GANHEI CORAGEM

  

Il Popolo, de Ernesto Treccani, pintor italiano contemporâneo.

De vez em quando, os atos de escrever e de ler realmente valem a pena. É quando o autor “ganha coragem” e decide rasgar o peito e doar ao próximo aquilo que carrega lá dentro. Este é o caso do texto que transcrevo, assinado pelo mineiro Rubem Alves, escritor, jornalista, poeta, psicanalista, educador, teólogo. Do alto dos seus vividíssimos 77 anos, ele diz algumas verdades para quem quiser ouvir.

Rubem Alves 
… colunista da Folha de São Paulo …
 
“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. 

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. 
Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante em amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou. Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre.” Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

Rubem Alves

 As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

 Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos  pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. 

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção.” 

Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Comentários

comentários

10 ideias sobre “GANHEI CORAGEM

  1. Luis Pellegrini Autor do post

    Ionice, o problema é que nós todos fazemos parte desse povo… Um povo obcecado por lentilhas… E há muito pouco a fazer, já que os processos de desenvolvimento e maturação da consciência individual e coletiva são muito lentos. Às vezes levam séculos, às vezes milênios. Mas o Tempo é um orixá extremamente poderoso. Ele fará o seu trabalho, quer queiramos ou não.

  2. Ionice Batista

    Oi Luis, só tive o prazer de ler esse texto hoje, amei, mas confesso que ressurgiu em mim uma angustia que não passa quando penso em nós como povo. Tivemos a triste oportunidade de rever a reprise de José e Esaú, na troca da primogenitude por um prato de lentilhas; no nosso caso, a soberania do país por bolsas…, será que ainda teremos jeito?
    O mais interessante é que mesmo nos incluindo fora desse povo, temos que engolir.

  3. Francisco Brito Ventura

    Não tenho a cultura nem a facilidade de transcrever o que penso como o autor de tão sábio texto, mas tenho a sensibilidade e a coragem para poder concordar com o que foi escrito. Talvez seja a experiência dos anos já vividos e a decepção com o que ai está que me faça fazer minha suas palavras. Em outros tempos teria até vergonha de admitir a possibilidade de pensar desta forma, mas… RAZÃO É RAZÃO.

  4. Sonia Weil

    Pois é, precisa ter coragem para transgredir o “políticamente correto” e rever algumas frases e idéias tidas como indiscutíveis na democracia, sob risco de ser acusado de “reacionário”, “de direita”, etc ( ai, como são “antigas” essas classificações )… O pensar sobre a vida política, que deveria ser um ato de liberdade, ao ver a realidade com olhos grandes, acaba sendo limitada a um esquema redutivo e repetitivo, à medida em que se molda a pressupostos implícitos, que não se ousa questionar.

  5. tereza

    Luís querido, muiiiito oportuno este achado do Rubem Alves, mestre da palavra com a sabedoria de quem já muito viveu, vou partilhar, claro,obrigada. Estamos precisando de algum farol para poder avançar e não cair na deseperança.
    Que o humor, e as artes e os sonhos nos amparem!
    bjks

  6. Gisélia Duarte

    Luis, Rubem Alves é um grande pensador…podemos sim virar esse jogo mediante a razão mas, vivemos num mundo de opostos o tempo todo.

  7. Romulo Grandi

    Qual o ingrediente secreto que adicionado a esta seleta combinação de inteligência, cultura, bom-senso, sensibilidade e talento faz o caldeirão de Rubem Alves explodir em criatividade? Acredito, hoje, Luis, que este ingrediente – a coragem de escrever – como você diz, deve surgir quando se supera o medo da (auto-) crítica, a dependência da aprovação e a necessidade de validação. Aí o artista se torna livre para criar e oferecer ao mundo um texto como esse – de uma verdade tão crua e bela!

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