É PRECISO PARAR DE FAZER FILHOS?

 

Somos hoje quase 7 bilhões na face da Terra, 3 bilhões a mais do que no dia em que o homem pisou na Lua, em 1969. Em 2050, poderemos atingir 10 bilhões, 3 bilhões a mais do que hoje. Diante do empobrecimento das reservas de água doce, das repetidas crises alimentares e das mudanças climáticas, muitos hoje ousam brandir uma bandeira-tabu: o controle global dos nascimentos.

 Por Luis Pellegrini

 Pela primeira vez na história, as cidades se preparam para abrigar um número maior de habitantes do que o campo. Uma nova era começa: os 3 bilhões de indivíduos que nascerão até 2050 irão todos viver na cidade, a maior parte deles em favelas, prevê a ONU. Passar de 7 a 10 bilhões de habitantes significa que saquearemos a Terra nessa mesma proporção? É provável. Diante dessa perspectiva, volta-se a falar do controle da natalidade. Parar de produzir crianças para salvar o planeta? Sim, é claro! Mas será ético? Será prático? O regime autoritário da China tem larga experiência a esse respeito. A explosão da população mundial é um perigo em si mesma? Ou preocupa por implicar uma explosão proporcional da miséria? O capitalismo global, ideologia hoje dominante no planeta, saberá enfrentar esse desafio?

A comida em primeiro lugar. Segundo projeções da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), as necessidades alimentares da Ásia e da América do Sul dobrarão até a metade deste século. A África – cuja população poderá dobrar até 2050 – terá de multiplicar por cinco sua produção agrícola atual para nutrir decentemente seus filhos. O bilhão de terráqueos que sofre de desnutrição vive nesses três continentes, nos quais as nações autossuficientes se contam nos dedos da mão. A agricultura e o desflorestamento já respondem por quase um terço das emissões humanas de gases de efeito estufa.

A energia vem a seguir. A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que será preciso aumentar a produção energética planetária em mais de 50% de hoje a 2030 e quase dobrar a produção de eletricidade. Sem uma transformação radical das nossas maneiras de produzir e de consumir energia – revolução extremamente hipotética –, a AIE não esconde que o essencial desse crescimento será alimentado pelas três energias mais baratas, mais fáceis de serem obtidas e… mais poluidoras: petróleo (+41%), gás natural (+68%) e carvão (+103%). Todas elas não são renováveis. Se o caminho a seguir for esse, a AIE aposta na duplicação das emissões de gases-estufa ligados à energia em menos de uma geração. E é preciso lembrar: segundo opiniões abalizadas, já agora a “pegada ecológica” humana excede em 30% a capacidade biológica de regeneração da Terra. Se a humanidade adotasse o modo de vida dos países mais ricos, seriam necessários entre 3 e 5 planetas para suprir as necessidades de todos. Imagine-se o que acontecerá quando, em cerca de 40 anos, mais 3 bilhões de indivíduos viverem espremidos nas cidades… E se esses cidadãos quiserem tomar banho e comer carne todos os dias, tomar um avião quando quiserem visitar a mãe, dispor de um automóvel e de uma casa na praia – como o estado do planeta poderá não piorar? E piorar até o ponto de ruptura?

Há muitas décadas, um grande número de especialistas em meio ambiente vê na superpopulação o perigo número 1. “Considere todos os problemas que a humanidade inflige hoje ao planeta e aumente a intensidade deles em 50%, ou seja, o equivalente aproximado da passagem de 7 a 10 bilhões”, explica o inglês James Lovelock, 90 anos, autor da célebre Hipótese Gaia e um dos papas da ecologia. Como muitos outros, Lovelock prega um retorno às teses de outro inglês, morto em 1834, Thomas Malthus, que defendia uma política de severo controle da natalidade para se fazer face aos limites dos recursos da Terra. “Acredito que Malthus tinha razão”, afirma Lovelock. “Na época em que ele viveu, havia apenas um bilhão de habitantes sobre a Terra. Se tivéssemos seguido seus conselhos, não teríamos todos os problemas que agora somos obrigados a enfrentar.”

Lovelock dirige o Optimum Population Trust, um grupo de pensadores interessados em demonstrar até que ponto nosso número excederia a capacidade do planeta. Os argumentos desse grupo causam calafrios. Se o número de indivíduos que vivem hoje sobre a Terra já representa um excesso de 30%, isso significa que a população ideal do planeta se situaria ao redor de 3,6 bilhões de habitantes.

