Saravá, Dom Pelé!

 

Dom Pelé

Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba

Em Campina Grande, Paraíba, no entardecer de domingo, 14 de fevereiro, na pracinha em frente ao auditório onde se realizava o 19° Encontro da Nova Consciência, vários representantes de religiões organizadas compunham um semicírculo no momento em que, depois da passeata pela paz, se realizava o tradicional ato macroecumênico. No semicírculo estava o casal de monges budistas Ricardo Gonçalves e sua esposa Ivonete, com seus magníficos quimonos negros japoneses; estava o monge beneditino Marcelo Barros, todo de branco; a mãe-de-santo de umbanda Rita de Cássia S. Cordeiro, de São Paulo; a iraniana Simin Rabbani, da Fé Baha’i; o xeique Muhammad Ragip, da Ordem Sufi Halveti Jehahi; Fernando Ribeiro, do Santo Daime; o monge Chandra Murkha, do movimento Hare Krishna; os xamãs Marcos Ninguém e Yatamalo (a psicóloga paraibana Marise Dantas); o cigano Virgílio Vassalo, da tradição cigana; os sacerdotes wiccanos Claudiney Prieto e a norte-americana Traci Regula; o monge zen Handa Jishô; a índia Potiguara, apresentada como única mulher pagé do Brasil; e vários outros representantes de comunidades religiosas instaladas no Brasil.

Representantes religiosos no 19° Encontro da Nova Consciência

Como acontece todos os anos, durante o Encontro, cada um deles se preparava para dizer alguma coisa, uma pequena prece ou cântico, quando um brado ecoou em meio a pequena multidão de espectadores: “Saravá, Dom Pelé!” Era uma saudação a alguém que também fazia parte do grupo, Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba, bem conhecido como Dom Pelé ou Dom Zumbi, por suas origens negras e sua luta em prol da igualdade racial. Saravá! Saudação da tradição africana, destinada aos orixás, e aparentemente estranha quando dirigida a um príncipe da Igreja Católica. Mas não para Dom Pelé. Do alto dos seus venerandos 92 anos de idade, empertigado como se tivesse apenas 20, ele sorriu, feliz, e acenou para as pessoas. Foi um aperto no coração: por um efeito de estranha magia, a luz de um refletor batia diretamente sobre a sua cabeça branca, conferindo-lhe uma auréola de luz dourada. A última coisa que ele aceitaria seria ser chamado de santo, nem é o que pretendo aqui, mas que naquele instante deu em todos nós uma grande vontade de pedir-lhe a benção, isso deu.

Coube também a Dom Pelé a conferência de encerramento do 19° Encontro da Nova Consciência, sob o tema “Ecologia e Religião”. E lá, no palco do Auditório do Sesc de Campina Grande, o arcebispo mostrou que, se às vezes exibe uma auréola, certamente conferida pelos anos de experiência e pela sabedoria que acumulou, isso não significa que abdicou da espada dos bons combates. Ele é bom espadachim, desde os tempos de Dom Hélder Câmara, de quem foi amigo próximo e colaborador assíduo, e nada perdeu do bom manejo dessa arma, por ele transformada em palavras ditadas pela consciência clara das coisas.

O discurso de Dom Pelé foi tão forte e eloquente que, a um certo ponto, não me contive e comentei com Dom Jaime Vieira Rocha, atual bispo diocesano de Campina Grande, que sentava a meu lado: “Dom Jaime, nosso arcebispo escreveu uma encíclica! Ela poderia se chamar Rerum Terrarum, Das Coisas da Terra”. Dom Jaime, homem culto e atuante que, por seu lado, sempre que pode, põe as mangas de fora e mostra que não é padre de ficar apenas rezando, concordou “em gênero, número e grau!”

Dom Pelé, entre a xamã Iatamalo e o monge Ricardo Gonçalves

“Mataram o rio, mataram o peixe e o pescador; mais uma vez crucificaram nosso Senhor”, começou a fala de Dom Pelé, lembrando os cantos desolados das populações ribeirinhas do Nordeste brasileiro, vítimas da população industrial cujos dejetos, lançados no rio Goiana, envenenaram suas águas e destruíram a fauna rica em peixe e caranguejo.

