Les Cafés de Paris

Em pleno Boulevard Saint Germain, o café Aux Deux Magots rivalizava com o Café de Flore, logo ao lado, como os preferidos de Jean-Paul Sartre e a turma do existencialismo, na década de 50.

Hoje estou com saudades de Paris, cidade onde morei por mais de dez anos. Como não sentir saudade de um lugar assim? Fiquei rememorando uma série de coisas boas que me aconteceram lá (as coisas ruins eu botei num saco e as afoguei no tanque de lavar roupa). Vi umas imagens dos cafés parisienses, instituições tão emblemáticas quanto a Torre Eiffel, a Catedral de Notre Dame,  o Museu do Louvre. E resolvi passar para vocês esta reportagem que escrevi sobre os cafés de Paris. Boa viagem!

Por Luis Pellegrini

Não há verbo mais parisiense do que flâner – sair por aí, a pé, sem lenço nem documento, sem endereço ou hora de chegada – nem cidade mais perfeitamente feita para flâner do que Paris. Bela de morrer, ao mesmo tempo chique e divertida, cheia de atrações, Paris cumpre a cada dia o seu destino de grande cortesã da Europa para milhares de visitantes vindos do mundo todo.

Mas, para quem cansou de bater pernas, há em Paris um outro jeito de vadiar tão bom quanto o primeiro: os cafés. Basta sentar à mesa de um deles, de preferência na calçada, pedir um café, um chocolate, uma taça de vinho, e deixar a vida rolar. O mundo todo desfilará diante dos seus olhos, mais cedo ou mais tarde.

Além de balcão privilegiado para o espetáculo das ruas, os cafés são uma extensão da sala de visitas do parisiense. O estrangeiro que vai morar lá aprende isso rapidinho. Você conhece alguém e se instala no ar uma possibilidade de amizade, de amor, de negócio. O primeiro encontro é quase sempre marcado num café. O segundo e o terceiro também. Só depois, se tudo correr bem, você poderá esperar um convite para jantar, enviado pelo menos um mês antes da data. Noblesse oblige, dois ou três dias antes é preciso telefonar para confirmar presença. Ao chegar, ter nas mãos umas flores para a dona da casa, ou uma garrafa de algum bom rouge se se tratar de um cavalheiro. Claro, a essa etiqueta corresponde um prêmio: sobre a mesa, no jantar, estará o melhor cristal, a melhor prataria e a melhor louça da casa, sem falar que o anfitrião certamente terá passado a tarde inteira caprichando naquele magret de cannard com receita secreta da vovó. Tudo muito natural. Afinal, o convidado passou com louvor na grande prova dos cafés.

Paris possui uma infinidade de cafés. Eles se fixam na nossa memória como uma das imagens mais permanentes da capital francesa. Para o turista, é a visão romântica de grandes artistas, escritores e intelectuais conversando no Café de Flore, no Les Deux Magots, na Brasserie Lipp ou algum outro café famoso da margem esquerda do Rio Sena. Para os parisienses, o café é uma constante na vida, uma experiência do dia-a-dia, dando às pessoas um lugar para descansar, ler jornal, beber e encontrar amigos, ou simplesmente meditar.

O Café Procope tem fama de ser o mais antigo de Paris.

Isso não vem de hoje. O primeiro café do mundo parece ser o Le Procope, no Quartier Latin, inaugurado em 1674. Seu fundador, o siciliano Francesco Procópio não sabia que iria entrar para a história com sua idéia genial. Paris, naqueles tempos, era um horror. Nada de bares e restaurantes finos. Quem tivesse de comer fora de casa só dispunha de tavernas e cabarés fétidos, cheios de gente bêbada e barulhenta. As ruas, então, eram verdadeiros chiqueiros, sem calçadas nem pavimentos, repletas de dejetos que as pessoas atiravam diretamente das janelas.

O interior do Café Procope parece um ninho acolhedor.

