais capazes quando estão em ambientes mais silenciosos e calmos. Nem sempre – essas coisas não são absolutas – mas a maior parte do tempo. Então o segredo para maximizarmos nossos talentos é nos colocar na zona de estimulação que nos seja adequada.

Mas agora é que entra o preconceito. Nossas instituições mais importantes, nossas escolas e nossos locais de trabalho, são geralmente projetados para os extrovertidos e sua necessidade de muita estimulação. E hoje também temos esse sistema de crença que chamo de o novo ‘pensamento de grupo’, que considera que toda criatividade e produtividade vêm de um lugar curiosamente gregário.

Então imaginem a típica sala de aula atual: Quando eu estava na escola, nós sentávamos em filas. Sentávamos em filas de carteiras como essa, e fazíamos a maior parte dos trabalhos individualmente. Mas hoje em dia, a típica sala de aula tem grupos de carteiras – quatro, cinco, seis ou sete crianças frente a frente. E as crianças fazem inúmeros trabalhos em grupo. Mesmo em disciplinas como matemática e redação criativa, que pensamos que dependeriam de voos solo de pensamento, espera-se que as crianças ajam como membros de um comitê. E para as que preferem ficar sozinhas ou simplesmente trabalhar sozinhas, elas costumam ser vistas como estranhas ou, pior, como problemas. E a grande maioria dos professores acredita que o estudante ideal é o extrovertido e não o introvertido, mesmo os introvertidos tendo melhores notas e sendo mais cultos, segundo pesquisa.

Ok, o mesmo acontece em nosso local de trabalho. Quase todos nós trabalhamos em escritórios abertos, sem paredes, onde somos sujeitos ao barulho e aos olhares constantes de nossos colegas. E quando se trata de liderança, os introvertidos geralmente são desconsiderados para posições de liderança, ainda que costumem ser muito atentos, bem menos passíveis de correr riscos incalculáveis – que é algo que, hoje, talvez todos valorizemos. Uma pesquisa interessante feita por Adam Grant na Wharton School descobriu que líderes introvertidos costumam ter melhores resultados que os extrovertidos, porque quando gerenciam empregados proativos, são mais passíveis de deixá-los seguir suas próprias ideias, enquanto que um extrovertido pode, involuntariamente, ficar tão empolgado com tudo que suas ideias acabam prevalecendo, e as ideias dos outros podem não vir à tona tão facilmente.

De fato, alguns líderes transformadores da história eram introvertidos. Darei alguns exemplos: Eleanor Roosevelt, Rosa Parks, Gandhi – todas essas pessoas descreviam-se como quietas, de voz suave e até tímidas. E todas foram o centro das atenções, apesar de todos seus instintos dizerem o contrário. E isso resulta em um poder próprio e especial, porque as pessoas podiam sentir que esses líderes estavam no comando, não porque gostavam de mandar nos outros nem por gostarem de ser admirados; eles estavam lá por não terem escolha, porque foram levados a fazer o que achavam certo.

Penso que à esta altura é importante dizer que adoro os extrovertidos. Gosto de dizer que alguns de meus melhores amigos são extrovertidos, incluindo meu querido marido. E, claro, nos situamos todos em pontos diferentes, no espectro introvertido/extrovertido. Até Carl Jung, o psicólogo que popularizou esses termos, disse que não há um introvertido puro nem um extrovertido puro. Ele disse que tal homem estaria num hospício, se acaso existisse. Algumas pessoas caem bem no meio do espectro introvertido/extrovertido, e as chamamos de ‘ambivertidas’. Costumo pensar que elas têm o melhor dos dois mundos. Mas muitos de nós se reconhecem como um dos dois tipos.

O que digo é que culturalmente precisamos de um melhor equilíbrio. Precisamos de mais yin e yang entre esses dois tipos. Isso é especialmente importante quando nos referimos à criatividade e à produtividade, porque quando os psicólogos observam a vida da maioria das pessoas criativas, o que encontram são pessoas muito boas em trocar ideias e em desenvolver ideias, mas que também têm um traço forte de introversão.

E isso porque a solidão é muitas vezes um ingrediente crucial para a criatividade. Darwin, fazia longos passeios sozinho no mato e declinava enfaticamente de convites para jantares. Theodor Geisel, mais conhecido como Dr. Seuss, inventava muitas de suas fantásticas criações num escritório isolado que tinha num campanário atrás da sua casa em La Jolla, Califórnia. Ele até tinha receio de conhecer as crianças que liam seus livros por temer que elas esperassem que ele fosse uma pessoa animada como Papai Noel e ficassem desapontadas com sua personalidade reservada. Steve Wozniak inventou o primeiro computador Apple sozinho, sentado em seu cubículo na Hewlett-Packard, onde trabalhava na época. Ele diz que jamais teria se tornado um expert caso não fosse tão introvertido para sair de casa quando estava crescendo.

