Está tudo muito bem. O que está por trás do jogo do contente

 

Nunca um lamento, nunca uma queixa ou reclamação, nunca uma palavra negativa: Para certas pessoas, adeptas da satisfação permanente, tudo parece correr perfeitamente bem o tempo todo. Mas, no fundo, essa postura pode denunciar uma atitude defensiva adotada inconscientemente.

Por: Pascale Senk – Le Figaro Santé

Fonte: Revista Saúde 247

Jeanne é uma mulher jovem formidável: sempre sorridente, positiva, entusiasta. A tal ponto contente da vida e de si mesma que um estranho sentimento pode aflorar naqueles que com ela têm contato: Será mesmo possível que tudo esteja sempre assim tão bem com ela, o tempo todo? Até mesmo os amigos mais próximos se espantam: Jeanne parece não se inquietar com nada,  parece incapaz de perceber que o mal e a dor podem existir ao redor dela e no mundo. Ela terá sido abençoada por uma graça divina?

Essa possibilidade não é segura. Para começar, diante de tanto bem-estar, as pessoas hesitam em lhe confiar seus pequenos e grandes problemas, a buscar consolação e apoio nela. Assim sendo, as relações de Jeanne empobrecem, tornam-se menos vivas.

Para o psicanalista Jean-Michel Fourcade – diretor da Nouvelle Faculté Libre, voltada à formação em psicanálise integral, e autor do livro “Personnalités limites” -, Jeanne poderia muito bem fazer parte do grupo de pessoas “as if” (como se…) descritas nos anos 1940 pela psicanalista Hélène Deutsch: «Competentes e sadias do ponto de vista cognitivo e comportamental, elas parecem normais e compreendem os problemas de um ponto de vista intelectual”, explica o psicanalista.  “Mas, de maneira cruel, as relações com elas são carentes de naturalidade e de criatividade. No fundo, percebe-se que alguma coisa nelas não funciona”.

O sinal de uma atitude defensiva adotada inconscientemente

Na França, todos conhecem a velha canção: “Tudo vai bem, senhora marquesa, tudo vai bem…” Podemos, assim sendo, aplicar essa noção ao indivíduo, e se perguntar de onde vem essa síndrome, a que serve, quais são os seus riscos reais?

Para o professor Serban Ionescu, psiquiatra e psicólogo autor do livro “Résiliences”, semelhanças na diversidade, a rigidez dos comportamentos (ver tudo cor-de-rosa ou tudo negro) é o sinal de uma atitude defensiva adotada inconscientemente por causa do efeito protetor que ela proporciona. «A fim de restabelecer o seu bom funcionamento e seu equilíbrio psíquico, a pessoa remaneja a realidade, às vezes ao redor dela, às vezes no interior dela mesma”, explica o psiquiatra. “Ela pode ir até o ponto de deformar um diagnóstico médico que acaba de receber, por exemplo, e ter alucinações auditivas que lhe fazem confundir um termo com um outro simplesmente porque ela não é capaz de escutar”.

Por que tal comportamento se torna sistemático em algumas pessoas? Qual é a causa primordial dessa negação? O psicanalista Donald Winnicott menciona a respeito a fragilidade das pessoas confinadas no interior de um “falso self”: ” «Capazes de um grande desempenho na vida e no trabalho, muito adaptáveis, essas pessoas na realidade vivem em sofrimento”, explica Jean-Michel Fourcade. Esse mecanismo, cujas origens são muito arcaicas, viria, por exemplo, do tipo de relação que o bebê desenvolve com as pessoas que cuidam dele. “Ao receber reações maternais inadequadas para as suas necessidades, a criança percebe que espera-se dela certos comportamentos. A criança rapidamente se molda às expectativas de sua mãe – que por seu lado busca confirmação da justeza do seu comportamento como mãe – e procura sempre responder a elas. Esse mecanismo faz com que, desde muito cedo, o indivíduo decida que, não importa o que estiver acontecendo, “tudo irá sempre bem”.

Transformar o desafio em oportunidade de crescimento

Nada a ver, nesses casos, com o otimismo positivo, que não é um mecanismo de defesa, e que sabidamente constitui uma ajuda à cura. O otimismo positivo é um tipo de “avaliação” positiva da realidade, graças à qual a pessoa se mostra capaz de transformar os desafios em oportunidades de crescimento. “Este é o caso dos doentes cardíacos, por exemplo, que dizem ‘Este infarto mudou minha vida, ele me deu razões para viver”, observa Serban Ionescu. O perigo pode, no entanto, vir de um  otimismo carregado da ilusão de onipotência, aquela que pode, por exemplo, levar alguns soropositivos, no começo da epidemia de AIDs, a não seguir os tratamentos ou a não ter uma vida sexual protegida”.

Entre os mais atingidos pela síndrome do tudo bem também podem estar as pessoas mais poderosas e empreendedoras que podemos encontrar. “Verdadeiros tratores”, resume Jean-Michel Fourcade. Eles investiram toda a sua energia na formação de uma imagem ideal de si mesmos, justamente porque, incapazes de viver qualquer ambivalência, não puderam superar, na alvorada de suas vidas, a etapa de construção de uma boa auto-estima. Em tal estado, dissimulam a sua grande ferida narcísica sob um manto de grande atividade operacional, o que favorece e é muito bem recebido pela ideologia dominante”.

Como exemplo desse “narcisismo patológico”, o psicanalista menciona o herói interpretado pelo ator Vincent Cassel no filme Mon roi (Meu rei) de Maïwenn: sedutor, ele atrai uma jovem mulher fragilizada à qual se liga unicamente para nutrir o seu ego… Até o dia em que ela se farta e se rebela. Ele então a abandona, pois ela deixou de lhe ser útil. Como explica o analisa Serban Ionescu, “a estranha indiferença ao sofrimento – o próprio ou o dos outros – é sempre sinal de complicações profundas”.

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