Então, na antiga Rue Tournon, hoje Rue de l’Ancienne Comédie, Procópio abriu um grande espaço para os cavalheiros e os letrados da Corte no qual as canções grosseiras seriam banidas. Ali, nada de vinho, mas sim café, muito café, para estimular os espíritos e elevar ao mais alto grau a arte da conversação. Naqueles tempos, nas capitais da Europa, o café era considerado uma espécie de santo daime: uma bebida mágica e exótica, ligeiramente alucinógena, capaz de abrir percepções especiais.

Elegante e sóbrio, o Café Procope encantou a elite com suas mesas e pedestais de mármore iluminados por lustres de cristal cuja luz se refletia em enormes espelhos. O próprio rei Luis 14 gostou tanto desses espelhos que mandou abrir uma fábrica deles em Reuilly.

Procópio resolveu então servir sorvetes, além de café e tisanas. O sucesso foi tão grande que a moda se espalhou por toda a França. Data dessa época a invenção das glacières – áreas dos porões das casas especialmente preparadas para armazenar placas de gelo coletado, no inverno, na superfície congelada de lagos e rios. No verão, bastava retirar pedaços desse gelo e transformá-los em sorvete.

Não contente, Procópio logo depois foi capaz de uma audácia impensável: abriu seu café às mulheres. Elas não se fizeram de rogadas e acudiram em massa ao apelo. E pronto, a revolução estava feita. Daí em diante não foi mais possível dissociar Paris dos seus cafés. Eles pipocaram em toda parte, em todos os bairros, inclusive nos da margem direita do rio. Ao redor de 1700, Paris já tinha cerca de 300 cafés. Vários deles tinham se transformado em “cafés literários”, ponto de encontro de escritores, poetas e filósofos. Voltaire, Diderot, Buffon, D’Alembert, Montesquieu e Rousseau são alguns intelectuais da época que tinham mesas cativas em cafés.

Foi no século 19, no entanto, que os cafés parisienses viveram a sua idade de ouro como locais prediletos da elite. Sobretudo aqueles instalados na região chamada dos Grands Boulevards, perto da Madeleine e da Ópera, na margem direita, se tornaram imensamente célebres e atraíram não apenas os descolados da capital mas também a maior parte das cabeças coroadas da Velha Europa. Destaque para o Café de la Paix, até hoje em funcionamento, e o Café Tortoni.

No Café de la Paix.

Ao redor de 1875, no final do Segundo Império e o despontar da Terceira República, chega também o momento de glória do bairro parisiense de Montmartre. Os pintores do impressionismo são os primeiros a se instalar, e atrás deles todos os outros. Com os artistas, chegam os cafés. Manet freqüentou quase diariamente, durante dez anos, o Café Guerbois. Nas mesas ao lado ele encontrava Renoir, Cézanne, Pissarro e Degas. Émile Zola passava lá com freqüência para uma prosa com os pintores. O Café du Rat Mort, em Montmartre, e o Café Nouvelle Athènes, no vizinho Pigalle, atraem os músicos. Maurice Ravel e Erik Satie não apenas comem e bebem neles, como chegam a compor em cima de suas mesas.

 

Nos cafés de Montmartre, no final do século 19, a fina flor dos artistas e intelectuais de Paris costumava se reunir. Na ilustração, personagens no interior do Café du Rat Mort.

Montmartre se inflama com a multiplicação de seus cafés e cabarés. Como aves da noite, artistas e escritores vão de um café a outro, até a alta madrugada, ao mesmo tempo em que a reputação de bairro boêmio onde toda aventura pode acontecer atrai a Montmartre uma multidão cada vez maior de turistas vindos do mundo todo.

Diante da invasão, os artistas começam a procurar outros bairros menos desgastados. A chegada do metrô a Pigalle, em 1911, liga diretamente o bairro a Montparnasse, do outro lado da cidade. E assinala o toque de recolher para Montmartre. A revoada para o novo ninho, em Montparnasse, é total.

Entre as duas grandes guerras, os habitués passaram a frequentar os cafés de Montparnasse. Depois do teatro, do cinema e da ópera, é para la que todos se dirigiam. Na foto, a cantora e estrela de cabaré Josephine Baker, no Café La Coupole.

