LUXO RIMA COM SUIÇA?

O Hotel Four Seasons, considerado o melhor 5 estrelas de Genebra (a esquerda na foto), fica em frente a desembocadura do Lago Léman.

No final de julho, fui à Suíça fazer uma reportagem para a revista IstoÉ Platinum. Visitei a estação de montanha de Gstaad, e a belíssima Genebra, onde tomei um banho de ordem, progresso e civilização. Sem falar nos vinhos brancos suíços – que estão cada vez melhores -, nos queijos, chocolates e charutos. Não fumo, mas gosto do aroma do tabaco.

Texto e fotos de Luis Pellegrini, de Gstaad e Genebra

Luxo rima com Suíça? Yes, ya, oui, si, responde em inglês e em alemão, francês e italiano – as três línguas oficiais do país – Urs Eberhard, vice-presidente do Switzerland Tourism. Argumentos não lhe faltam, e eles não se resumem à alta qualidade dos chocolates, das montanhas nevadas e resorts de ski, dos relógios e dos míticos canivetes suíços capazes de realizar mil e uma proezas.

A Suíça tem isso e muito mais. Continua sendo um must do turismo mundial por oferecer uma grande variedade de experiências e aventuras numa área muito compacta. Localizada no coração da Europa, com paisagens de tirar o fôlego, feitas de montanhas brancas, lagos azuis, vales recobertos de pastagens e de florestas verdes, a diversidade dos seus panoramas e condições climáticas é excepcional. Cidades lindas e civilizadas, resorts de turismo, glaciares, palmeirais, campos de neve e lagos limpos e quentes o suficiente para permitir banhos e mergulhos ficam quase ao lado uns dos outros, e podem ser alcançados em poucas horas.

A decoração dos vagões do trem que leva de Zurique a Gstaad é quase igual à do Orient Express, trem mítico que outrora ia até a Turquia. Na foto, o vagão restaurante.

Fica até difícil entender como tanta coisa boa pode caber num país tão pequeno (com 41.932 quilômetros quadrados) e de população relativamente escassa (7.78 milhões no total, a metade da cidade de São Paulo). Só mesmo a proverbial organização suíça poderia conciliar tudo isso. A começar pelos transportes públicos: trens, ônibus e aviões, lá, chegam e partem exatamente no horário previsto, e só um cataclismo é capaz de mudar a precisão. “No mundo conturbado em que vivemos, pontualidade é um luxo”, completa Eberhard. Nós, brasileiros, temos ordem e progresso na bandeira. Os suíços as têm na vida real do dia-a-dia.

E aqui estou eu, encostado no trem Prestige Express, que me levou de Zurique a Gstaad.

Fachada do Palace Hotel, um dos mais bonitos de Gstaad.

O Palace Hotel é rodeado por imensos jardins, onde estão as piscinas, as quadras esportivas, e os anexos do hotel.A frase de Eberhard levanta uma boa pista: O que é, afinal, turismo de luxo nos dias que correm? Será só mudar de um cinco estrelas para outro, fazer o périplo dos restaurantes estrelados do Guia Michelin, gastar os tubos na aquisição de mais um Rollex ou do mais recente sapato-de-sola-vermelha criado por Christian Loboutin?

Quem agora nos abre o livro das revelações é nada menos a atriz e cantora norte-americana Julie Andrews, hóspede de carteirinha de Gstaad, estação de montanha situada no sudoeste da Suíça, bem na fronteira entre o cantão francês de Genebra e a parte alemã do país. “Gstaad é um paraíso perdido num mundo que se tornou muito doido”, diz Julie. Para ela, luxo é poder sair de manhã, de tênis e blue-jeans, e bater pernas durante horas por uma estradinha que vai serpenteando entre as colinas, respirando ar puro. OK, ela fica no Palace ou no Bellevue, dois cinco estrelas de Gstaad com spas, quadras esportivas, butiques, atividades culturais, restaurantes de alta gastronomia. Mas o grande trunfo para Julie é “a possibilidade de me mover em total liberdade e segurança; ninguém vem me pedir autógrafo, nenhum fotógrafo está à espreita. Quando alguém me reconhece, o máximo que me oferece é um carinhoso ‘Oi, Julie’. Um luxo!”

