Pantanal – Nas asas das araras-azuis

Arara-azul Candisani

Visitei o Pantanal sul-mato-grossense, no final de novembro de 2009, para conhecer o trabalho do Projeto Arara-Azul. Iniciativa exemplar, ele é a prova cabal do que pode fazer, em termos de realização ambiental, a iniciativa privada e a empresarial quando se unem à dedicação e à competência de uma séria pesquisa científica.

Por Luis Pellegrini

Fotos de Luciano Candisani

Cheguei há pouco do Pantanal de Mato Grosso do Sul, onde vivi, em companhia de um grupo de colegas jornalistas, uma bela experiência: acompanhar o trabalho de preservação e pesquisa das araras-azuis, espécie até há pouco seriamente ameaçada de extinção, desempenhado pelos biólogos especialistas do Instituto Arara-azul.

A chefe do projeto é a bióloga mato-grossense Neiva Guedes. Cientista e ser humano excepcional, Neiva tem aquela energia vital à flor da pele, típica das pessoas que realmente amam o que fazem: a força da paixão. Graças a essa força, mais muito estudo, dedicação e trabalho braçal – atributos que faz questão de repartir com toda a sua equipe –, ela conseguiu um feito prodigioso em apenas duas décadas de trabalho: triplicar o número de araras-azuis na região do Pantanal.

O Projeto Arara-Azul, que atua no estudo e preservação dessas aves no Pantanal sul-mato-grossense, celebrou 20 anos de atividades em 2009. Com efeito, foi em novembro de 1989 que Neiva Guedes, recém-formada, viu um bando de araras-azuis durante uma prática de campo. Foi amor à primeira vista. “Eram cerca de 30 araras-azuis pousadas num galho seco. Quando soube que a espécie estava ameaçada de extinção, e que estava desaparecendo rapidamente, decidi fazer algo para impedir isso”, conta Neiva. Essa decisão se tornou um marco em sua vida: a luta pela conservação da arara-azul em seu hábitat natural. Teve início assim uma missão à qual Neiva até hoje se dedica de corpo e alma.

Os resultados desses esforços são evidentes: hoje, a população de araras-azuis está se expandindo no Pantanal e praticamente triplicou a área monitorada; quando os trabalhos do Projeto Arara-Azul começaram, contabilizavam-se apenas 1.500 indivíduos da espécie; calcula-se no momento que a população na região já supera 5 mil indivíduos; 386 ninhos naturais estão cadastrados em 57 fazendas (mais de 400 mil hectares); 218 ninhos artificiais foram instalados em 14 fazendas; mais de 160 ninhos foram manejados e recuperados; acadêmicos, graduados e voluntários do Brasil e do exterior estão sendo treinados; araras-vermelhas e canindés também estão sendo monitoradas. Melhor ainda, fazendeiros de outros Estados estão se inspirando no exemplo e começando a instalar programas de proteção e ninhos artificiais para araras e outros psitacídeos em suas propriedades. O Projeto Arara-Azul já faz escola.

“Claro”, diz Neiva, “eu sozinha pouco ou nada conseguiria fazer. O projeto está dando certo graças ao apoio constante dos parceiros e patrocinadores que, alguns desde o início, como é o caso da Toyota, permanecem a nosso lado”. A montadora comemora os 20 anos da parceria por intermédio da Fundação Toyota do Brasil, que assumiu o direcionamento de importantes investimentos locados em responsabilidade social e ações de caráter ambiental.

Entre as novidades, por sinal, a principal iniciativa da parceria entre essa fundação e o Projeto Arara-Azul é a construção do Centro de Sustentabilidade, na base do Instituto Arara-Azul, em Campo Grande (MS). O novo espaço será referência na disseminação da cultura de proteção ao meio ambiente, por meio da educação da comunidade. “O Projeto Arara-Azul é um dos mais importantes e respeitados projetos de estudo e conservação de aves em seu hábitat natural. Desde a sua criação, em 1989, a Toyota acreditou na seriedade e no trabalho de todos os envolvidos e está investindo para colaborar com a multiplicação dos resultados do projeto”, ressalta George Costa e Silva, diretor-executivo da Fundação Toyota do Brasil.