Claro que isso não significa que devemos parar de colaborar – e um bom exemplo é o fato de Steve Wozniack ter se associado a Steve Jobs para lançar o computador Apple – mas significa, sim, que a solidão importa e que para algumas pessoas é como o ar que respiram. E, de fato, sabemos há séculos do poder transcendente da solidão. Só agora é que estranhamente começamos a esquecê-lo. Se vocês observarem as grandes religiões do mundo, encontrarão pensadores – Moisés, Jesus, Buda, Maomé – pensadores que vão por conta própria sozinhos na natureza onde têm epifanias e revelações profundas que depois trazem para o resto da comunidade. Então, nada de natureza, nada de revelações.

Isto não é nenhuma surpresa se vocês observarem as ideias da psicologia contemporânea. Parece que nem conseguimos estar em um grupo de pessoas sem instintivamente as espelharmos, imitando suas opiniões. Mesmo sobre coisas aparentemente pessoais e íntimas, como quem nos atrai, começamos a imitar as crenças das pessoas à nossa volta sem ao menos percebermos o que fazemos.

E os grupos, como se sabe, seguem as opiniões da pessoa mais dominante e carismática presente, mesmo não havendo nenhuma correlação entre ser o melhor orador e ter as melhores ideias – Quero dizer, zero. Portanto… Vocês podem estar seguindo a pessoa com melhores ideias, mas também podem não estar. E querem mesmo deixar isso ao acaso? É muito melhor todos seguirem seus próprios caminhos, gerando suas próprias ideias livres das distorções das dinâmicas de grupo, e depois reunirem-se como equipe para falarem num ambiente bem gerenciado e começar daí.

Se tudo isso é verdade, então por que estamos entendendo tudo errado? Por que organizamos nossas escolas e locais de trabalho assim? E por que fazemos esses introvertidos se sentirem tão culpados por vez ou outra querer estar sozinhos? Uma das respostas está enraizada em nossa história cultural. As sociedades ocidentais, em particular os Estados Unidos, sempre favoreceram o homem de ação em vez do homem contemplativo. Mas nos primórdios da América, vivíamos o que os historiadores chamavam de cultura do caráter, quando ainda valorizávamos as pessoas pelo seu interior e sua retidão moral. E se olharem os livros de autoajuda daquele tempo, todos tinham títulos como “Caráter, a Coisa Mais Importante do Mundo.” E eles tiveram exemplos como Abraham Lincoln que era elogiado por ser modesto e despretensioso. Ralph Waldo Emerson apelidou-o de “Um homem que não ofende pela superioridade.”

Mas depois chegamos ao século 20 e entramos numa nova cultura que historiadores chamam de cultura da personalidade. Aconteceu que evoluímos de uma economia agrícola à um mundo de grandes negócios. De repente, as pessoas mudaram de vilas pequenas para cidades. Em vez de trabalharem com pessoas que conheceram a vida toda, agora têm que provar seu valor numa multidão de estranhos. Então, compreensivelmente, qualidades como magnetismo e carisma parecem, de repente, muito importantes. E assim livros de autoajuda mudam para satisfazer essas novas necessidades e eles começam a ter nomes como “Como Ganhar Amigos e Influenciar Pessoas.” E eles têm como modelos grandes vendedores. Este é o mundo em que vivemos. É a nossa herança cultural.

Nada disso significa que as habilidades sociais não são importantes, e também não invoco a abolição do trabalho em equipe. As mesmas religiões que enviaram seus sábios para isolados cumes de montanha também nos ensinam sobre amor e confiança. E os problemas que enfrentamos hoje em áreas como ciência ou economia são tão amplos e complexos que precisamos de exércitos de pessoas se unindo para resolvê-los, trabalhando juntos. Quanto mais liberdade dermos aos introvertidos para que sejam eles mesmos, maior a probabilidade de eles surgirem com suas próprias e únicas soluções para esses problemas.

Então gostaria de compartilhar com vocês o que está em minha mala hoje. Adivinham? Livros. Tenho uma mala cheia de livros. Aqui está Margaret Atwood, “Olho de Gato”. Aqui está um romance de Milan Kundera. E aqui está “O Guia dos Perplexos”, de Maimonides. Mas estes não são de fato meus livros. Trouxe-os comigo porque foram escritos pelos autores favoritos de meu avô.