A protagonista de “A Noviça Rebelde” está longe de ser a única estrela do firmamento hollywoodiano a descer com freqüência sobre as colinas de Gstaad. Nos tais sendeiros de montanha que ela ama percorrer todo mundo já cruzou também com Roger Moore, John Travolta, Liz Taylor, Jack Nicholson. Sem falar nos muitos reis, príncipes e princesas da Europa, da Ásia e dos países árabes, e dos magnatas das finanças, da política, da indústria e do comércio mundiais que, sem poder sair ao léu em seus próprios países, de passear sem lenço nem documento, vão gozar desse luxo em Gstaad. A propósito, parece que até nosso Ivo Pitangui tem casa lá. “O chalé dele fica no meio daquele bosque de pinheiros”, revela o guia.

Jas janelas do Palace Hotel a vista é deslumbrante. No verão, tudo é verde. No inverno, tudo se torna branco, coberto de neve.

E lá estávamos, em Gstaad, numa verdadeira estação alpina. Apesar disso, era final do mês de julho, fazia calor. O guia do Palace Hotel resolveu nos levar de van para um posto ainda mais alto, o refúgio Alp Walig, uma encantadora construção de pedra, a 1.700 metros de altitude. O refúgio pertence ao Palace, que resolveu transforma-lo num charmoso ninho de amor para os que consideram que a mais luxuosa lua-de-mel é aquela na qual os noivos ficam sozinhos, num refúgio de alta montanha, dormindo numa imensa cama recoberta por muitas mantas de pela macia. Sem luz elétrica e totalmente a sós, a não ser nas horas das refeições, quando um serviço 5 estrelas chega do hotel com o cardápio do dia. Afinal, luxo é luxo. E não será na lua-de-mel que os pombinhos recém-casados irão poluir as unhas trabalhando na cozinha. E como suíço pensa em tudo quando se trata de serviço de luxo, se a solidão lá no refúgio for demais, os noivos podem encomendar um concerto exclusivo de tocadores de alphorn, a trompa alpina, uma espécie de vuvuzela gigante porém de som muito mais agradável, ou até mesmo de algum conjunto montanhês de cantadores de yodel, os sertanejos de lá. Fazem boa companhia. E a conta só será paga no final da lua-de-mel.

Um dos vários grupos de yodel, a música tradicional que se canta nas regiões alpinas da Suiça.

A alpenhorn, trompa alpina, é um instrumento de sopro primitivo, mas que produz um som extraordinário.

Na Suíça tudo é relativamente perto. De uma estação de montanha como Gstaad vai-se de carro a uma cidade grande como Genebra em apenas duas horas. Só a estrada já vale o passeio. A partir da estação alpina passa-se por dois glaciares, por dois passos de alta montanha, por um vale imenso escavado pelos gelos durante as eras glaciais, até se chegar, na altura da localidade de Vevey, ao lago Léman. A estrada passa às margens dele, imenso, com águas azuis da cor-do-céu. À direita da estrada, coladas ao asfalto, começam as colinas do cantão de Genebra, recobertas de vinhedos que produzem, hoje, alguns dos melhores vinhos brancos da Europa. Na estrada, a intervalos regulares, situam-se cidadezinhas lacustres simplesmente encantadoras como Montreux (onde todos os anos, em julho, acontece o famoso festival de jazz); a aristocrática Lausanne; as bucólicas Morges e Nyon. A impressão que se tem é a de percorrer um caleidoscópio de quadros de pintura naif, daqueles cheios de chalés de madeira, rodeados de floreiras com hortências, petúnias e gerânios vermelhos, pequenos bosques de pinheiros e uma profusão de barquinhos a vela singrando as águas do lago.

De repente, chega-se a Genebra, a mais francesa das cidades suíças. E também, com certeza, a mais cosmopolita. Genebra surpreende: é a menor metrópole do mundo, uma fração do tamanho de Londres ou Paris, mas embalada na diversidade, inclusive aquela étnica. 40% dos seus 200 mil moradores são de outras nacionalidades, originários de todos os cantos do mundo. Natural: Genebra é a sede européia da Organização das Nações Unidas, e também a de muitas centenas de organismos internacionais. Lá, tudo é luxo. Até as lojas de charutos. Uma delas, a Gerard Père et Fils, no coração da cidade, tem até um imenso “banco privado de charutos”, funcionando em perfeitas condições de climatização, no qual são conservados charutos raríssimos (e caríssimos) de aficcionados do mundo inteiro. “Tem um cliente americano que, embora não possa fumar mais, vem nos visitar uma vez ao ano só para ‘rever os meus meninos”, diz Monsieur Gerard, o dono.

