Gente de lugar nenhum. Somos todos refugiados

 

Por Luis Pellegrini
Vídeo Vimeo e fotos: Lior Sperandeo

Meus dois avós se chamavam Antônio; minhas avós, Giuseppina e Anna. Eram italianos do Vêneto. Todos eles, refugiados no Brasil na última década do século 19, fugidos das condições dificílimas pelas quais passava essa região do norte da Itália, invadida pelos austríacos que a governavam e exploravam a ferro e fogo.

Ainda menino, eu ouvia fascinado as narrativas de meu avô paterno sobre os seus anos de infância e juventude passados ao lado dos campos de batalha, ao som dos disparos dos canhões, sob o manto de medo e incerteza que a todos envolvia.

Ele contava que, ainda menino, foi mandado com um irmão para passar algum tempo na casa de uma tia em Veneza, no antigo bairro militar chamado Arsenale onde, se supunha, as condições para as crianças seriam um pouco melhores. Na casa da tia, assim que voltavam da escola, as crianças passavam uma ou duas horas nas janelas da casa, pescando peixinhos no canal veneziano que corria logo abaixo. Eram minúsculos aqueles peixinhos, e quando seu número era suficiente, levavam tudo para a cozinha e com eles a tia preparava um molho para ser comido com a polenta. Era toda a proteína animal que podiam conseguir, durante meses a fio. Leite, nem pensar. Ao amanhecer, antes de partir para a escola, cada criança ganhava uma tigela cheia de vinho tinto e uma fatia de pão caseiro.

Quando Pedro II abriu os portões da imigração

Contava também esse mesmo avô que, anos depois, já adolescente, caminhando nas margens do rio Piave, nas alturas da cidade de San Doná, via cadáveres de soldados mortos em combate boiando na superfície, sendo levados pelas águas.

Quando souberam que, no Brasil, o Imperador Pedro II abrira os portões para a imigração de trabalhadores, os quatro sequer contaram até dez. Subiram nos navios em Gênova e, semanas depois, desembarcaram em terras tupiniquins, dispostos ao que desse e viesse na sua luta pela sobrevivência.

Refugiados, todos eles, da mesma forma que as demais centenas de milhares de italianos, espanhóis, portugueses, franceses, alemães, gregos, sírios, libaneses, japoneses, chineses, coreanos, para citar apenas algumas das tantas nacionalidades que no Brasil e em todas as três Américas encontraram refúgio.

Hoje, no entanto, ao enfrentar o problema dos refugiados sírios, curdos, iraquianos e de várias outras nacionalidades que aportam, desesperados, em suas fronteiras, a Europa parece ter se esquecido do seu próprio passado de grande exportadora de foragidos das guerras, da política e da miséria. A xenofobia, a ojeriza aos estrangeiros, voltou com muita força e não são poucos os europeus que julgam e confundem os refugiados com terroristas, clamando pelo fechamento das fronteiras.

Não querem ver suas praias invadidas… Não querem que seu alto padrão de vida seja perturbado e contaminado por essas hordas de foragidos. Afinal, custou tanto para se chegar até essa “società del benessere” (sociedade do bem-estar, em italiano), e agora vêm esses miseráveis, e ainda mais de religião muçulmana, estragar tudo?

Claro, é compreensível. Ninguém quer ver pisadas as rosas do seu jardim. Mas então, e esta é a pergunta fundamental que deve ser feita: Por que foram, eles, franceses, ingleses, italianos e tantos outros, no bojo das forças armadas norte-americanas – e também dos seus banqueiros e magnatas da indústria do petróleo -, invadir o Iraque, a Síria, a Líbia, matando os seus líderes, os Saddam Husssein e os Muhammar Khadafis? Com isso, destruíram a infraestrutura organizacional desses países e instauraram o caos. “Mas Saddam e Khaddafi eram ditadores sanguinários”, exclamam os defensores das invasões. Eram facínoras sim, sem a menor dúvida. Mas pelo menos eram facínoras declarados. Será assim tão grande a diferença que existe entre eles e tantos outros governantes pelo mundo a fora, bandidos disfarçados de messias, lobos em pele de cordeiro, sanguessugas das populações que governam?

Um dos males piores que tantos homens e mulheres cultivam é a hipocrisia. Um outro mal fundamental é a ignorância, sobretudo aquela que diz respeito às leis cósmicas da ação e da reação, que os orientais chamam de “Lei do Karma”. O conhecimento puro e simples de que, na vida e no mundo, toda ação acarreta uma reação igual e contrária. Tudo tem retorno.
Bastaria abrir um pouco a mente e o coração para se dar conta de que, afinal, na face da Terra, somos todos refugiados. De um jeito ou de outro, todos buscamos abrigo. E encontrar um refúgio verdadeiro é nossa única possibilidade de sobreviver não apenas no corpo, mas também na mente, na alma e no espírito.

O videomaker israelense Lior Sperandeo

O videomaker israelense Lior Sperandeo

Um vídeo belíssimo sobre os refugiados

Após ouvir e ler as mais diferentes opiniões sobre os refugiados sírios que sobem em embarcações mais que precárias na tentativa desesperada de chegar às praias do Mediterrâneo europeu, o videomaker israelense Lior Sperandeo foi para a ilha de Lesbos, na Grécia, para ter, como ele mesmo diz, “uma perspectiva mais saudável e mais humana da situação”.

“Ver com meus próprios olhos as pessoas que existem realmente por trás das manchetes dos jornais, partiu meu coração, diz Lior Sperandeo. Então é essa a ‘gente que nos ameaça’ da qual todos falam? Tudo que vi foram pessoas cheias de coragem, vivendo um momento de profunda crise, em busca de esperança. Também vi bravos voluntários vindos de todas as partes do mundo que ali chegaram para socorrer essas pessoas desamparadas, sem pensar na religião, na raça ou no passado delas. E, confesso, tudo isso me inspirou. Minha esperança é que este vídeo possa ajudar a derrubar algumas das muitas ideias e opiniões falsas construídas sobre os refugiados do mundo”.

O autor usou a música “Ton sourire”, de Ravid Kahalani como pano de fundo do seu vídeo.

 

 

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