Meu avô era um rabino e era um viúvo, que vivia sozinho num pequeno apartamento no Brooklyn, que era meu lugar favorito quando criança, em parte porque estava envolto por sua presença amável e cortês e, em parte, porque estava cheio de livros. Literalmente todas as mesas, todas as cadeiras desse apartamento tinham cedido sua função original para agora servirem de base para equilibrar pilhas de livros. Tal como o restante da família, a atividade favorita de meu avô era ler.

Mas ele também adorava sua congregação e podíamos sentir esse amor em seus sermões, todas as semanas, durante os 62 anos em que foi rabino. Ele pegava os frutos da leitura de cada semana e tecia essas tapeçarias intrincadas do pensamento antigo e humanista. As pessoas vinham de todo lugar para ouvi-lo falar.

Mas eis algo interessante sobre meu avô. Debaixo dessa função cerimonial, ele era muito modesto e introvertido – tanto que quando pregava esses sermões, tinha problemas em manter contato visual com sua congregação para quem havia falado por 62 anos. E mesmo        afastado do púlpito, quando vinham cumprimentá-lo, ele costumava acabar logo a  conversa com receio de estar tomando muito tempo dos outros. Mas quando morreu, aos 94 anos, a polícia teve que fechar as ruas da sua vizinhança para acomodar a multidão que foi se despedir dele. E agora tento seguir o exemplo do meu avô à minha maneira.

Publiquei recentemente um livro sobre introversão, e demorei uns 7 anos para escrevê-lo. Para mim, esses 7 anos foram uma benção, porque eu estava lendo, escrevendo, pensando, pesquisando. Era a minha versão das horas que meu avô passava sozinho na biblioteca. Mas agora, de repente, meu trabalho é muito diferente, e meu trabalho é estar aqui falando sobre isso, falando sobre introversão. E isso é bem mais difícil para mim, pois por mais honrada que eu me sinta por estar aqui com vocês agora, este não é meu ambiente natural.

Então me preparei para momentos como este o melhor que pude. Passei o último ano praticando oratória sempre que pude. E o chamo de meu “ano de falar perigosamente”. E isso me ajudou muito. Mas digo-lhes, o que ajuda ainda mais é meu sentimento, minha convicção, minha esperança de que, no que diz respeito à nossa postura quanto à introversão, ao silêncio e à solidão, estamos mesmo à beira de uma mudança profunda. Quero dizer, estamos mesmo. E agora vou deixá-los, antes fazendo três apelos aos que compartilham dessa visão:

Número um: Parem com a loucura de trabalho em grupo constante. Parem. E quero ser clara no que estou dizendo, porque acredito profundamente que os nossos escritórios deviam encorajar as interações casuais, conversas de café – do tipo em que as pessoas se reunem e, do nada, trocam ideias. Isso é ótimo. É ótimo para introvertidos e extrovertidos. Mas precisamos de muito mais privacidade, liberdade e autonomia no trabalho. Na escola, a mesma coisa. Claro que precisamos ensinar às crianças a trabalhar juntas, mas também temos que ensiná-las a trabalhar sozinhas. Isso é particularmente importante para crianças extrovertidas. Elas precisam trabalhar sozinhas porque em parte é daí que vem o pensamento profundo.

Número dois: Vão para a natureza. Sejam como Buda, tenham suas próprias revelações. Não estou dizendo que temos de ir todos agora construir nossas cabanas no mato e nunca mais falar uns com os outros, mas digo que deveríamos conseguir nos desligar e ter contato com nosso próprio mundo interior mais frequentemente.

Número três: Deem uma boa olhada no que há em sua própria mala e no motivo daquilo estar lá. Extrovertidos, talvez sua mala também esteja cheia de livros. Ou cheia de copos de champanhe ou equipamento de paraquedismo. Seja o que for, espero que mostrem essas coisas sempre que possam e nos agraciem com sua energia e alegria. Mas, introvertidos, vocês sendo vocês mesmos, provavelmente têm o impulso de guardar cuidadosamente o que há dentro de sua mala. E está tudo bem. Mas ocasionalmente, só ocasionalmente, espero que abram sua mala para as outras pessoas verem, porque o mundo precisa de vocês e das coisas que carregam.

Desejo-lhes a melhor de todas as jornadas possíveis e a coragem para falar suavemente. Muito obrigada.