Como a imensa maioria dos ninhos está situada em regiões não pavimentadas e de difícil acesso, a Fundação Toyota doou ao projeto picapes Hilux com tração 4×4, que permitem às equipes de biólogos chegarem a esses locais.

Participar de uma dessas jornadas de monitoramento na companhia dos biólogos faz qualquer um se sentir um Indiana Jones pantaneiro. Essa é, por sinal, uma emoção acessível a qualquer um que deseja experimentá-la. O Instituto Arara- Azul aceita levar junto – e por valores bastante razoáveis – minigrupos de turistas interessados. Trata-se, asseguro, de uma experiência vital definitiva, sobretudo para crianças da cidade grande. Quem quiser saber mais a respeito, basta acessar o site do Instituto, que citarei ao final.

Na fazenda e refúgio ecológico Caiman (outro grande parceiro do projeto), localizada no Pantanal Sul, está instalada a base para trabalhos de campo do Arara-Azul. Lá, a aventura começa ao nascer do sol. É nas primeiríssimas horas da manhã, no momento em que a fome bate e os bichos precisam comer, que os animais do Pantanal se mostram mais ativos e podem ser observados com mais facilidade. Bem instalados nas Hilux azuis, seguimos por trilhas de terra batida em direção aos “capões”, bosques de árvores e palmeiras que pontilham em toda a planície pantaneira. É neles que vivem e nidificam as araras-azuis, bem como as vermelhas e várias outras espécies de pássaros pantaneiros.

“O nome científico da espécie é Anodorhynchus hyacinthinus, popularmente chamada arara-azul grande, araraúna ou arara- preta”, explica Neiva durante o trajeto. “Pode medir até um metro e pesar 1,3 kg. É o maior psitacídeo do mundo. Na natureza, começa a se reproduzir com 8 ou 9 anos, formando casais para a vida toda. Coloca em média dois ovos de cada vez e, em geral, só um filhote sobrevive, ficando por três meses no ninho. Após esse período, começa a voar, mas continua dependente da alimentação dos pais até os seis meses”.

A aula da bióloga prossegue, ao mesmo tempo em que, das janelas do veículo, nossos olhos não sabem onde se fixar. São tuiuiús, seriemas, colhereiros, garças, veados-campeiros e veados do Pantanal, tamanduás, cachorros-do-mato, tatus e um sem-número de outros animais que, à beira da estrada, parecem pouco se importar com a passagem dos carros. Na fazenda Caiman – dizem que por ordens expressas do dono, o industrial e ecologista paulista Roberto Klabin, atual presidente do Instituto SOS Pantanal e da Fundação SOS Mata Atlântica –, é totalmente proibida qualquer agressão ou perseguição aos bichos. Eles respondem aos bons tratos exibindo sem nenhum temor nem pudor toda a sua beleza. Até onças-pintadas podem aparecer, saindo de dentro dos capões, ao entardecer, desde que devidamente chamadas pelos “esturradores”, um tipo de cuíca que imita à perfeição os esturros desses felinos. Ao ouvir os sons, achando que uma rival está invadindo os seus domínios, a onça sai do esconderijo e se aproxima. Aí, é melhor permanecer dentro do carro…

No Pantanal, explica Neiva, a alimentação das araras-azuis é baseada exclusivamente em castanhas de duas espécies de palmeira: acuri e bocaiúva. Uma única espécie de árvore, o manduvi, concentra até 90% dos ninhos da arara-azul. Para auxiliar na reprodução, as equipes do projeto trabalham não somente na recuperação e no manejo dos ninhos naturais, como também na construção de ninhos artificiais por toda a área, estimulando a população.

E finalmente chegamos a um dos capões que abrigam ninhos naturais. Eles são construídos pelas araras no alto dos manduvis. Por ter um cerne macio e suscetível à formação de ocos, essa é a árvore que elas preferem. As araras-azuis não começam um buraco, mas aumentam pequenas cavidades feitas por pica-paus, ou provocadas pela queda de galhos, ou mesmo iniciados por fungos e cupins. O buraco utilizado para o ninho é fundo e aconchegante, forrado com serragem que as araras beliscam da própria árvore.

