SER INTELIGENTE SAIU DE MODA

Trata-se de mais uma tragicomédia contemporânea: Um grupo de professores e pedagogos reunidos na Universidade de Oxford, na Inglaterra, lança o alarme: nas escolas britânicas, os estudantes mais dotados se sentem “nerds, cê-dê-efes e chatos”. A tendência se espalha entre alunos de outros países da Comunidade Europeia. E fatalmente chegará ao Brasil. Se é que ainda não chegou…

Por Luis Pellegrini

 “Nada mais brega do que bancar o inteligente”, passaram a afirmar, sem nenhuma vergonha na cara, muitos estudantes ingleses a seus boquiabertos professores. Diante do fato até então inédito nos anais do ensino britânico, alguns dos mais brilhantes catedráticos decidiram se reunir na tentativa de explicar o fenômeno. Resultado? Se ainda não foi banido pelos professores, o adjetivo clever (inteligente) está muito perto disso. Decidiu-se inclusive que, daqui em diante, será preciso tomar cuidado antes de chamar de inteligentes os melhores alunos. Porque, segundo uma pesquisa, são exatamente os melhores da turma os que mais correm risco de cair na prática do bullying (assédio físico ou psicológico aos colegas) para tentar se livrar da pecha de cê-dê-efes.

Os professores estão convencidos de que os estudantes, após serem definidos como “inteligentes”, se sentem de algum modo marcados. E por isso reagem adversamente. Provas disso? Em numerosos casos, muitos deles se recusam inclusive a retirar os prêmios escolares que ganharam por medo de serem ridicularizados pelos colegas.

Simon Smith, um professor de Essex que participou das reuniões de Oxford, foi um dos primeiros a afirmar que “entre os estudantes de hoje, ser inteligente simplesmente não está mais na moda”. “Falei com muitos deles”, explica Smith, “e descobri que, na sua opinião, ser inteligente significa, sobretudo, ser chato, possuir uma personalidade sem graça, ser o queridinho dos professores e outras coisas que não podem ser repetidas em público”. Seu alerta é sério.

Existe, no entanto, um outro aspecto, mais sociológico, ligado aos desenvolvimentos de uma sociedade tipicamente consumista que se agarra aos “mitos” do espetáculo e das celebridades do momento. Segundo essa tendência, os padrões ideais a serem perseguidos não são mais os dos grandes escritores e compositores, os dos cientistas e filósofos geniais, não mais os dos grandes empreendedores, nem sequer os dos megagaviões da bolsa de valores e dos bancos. Segundo o professor Wesley Paxton, de Yorkshire, essa tendência deve ser atribuída, sobretudo, aos atuais modelos e cânones de celebridade que contribuem para bloquear os jovens, afastando-os do sucesso acadêmico. Para explicar isso, Paxton cita, por exemplo, um self-made-man como Alan Sugar, popularmente conhecido como “Barão Sugar”, empresário britânico, conhecidíssimo personagem da mídia e consultor político. Nascido de família humilde no East End, região pobre de Londres, ele é hoje dono de uma fortuna estimada em US$ 1,2 bilhão. A exemplo de outros homens e mulheres de sucesso no mundo contemporâneo, Sugar não costuma ler livros e gosta de se vangloriar do escasso sucesso que alcançou na escola. Outro exemplo é o do jogador de futebol David Beckham, “um dos tantos protagonistas da vida inglesa contemporânea que não dá, no entanto, a impressão de possuir capacidades intelectuais particulares”.

Não menos deprimente foi o panorama desenhado por Ann Nuckley, administradora escolar em Southwark, bairro no sul de Londres. Ela contou que muitos estudantes da sua escola recusam frequentar os estágios e receber os prêmios por suas conquistas. “Preferem adotar como modelo as celebridades do momento, aqueles personagens que transitam pelas revistas de fofoca social, ou as que analisam nos mínimos detalhes a gloriosa existência do último garotão que, da noite para o dia, saiu do anonimato para a luz do estrelato graças a um papel na novela da televisão.”

Que fazer diante do quadro? Os 34 mil membros da Associação dos Professores da Inglaterra anda não sabem exatamente como agir, mas não têm nenhuma intenção de permanecer passivos. Primeira medida: decidiu-se cancelar o substantivo “fracasso escolar”, substituindo-o pelo conceito de “sucesso adiado”. Parece meio paliativo, mas, enfim, já é alguma coisa. Talvez fosse o caso, lá como aqui, de pressionar as autoridades para que comecem a afirmar que cultura e inteligência são coisas boas, e delas a gente gosta. E procurar as verdadeiras razões dessa perigosa inversão de valores que caracteriza nosso atual momento histórico, no qual os grandes são esquecidos e desprezados e os medíocres são elevados ao olimpo dos deuses de curta duração.

No que me diz respeito, quando procuro as causas de hecatombes do gênero (sim, trata-se de uma hecatombe, inclusive do ponto de vista espiritual), procuro não permanecer em exames de superfície. As razões estão sempre mais embaixo e nesse caso dizem respeito à inquestionável falência ética-filosófica da nossa civilização da produtividade e do consumismo insustentáveis.

Que adolescência é sinônimo de crise é coisa mais que sabida, e desde sempre. Pelo menos desde quando os adolescentes éramos nós, inquietos e mudos, ávidos de experiências, perigosos e em perigo. Éramos rebeldes, sim, contra tudo e todos que se contrapunham a nossos desejos. Não confiávamos no bom senso nem na escala de valores dos mais velhos e, como é natural em quem se encontra na fase dos verdes anos, éramos todos donos da verdade absoluta e dela não abríamos mão. Ilusões cujo ímpeto o tempo se encarregou de arrefecer e até mesmo apagar.

Rebeldes. Mas, que me lembre, nunca ouvi nenhum jovem da minha geração afirmar que ser inteligente é ser brega. O que mudou? Segundo as considerações do jornalista italiano Michele Serra, “explodiu o mecanismo que regula a relação entre os direitos e os deveres”. Ou, para tentar dizer melhor, entre os desejos e seus limites. Pois vivemos numa era em que, cada vez mais, perde-se a consciência dos limites e todos, sobretudo os mais jovens, acham que podem tudo e que nada lhes pode ser negado.

Como poderia ser diferente? A multiplicação dos desejos, no mundo contemporâneo, é contagiosa, exponencial e estruturalmente vital para a multiplicação do consumo. Toda a arte infernal da propaganda comercial contemporânea, por exemplo, é baseada no estímulo desmesurado do desejo. Como fazer, assim sendo, para que a alta criação intelectual, científica ou artística, continue sendo mais importante do que a sola vermelha do último sapato desenhado por Christian Louboutin? Ou que o mais recente ensinamento espiritual do dalai lama seja considerado mais valioso e interessante do que o último escândalo na vida de Paris Hilton?

Matéria para reflexão.

Comentários

comentários

Uma ideia sobre “SER INTELIGENTE SAIU DE MODA

  1. Tereza KAwall

    A Últma deusa de curta duração( espero) do nosso Olimpo midiático chama-se ” Lady Gaga”, veja só; a mediocridade musical e visual de mãos dadas, estão “bombando” na Intenet, é triste mesmo.
    Bjk

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