Daí em diante, Dom Pelé fez uma análise muito lúcida da questão ambiental em nosso país e no mundo, sem esquecer das evidentes conotações existentes entre a ecologia, a justiça social e a consciência espiritual. Impossível reproduzir a totalidade do discurso aqui. Tentarei apresentar uma síntese do mesmo num próximo número da revista Planeta. Interessados poderão solicitar a íntegra no site dos organizadores do evento, www.novaconsciencia.com.br

Mas não posso deixar de reproduzir, pelo menos, alguns dos parágrafos finais da fala de Dom Pelé. Eles são a prova de que nem tudo é obscurantismo nas posições atuais da Igreja: com autorização ou não das autoridades vaticanas, alguns prelados ainda são capazes de dizer o que tem de ser dito, em face das realidades que enfrentamos em nosso país.

Índia Potiguara, única mulher pagé do Brasil

Eis então alguns conselhos de Dom Pelé: “Outro obstáculo à realização dos objetivos gananciosos dos que se enriquecem destruindo a natureza é a organização do povo. A convicção cada vez mais difundida e comprovada de que ‘povo unido e organizado jamais será vencido” atemoriza e irrita os poderosos. Por isso eles se empenham de todos os modos, para aniquilar as forças populares. Eliminam seus líderes, acusam de comunistas e subversivas suas organizações, combatem igrejas e outras instituições que se colocam a serviço da causa popular e condenaram a Teologia da Libertação que, a partir da fé no Deus único e libertador, passou a produzir uma reflexão sobre a caminhada do povo e a animar uma espiritualidade baseada na partilha e na comunhão fraterna. São milhares os que já foram e os que estão sendo sacrificados pela causa da libertação. Religiosos, sindicalistas, advogados, camponeses… integram o grupo numerosos dos “mártires da caminhada”. Elemento importante dessa espiritualidade libertadora é a não violência evangélica, vivida e ensinada por Dom Helder Câmara. Se, como afirma São Paulo, ‘não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus’ (Gal 3,28), com que direito se vai praticar a violência? Em consequência, não posso andar armado, não posso ferir o outro com a palavra ou com o desprezo. Tenho que permanecer firme na defesa do direito, mas usando somente a arma da mansidão, consciente de que o agressor é também meu irmão. Um dia ele poderá deixar de ser agressor. Nunca deixará de ser meu irmão.”

Saravá, Dom Pelé. Sua benção.

Comentários

comentários

7 ideias sobre “Saravá, Dom Pelé!

  1. Tamico Kawanishi

    A sua Benção. Memorável o texto acima. Parabéns pelo belo trabalho onde podemos conhecer um pouco mais a cada dia. Feliz Ano Novo com muita Luz e Paz.

  2. Luis Pellegrini Autor do post

    Olá Damião, também sou grande admirador de Dom Pelé. No momento gozo alguns dias de férias. Mas vou revirar os textos que você sugere assinados por nosso Arcebispo Emérito, e por quem o apoia, e escolher coisas para por no blog. Obrigado, Feliz 2012. Luis Pellegrini

  3. Damião Ramos Cavalcanti

    Prezado Editor, Junto-me às pessoas, textos e palavras que prestam homenagem a Dom José Maria Pires, ao completar seus 70 anos de dedicação ao Povo de Deus. Assim, disponibilizo a esse lindo Portal a crônica “Dom Pelé chuta com os dois pés” ==> http://www.drc.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=3390848
    Como também outros textos que desejar republicar deste mesmo site ==>
    http://www.drc.recantodasletras.com.br/index.php

    Atenciosamente, Damião Ramos Cavalcanti
    Cronista do Jornal Correio da Paraíba

  4. Luis Pellegrini Autor do post

    Allejo, Dom Pelé tem esse apelido, conhecido em todo o Nordeste, exatamente porque é mulato e gosta de futebol e do grande craque Pelé. Acho que os dois se admiram mutuamente e estão bem felizes por compartilhar o nome.

  5. Luis Pellegrini Autor do post

    Foi lindo mesmo, Diana. Ver um sacerdote como Dom Pelé, aos 92 anos de idade, falar com a mente tão reta quanto sua coluna vertebral, e dizer corajosamente o que pensa e sente. Que exemplo!

  6. Diana Ramos

    Emocionante ler este relato de um momento que também presenciei e marcou muito.
    Dom Pelé, ou Dom Zumbi como ele brincando falou lá, deixou registrada sua força nas palavras ditas que bem merecem uma publicação na Planeta.
    Adorei também as fotos!

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