Se o impressionismo nasceu nos cafés de Montmartre, o cubismo e o surrealismo nasceram nos cafés de Montparnasse. Vários autores quiseram descrever a loucura que tomou conta de Montparnasse ao redor de 1914, ano da Primeira Grande Guerra. O bairro parecia um formigueiro cosmopolita de artistas, poetas, exilados e revolucionários que passavam os dias discutindo o futuro do mundo ao redor de mesas cheias de xícaras de café e taças de absinto. Nos cafés falava-se todas as línguas, do russo de Lênin, Trotsky e Chagall, ao português do brasileiro Santos Dumont, passando pelo italiano de Amedeo Modigliani, o espanhol de Picasso e Luis Buñuel, o inglês de Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, o francês de Apollinaire, Blaise Cendrars e Max Jacob.

A vida cultural floresceu nos anos 20 quando surrealistas como Salvador Dali e poetas como Jean Cocteau dominavam a vida nos cafés, entre eles o La Coupole, o Le Select e o La Closerie des Lilás.

Desenho de um café em Paris.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, a cena cultural parisiense mudou-se novamente, desta vez para Saint-Germain. O existencialismo dominou a cena como corrente intelectual e Jean-Paul Sartre era seu líder carismático. Seguido por uma legião de fiéis acompanhantes, como os escritores Simone de Beauvoir e Albert Camus, o poeta Boris Vian e a enigmática cantora Juliette Greco – a musa do existencialismo. Todos os dias eles se reuniam no Les Deux Magots e no seu rival, o Café de Flore. É nesses dois cafés que, até hoje, podem ser vistos freqüentadores saudosistas, bem como autoproclamados escritores e intelectuais debruçados sobre suas anotações. Sobre as pequenas mesas, uma chícara de café é presença obrigatória. E se essa bebida for mesmo mágica? Há mais de três séculos os cafés parisienses dizem que sim.

Cafés históricos

Clique nos endereços para visualizar no Google Street View

Café de Flore, 172 Boulevard Saint-Germain, metrô St-Germain-des-Près

Les Deux Magots, 6 Place de Saint Germain, metrô St-Germain-des-Près

Brasserie Lipp, 151 Boulevard Saint-Germain, metrô St-Germain-des-Près

Le Procope, 13 Rue de l’Ancienne Comédie, metrô Odéon

La Closerie des Lilas, 171 Boulevard du Montparnasse

La Rotonde, 7 Place 25 Aout 1944

La Coupole, 102 Boulevard du Montparnasse

Café de la Paix, 12 Boulevard des Capucines, metrô Opéra

Sim, até hoje, os cachorros são bem vindos nos cafés de Paris… desde que não incomodem os vizinhos. Em compensação, os cigarros não mais. Novas leis proibiram totalmente o consumo do tabaco nos bares e cafés franceses.

Comentários

comentários

7 ideias sobre “Les Cafés de Paris

  1. Deborah

    O que fica agora onde era o antigo Café Du Rat Mort? Qual é o endereço? Obrigada!

  2. Cláudia Lopes

    Amei a matéria!!! Meu grande sonho é montar um “café literário”. Tenho planos pra isso…e nada como ter alguém para dar umas dicar boas.

  3. Simone

    Adorei esta historia tão cheia de arte, tambem estarei dando um bordejo no cafe de luzes em novembro.
    Grata Simone

  4. Luis Pellegrini Autor do post

    Cara Theonila, como em setembro/outubro também estarei dando um bordejo em Paris, quem sabe a gente não se encontra num desses maravilhosos cafés! Boa viagem.

  5. Theonila

    Sou baiana e gosto de apreciar as coisas boas da vida. Excelente reportagem, amo essa Cidade e em setembro estarei mais uma vez saboreando esses endereços maravlhosos.

  6. Luis Pellegrini Autor do post

    Obrigado pelos comentários, Heloisa. Ve-se logo que você entende das coisas… Abs

  7. heloisa

    Oi, Pellegrini,

    que delícia de matéria! Adoro todos, mas nada como a mesinha da curva das janelas envidraçadas à direita no Deux Magots.E tem coisa mais parisiense do que a foto belíssima do Avedon? A moça caindo de charme embrulhada num Balenciaga e o afganhound na elegância do seu pedigree?
    um beijo da Heloisa.

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