Mas muitos outros cientistas, como o norte-americano Lester Brown, presidente do World Watch Institute, creem que a população mundial não chegará sequer a 8 bilhões. “Os sistemas irão desmoronar muito antes”, prevê Brown, um ícone mundial da ecologia política, “e pouco importa se isso acontecerá por causa da água, das mudanças climáticas, dos agrotóxicos ou do declínio próximo das reservas de petróleo. Cada um desses fatores é capaz de desencadear uma crise alimentar global e de longa duração.” Imaginemos então o que poderá produzir o somatório de vários desses fatores…

Ponto de partida do raciocínio: se o número de humanos dobrou desde 1945 – crescimento sem precedentes em toda a história conhecida –, foi graças à mecanização da agricultura, que permitiu triplicar as colheitas mundiais de cereais. “E o que impedirá a população mundial de tomar o caminho inverso, impulsionada pela ocorrência de epidemias, de guerras ou da fome, se a água ou o petróleo começarem a faltar?”, questiona Brown.

Lovelock e outros pensadores da área fazem eco a esses temores. Organizações como a Optimum Population Trust ressaltam que seu objetivo é simplesmente “sensibilizar o público para a questão da superpopulação”. Isso não impede que seus cálculos já estejam sendo usados como argumentos para as ações de organizações apelidadas de “ecofascistas”, como é o caso do British National Party (Partido Nacional Britânico).

Em termos políticos, o temor fundamental dos que preferem as democracias é exatamente o de que a necessidade de controle da população desemboque numa rede mundial de governos de inspiração fascista voltados à imposição desse controle pela força. Há precedentes recentes que justificam tal temor. Segundo a China, sua “política do filho único” adotada em 1978 “evitou” o nascimento de 400 milhões de crianças. Zhang Weijing, responsável pelo planejamento familiar chinês, não esconde seu contentamento: “O objetivo de assegurar ao povo chinês uma vida relativamente confortável não poderia ter se realizado se tivéssemos 400 milhões de pessoas a mais.” Sim, mas a que preço? Inúmeros relatórios de ONGs falam de campanhas de esterilização forçada. Além disso, a campanha do filho único acarreta um grave efeito secundário: ela leva milhões de chinesas a abortar quando descobrem estar grávidas de uma menina, pois os filhos homens são as únicas garantias de transmissão da herança no país. Hoje, nascem 124 meninos para cada 100 meninas na China.

Por seu lado, a Índia, outro peso pesado da demografia mundial, nunca conseguiu controlar sua taxa de natalidade. A ideia de limitar os nascimentos e de recorrer aos métodos contraceptivos é muito mal recebida pelos indianos. A opinião pública conserva uma memória apavorada das campanhas de esterilização forçada decretadas pela primeira-ministra Indira Gandhi no fim dos anos 1970. A partir disso, a política de controle da fecundidade hoje preconizada por Nova Délhi é tão suave quanto ineficaz. Nos escritórios de planejamento familiar, o máximo que acontece é a distribuição de panfletos.

Assim, a China, com população de mais de 1,3 bilhão de habitantes, praticamente estabilizou o crescimento de sua população. Mas os indianos deverão aumentar a sua em mais 500 milhões até 2050.

Por outro lado, é inegável que, sobretudo nos países desenvolvidos e naqueles em desenvolvimento, os humanos fazem cada vez menos filhos. Em toda a parte, a fertilidade decresce rapidamente, bem mais rapidamente do que fora previsto pelos demógrafos. Na maioria dos países, conta-se hoje menos de dois filhos por mulher. Brasil, Indonésia, México e Irã passaram de uma média superior a 5 filhos por mulher nos anos 1960 para pouco mais de 2 nos dias de hoje. Esse fato tem levado alguns demógrafos a considerar que antes de 2050 a população mundial deverá se estabilizar ao redor de 8 bilhões de indivíduos. Apenas a África conserva uma média de 5 filhos por mulher. Mas também lá a fertilidade está em baixa rápida, e poderá ser inferior a 3 filhos por mulher em 2050, segundo a ONU.

Em resumo, os ecologistas gritam que nosso número já é excessivo. Os demógrafos respondem que nada podemos fazer a respeito. Para estes, a população mundial se estabilizará por si mesma – mas num patamar totalmente insustentável, segundo os primeiros. Isso pode ser comprovado? Há sinais claros, hoje, de que o crescimento da população chegou ao limite dos recursos naturais? Tristemente, a resposta a essas questões parece ser positiva. A imensa maioria dos 3 bilhões de indivíduos suplementares esperados até a metade do século surgirá em regiões do globo onde as reservas de água e de terras cultiváveis já diminuíram de modo inquietante.