Mas como é difícil encontrar cavidades naturais e há uma grande disputa com outras espécies, o Projeto Arara-Azul desenvolveu e instalou ninhos artificiais. Os primeiros ninhos foram colocados em 1997, em fazendas do Pantanal. A taxa de ocupação foi pequena, mas atingiu o objetivo de contribuir para a conservação da espécie a curto prazo porque parte deles foi ocupada por araras-vermelhas, tucanos, gaviões, corujas, patos selvagens e urubus, diminuindo a disputa por ninhos naturais.

Ainda na borda do capão, a ordem é falar bem baixo; melhor ainda, permanecer em silêncio, para não assustar os animais.

Em fila indiana, seguimos Neiva e sua equipe: Carlos Cezar Correa, assistente de pesquisa; Grace Ferreira da Silva, bióloga; Neliane G. Corrêa, comunicadora; Eveline R. Guedes, turismóloga, além dos estagiários e voluntários.

Logo depois, localizado o ninho, o ritual se repete diariamente, de ninho em ninho: um dos pesquisadores escala o munduvi com a ajuda de cordas, numa modalidade de rapel; chega até o ninho, localizado entre 5 e 10 metros de altura; coloca a mão dentro do oco e extrai lá de dentro o filhote. Embora repetido mil e uma vezes, o instante é sempre mágico. Nas mão do pesquisador, a pequena arara mantém-se imóvel e tranquila, como se soubesse que nenhum mal lhe será causado. Colocado dentro de um balde acolchoado, o animalzinho desce até o solo, onde será pesado e medido. Se já estiver com quase três meses de idade, época em que começará a dar seus primeiros voos fora do ninho, será também anilhado, uma quantidade mínima de seu sangue será recolhida e enviada a um laboratório para detectar-se o seu sexo e o seu DNA, e em seu peito será implantado um minúsculo chip, espécie de carteira de identidade que o identificará para sempre.

E aí – rasga coração –, Neiva Guedes cumpre um gesto que revela toda a profundidade da sua relação com as araras azuis: traz o filhote para perto do rosto e o cheira, como quem cheira uma rosa. “Não há perfume melhor, experimente!”, ela exclama. É minha vez de confirmar o que ela afirma: os filhotes, todos, têm cheiro de bebê, de bebê humano, logo depois do banho, com sabonete e talco de coco.

E fica fácil entender por que ela decidiu dedicar a vida a proteger e preservar essas aves, e por que é hoje conhecida em todo o Pantanal e em vários lugares do mundo como “a Dama das Araras”. Neiva merece.

Para saber mais:

Comentários

comentários

5 ideias sobre “Pantanal – Nas asas das araras-azuis

  1. Luis Pellegrini Autor do post

    Olá duadrineiro. Infelizmente não tenho mais material disponível sobre o habitat das araras azuis. Mas você pode se dirigir diretamente à dra. Neiva Guedes, o Instituto Arara Azul tem muito material. O endereço está na matéria do blog.

  2. tuut

    oii adorei mas queria fotos do habitat natural delas mesmo tem que ser pra ja, por favor preciso para um trabalho…..plis-

  3. Luis Pellegrini Autor do post

    Diana, eu cheirei vários filhotes de arara. Todos exalam aroma de… coco ralado fresco. Natural: só comem polpa de coquinhos… E você tem razão: o trabalho da bióloga Neiva Guedes e equipe é mesmo exemplar. Não apenas do ponto de vista da biologia e da ecologia, mas também do ponto de vista da realização pessoal. Neiva é a prova viva de que é possível e necessário que a função que desempenhamos no mundo (a profissão) esteja de acordo com aquilo que carregamos na alma (a vocação).

  4. sDiana Ramos

    Achei! Adorei esta reportagem e nem sei o que daria para estar aí cheirando esse filhotinho. Muito bom divulgar o trabalho de amor e dedicação que vemos em cada ato de Neiva e equipe para salvar esses seres lindos.
    Tocamos o coração das pessoas de diversas formas… o meu foi tocado especialmente por esta reportagem

  5. FERNANDO

    Adorei o texto e o "cheiro no filhote de arara-azul". Foram dias muito bons! Aproveito para falar que gostei bastante do blog.
    Feliz 2010 (se já não for tarde)!
    Grande Abraço,
    Fernando Planca

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