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Bomba de calor na Europa. Temperaturas chegam a 45 graus à sombra

Em Roma, 40 graus à sombra. No Vêneto, 41 graus, alarme vermelho para o excesso de ozônio na atmosfera. No sul da França, 45 graus, as autoridades pedem às pessoas que permaneçam em casa. É a “bomba de calor” deste início de verão europeu.

Por: Luis Pellegrini

Os italianos chamam o fenômeno de “bomba di calore”, bomba de calor. Para quem, como eu, que acabo de chegar a Roma vindo de uma São Paulo ainda fresca pela amenidade do nosso inverno, a sensação é a de uma bomba sim, mas atômica ou até mesmo de hidrogênio. Com a temperatura chegando aos 40 graus centígrados, não dá nem vontade de sair às ruas durante o dia. Os passeios ficam restritos às horas noturnas, quando os bares e as trattorias  ao ar livre ficam cheios e as sorveterias lotadas. Núbia, a garçonete cubana de uma delas, ao saber que sou brasileiro e fã de salsa, não se furta a uma confidência de revolta latino-americana: diz, em seu espanhol carregado do sotaque da ilha, que vai por veneno no café do proprietário da sorveteria, pois ela a deixou sozinha, desde as 9 da manhã, para atender a clientela que não para de chegar. “E olha que estou acostumada ao calor e ao trabalho escravo, sou cubana. O patrão não perde por esperar. Ele não sabe que sou filha de Xangô!”

Como se não bastasse o calor, Roma está – literalmente – um lixo. O mesmo não é recolhido há dias devido a uma crise que implica em greve dos condutores dos veículos sanitários urbanos. As grandes caçambas verdes espalhadas em toda a parte na capital italiana extravasam porcarias que exalam um cheiro bem ruim. Há dois dias, quando cheguei, havia greve dos transportes urbanos, e nem a peso de ouro se conseguia um taxi. Uma autoridade do município aconselhava as pessoas a ficar em casa ou a se refugiar no ar condicionado dos shoppings centers. Ao mesmo tempo, mil e uma maldições caíam e continuam caindo sobre a cabeça da atual prefeita de Roma, Virginia Elena Raggi. Filiada ao Movimento 5 Estrelas, ela e seu partido – atualmente no poder em conjunção com a direitista Lega – são considerados os maiores fracassos políticos da história moderna da Itália.

Mas o tema é a bomba de calor. Há pouco a Radio Classique, da França, em seu noticiário das 8 da manhã, anunciava em tom alarmista que a temperatura em todo o sul do país, sobretudo na região da Camargue e na desembocadura do rio Ródano chegará hoje aos 45 graus centígrados. As autoridades aconselham as pessoas a trabalhar em casa e os estudantes a fazer o mesmo. Os franceses, aparentemente mais conscientes e mais bem informados que os italianos em relação aos grandes problemas ambientais e climáticos que estamos enfrentando, não hesitam em afirmar que a causa da atual bomba de calor é mesmo o aquecimento  global.

Calor em Paris

Enquanto isso, meus primos que moram nos arredores de Vicenza, no Vêneto, norte da Itália, me  aconselham a esperar alguns dias para ir visitá-los. Em Veneza e em toda a província do Vêneto o calor provocou o aumento das concentrações de ozônio a ponto de seu nível superar o limite de 180 æg/m3 (microgramas por metro cúbico) definido pelas normativas internacionais como “nível para além do qual existe risco à saúde humana em casos de exposição até mesmo de curta duração para alguns grupos particularmente sensíveis da população”. Entre tais grupos estão idosos (eu), crianças, mulheres grávidas, pessoas que apresentam distúrbios respiratórios (eu), fotossensíveis (eu), albinos e ruivos (eu), etc. O alerta acaba de ser lançado pela Agência Regional para o Meio Ambiente do Vêneto (Arpav). A previsão para hoje nessa região habitualmente mais fresca é que a temperatura chegue aos 41 graus.

A atual bomba de calor na Itália deverá durar mais uns 3 ou 4 dias pelo menos. Significa que vou ficar por aqui, no conforto fresquinho do Anticafé, à Via Veio 4B, simpático cyber bar no bairro de San Giovanni, onde me encontro neste momento, digitando coisas pra vocês. Até logo mais.

PS- Acabo de saber que javalis selvagens saíram da floresta nas proximidades do bairro de Monte Mário, norte de Roma, e estão vasculhando feito doidos os montes de lixo acumulado nas ruas.