Paralisado, ele escreve com o pensamento

<p><em>Damien Perrier, o físico francês vítima de esclerose lateral amiotrófica consegue se comunicar usando as suas ondas cerebrais.</em></p> (photo: )Damien Perrier, o físico francês vítima de esclerose lateral amiotrófica consegue se comunicar usando as suas ondas cerebrais.

Há alguns meses paralisado pela doença de Charcot (esclerose lateral amiotrófica), o francês Damien Perrier experimenta uma interface cérebro-máquina para se comunicar. Trata-se de um projeto único na França, e seus resultados são muito animadores. 

Par Cécile Thibert – Le Figaro

Em junho de 2009, Damien Perrier, um doutor em física que tinha então 35 anos e era pai de uma garotinha, recebeu o diagnóstico da doença de Charcot, também chamada “esclerose lateral amiotrófica”. Essa doença incurável, devido à degeneração dos neurônios motores, acarreta uma atrofia progressiva dos músculos das pernas e dos braços, dos músculos respiratórios, da deglutição e da palavra. Hospitalizado em janeiro 2013 no departamento de serviços de cuidados paliativos do hospital de Chambéry, Damien perde pouco a pouco o uso da palavra. Com alguns amigos engenheiros, ele se lançou no decorrer de 2015 num ambicioso projeto de interface cérebro-máquina a abaixo custo, uma tecnologia que necessita habitualmente de materiais e equipamentos muito caros. Para responder nossas perguntas, Damien Perrier recorreu a um sistema de seguimento ocular (eye-tracking). Para dar prosseguimento a suas pesquisas, ele apela atualmente para doações através de uma  plataforma online.

Le FigaroComo funciona a interface cérebro-máquina que você está utilizando?

Damien Perrier – Possuo um capacete eletroencefalográfico (EEG) que, com seus 14 eletrodos, registra a atividade do meu cérebro. Os sinais são amplificados e enviados por wifi ao programa OpenVibe, criado por Maureen Clerc, diretora de pesquisa no Instituto Nacional de Pesquisa em Informática e em Automática (Inria), e por Nathanaël Foy, engenheiro do Inria. O programa funciona assim: quando somos surpreendidos por algum acontecimento sensorial, tal como um alarme ou um flash, nosso cérebro gera uma onda que aparece em cerca de 300 milésimos de segundo. Nós a chamamos “onda P300”. No meu teclado virtual, grupos de letras geradas aleatoriamente surgem como flashes, e meu cérebro emite uma onda P300. Após vários flashes, o programa pode deduzir qual é a letra que procuro exprimir, e assim por diante…

Concretamente, você quer consultar os seus e-mails e quer responde-los. Como isso acontecerá?

Para abrir um mail e inserir o meu texto de resposta, utilizo no momento o meu sistema de seguimento ocular (eye-tracking). O programa OpenViBE me permite escrever textos, mas não me permite navegar no meu computador. A escritura através dessa interface é bastante demorada, 20 minutos para exprimir 28 letras. Mas nós iremos acelerar a velocidade da escrita. Para fazer isso, temos três pistas prometedoras que iremos investigar. Este será o objetivo das nossas próximas sessões experimentais que começarão nos próximos dias.

Como serão feitos os testes?

Cada sexta-feira à tarde, meu amigo Samuel Bernadet, informático, vem ao meu quarto-laboratório no hospital. Samuel começa liberando a parte de trás da minha cabeça para que exista espaço suficiente para a aplicação dos eletrodos. Em seguida ele umidifica todos os eletrodos com um líquido condutor, depois ele coloca em mim o capacete de EEG munido de eletrodos úmidos, antes de ligar o programa. A seguir, toca a mim fazer funcionar as minhas meninges. Nós trabalhamos em estreita colaboração com os pesquisadores do Inria que nos emprestam os seus equipamentos e programas e a quem enviamos os resultados das nossas sessões experimentais.

Qual é a próxima etapa?

Apelamos atualmente para os doadores. O dinheiro coletado servirá, entre outras coisas, para substituir meu capacete, que está defeituoso devido ao grande número de experiências, e também para ser investido na criação de um outro capacete ainda mais aperfeiçoado e, enfim, para fabricarmos um casco munido de eletrodos secos. Descobrimos, com efeito, que o líquido que usamos e que, supostamente, melhora a condutividade elétrica entre o couro cabeludo e os eletrodos se evapora em menos de uma hora. Os eletrodos secos, que não mais precisarão ser umedecidos por esse líquido, nos permitirão superar essa dificuldade. Concebemos atualmente protótipos com a ajuda de uma impressora 3D, e depois iremos testar todas essas criações. As interfaces cérebro-máquina nos oferecerão numerosas possibilidades nos anos futuros: pilotar um drone, fazer caminhar um paraplégico, dirigir um robô à distância, comunicar, jogar videogames, controlar seu ambiente, etc…

Vídeo:  Damien Perrier, que está quase totalmente paralisado, consegue emitir letras e se comunicar graças a um programa de computador que consegue ler e interpretar suas ondas cerebrais.

 

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