O vilarejo de Carouge, encostado em Genebra, é quase um enclave de estilo italiano numa cidade que foi toda construída segundo os padrões franceses.

De um bairro para outro, tem-se a impressão não apenas de mudar de país, mas de se fazer verdadeiras viagens no tempo. Do vibrante e contemporâneo bairro de Pâquis, por exemplo, repleto de butiques e restaurantes asiáticos, portugueses, árabes e africanos, passa-se ao bairro medieval da Cidade Velha, de onde se tem uma vista deslumbrante da baía de Genebra. Sem falar no pitoresco bairro Carouge, cuja arquitetura é de clara inspiração italiana. Ele é, hoje, uma espécie de Quartier Latin genebrino. Nele montaram seus ateliês muitos artistas jovens, das artes plásticas, da joalheria, da alta costura. Há butiques especializadas em grifes ainda praticamente desconhecidas, “mas que irão estourar nos próximos anos”. Lá fica a butique e o ateliê da Golay Spierer, especializada na criação de relógios de modelos exclusivos, para clientes que desejam que seu relógio seja tão único quanto a própria pessoa do dono. Quem quiser um tem de entrar na fila: o prazo mínimo para criar um relógio desses é um ano.

No Carouge fica também o ateliê de Véronique Albert, filha do famoso joalheiro genebrino Gilbert Albert. A paixão do pai é criar jóias/esculturas a partir de materiais naturais como madeira, pedras, insetos, coral, meteoritos, etc. Gilbert Albert construiu um império joalheiro que a filha deveria herdar. Mas Véronique mudou de idéia e preferiu seguir sua própria paixão: “Pinturas e esculturas idealizadas a partir do estudo das proporções matemáticas pitagóricas. Não quero fazer nada que não tenha um claro sentido espiritual”, ela diz.

O Four Seasons esbanja luxo. Na foto, um dos salões sociais do hotel.

E os hotéis de Genebra! Concentram-se às margens do lago Léman, bem onde ele termina, junto às comportas que controlam a saída das águas. As mesmas águas que, a partir daí, formam o Ródano, um dos maiores rios da Europa. Tem o Mandarim Oriental, tem o Richemond, tem o Beau Rivage (em frente ao qual, em 1898, a imperatriz Elizabeth da Áustria, a legendária Sissi, foi assassinada por um fanático). Todos cinco estrelas para ninguém botar defeito. Um deles, no entanto, é realmente hotel de exceção, o Four Seasons (antigo Hotel des Bergues), exemplo de lugar onde luxo rima com bom gosto.

Fundado em 1834, o Four Seasons foi o primeiro e o maior palácio da Suíça, e logo se transformou no centro da vida social genebrina. Passear lá dentro é tropeçar na história. Entre os seus muitos salões está a lendária Salle de Nations onde, em 1920, aconteceram reuniões da então recém criada Liga das Nações.

O século 21 assiste ao renascimento desse palácio histórico. Após dois anos de trabalhos de recuperação super meticulosos, esse elegantíssimo edifício neoclássico de sete andares reencontra a sua alma antiga.

Para completar, a Suíça tem queijos, certamente um dos seus maiores luxos. Consumidos em toda a parte, mas produzidos, no entanto, a partir daquelas vacas loiras que pastam soltas sobre as colinas alpinas do país. São vacas gordas e felizes, livres para ir onde querem. Comem o autêntico pasto alpino, composto por mais de 40 ervas diferentes. Não recebem aditivos alimentares nem antibióticos. Em troca, dão aos donos o seu leite, de sabor único, e que tem pouquíssimo colesterol, porém é muito rico em ácidos graxos tipo ômega 3, que tem efeitos saudáveis para a pressão sanguínea, o coração e o cérebro. E retardam o envelhecimento. Um luxo só!

Por fim, algumas vacas suíças que passaram por mim numa estradinha de montanha em Gstaad. Gordas, louras e plácidas, elas também fazem parte do luxo suíço!

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