Há apenas uma geração, na Índia, os camponeses da província agrícola do Gujarat usavam baldes para tirar de seus poços água situada poucos metros abaixo da superfície. Hoje, os mesmos camponeses utilizam bombas elétricas para buscar água a 300 metros de profundidade. No norte do Gujarat, os lençóis freáticos baixam cerca de 6 metros ao ano, às vezes mais. Os pequenos agricultores indianos instalaram 21 milhões de bombas elétricas no país, e mais um milhão entrará em serviço a cada ano. “Em muitas regiões, a água disponível estará esgotada em menos de dez anos”, profetiza o hidrólogo indiano Tushaar Shah. “Quando atingirmos o limite, uma anarquia sem nome se espalhará em toda a Índia rural.”

Na Nigéria, a exploração abusiva transforma em deserto as planícies e os campos do país mais povoado da África (114 milhões de habitantes hoje, 258 milhões em 2050, segundo a ONU). Será por simples acaso que, na Nigéria, as tensões entre os pecuaristas muçulmanos e os agricultores cristãos sejam cada vez mais frequentes e mortais? O correspondente do jornal The New York Times descreve o cenário atual na Nigéria: “Ao longo dos últimos anos, o deserto se estendeu, as árvores foram derrubadas à medida que as populações de pecuaristas e de agricultores cresceram exponencialmente. A concorrência pela terra não pára de aumentar.” O cenário é similar em muitos outros países da África.

A população mundial hoje divide-se quase igualmente entre moradores urbanos e da zona rural. Mas absorver a quase totalidade dos cerca de 3 bilhões de pessoas que nascerão até 2050, segundo a ONU, será tarefa das cidades. As mesmo tempo, e no mesmo período, várias regiões rurais deverão se esvaziar e abrigar cerca de 600 milhões de pessoas a menos do que nos dias de hoje. Para a ONU, dos cerca de 10 bilhões de humanos sobre a Terra, em 2050, quase 7 milhões viverão em cidades. Gente urbana, demasiado urbana. Melhor dizendo, suburbana, já que quase todos morarão em imensos bairros miseráveis ou em favelas. Hoje, na China, 37% da população mora em bairros do gênero, ante 55% na Índia, 84% em Bangladesh, 73% no Paquistão, 39% no Egito, 79% na Nigéria, 36% no Brasil, 68% no Peru. Quase um mexicano de cada 5 mora na Cidade do México.

O êxodo rural nunca foi tão intenso. O desenvolvimento da área urbana do Cairo, no Egito, engole 30 mil hectares de terras por ano. Para cada 500 mil pessoas que se instalam a cada ano em Nova Délhi, pelo menos 400 mil terminam numa favela. O título de um editorial publicado em agosto último no jornal Telegraph, de Calcutá, era: “Perto do ponto de ruptura: a Índia deve enfrentar os perigos da sua hiperpopulação”. Logo abaixo, o texto: “Já que as moradias normais tornaram-se inacessíveis às ondas de migrantes que desembarcam na cidade, um número enorme de favelas ilegais surge em toda parte (…) e uma nova classe de donos de favelas pode exercer seu poder por meio do medo, da extorsão e da intimidação, tornando-se polos alternativos de poder, a caminho de se tornarem os líderes políticos do amanhã.”

Crescimento sustentável? No Congo, a megalópole de Kinshasa – 10 milhões de habitantes – não possui sistema geral de esgotos. No Quênia, assim descreve uma jornalista de Nairóbi a técnica conhecida como “foguete Scud”: “As pessoas põem seus dejetos num saco plástico e os atiram pela janela, sobre o telhado mais próximo ou diretamente na rua.” Aqui e ali, ao redor das favelas de Nova Délhi, de Mumbai ou de Bangalore, as autoridades tiveram o bom senso de construir privadas públicas. Mas… “as pessoas defecam ao redor das privadas, porque as fossas estão entupidas há meses ou anos”, relata o escritor indiano Suketu Mehta em seu recente livro Maximum City.

De quem é afinal a culpa? Da demografia que cresce a galope ou da insensatez política que caracteriza a maioria dos governos atuais? O mundo possui hoje mais de 200 milhões de camponeses sem terra. Os trabalhadores informais – sem direitos, mas não sem patrões – representam cerca de 40% da população ativa dos países em desenvolvimento, segundo um relatório do departamento da ONU encarregado de estudos sobre a moradia. Intitulado “O desafio das favelas”, esse relatório informa: “Em vez de serem centros de crescimento e de prosperidade, as cidades se tornaram lugares de descarga onde lançamos uma população excedente, destinada a trabalhar em setores não qualificados e não protegidos.”

Conseguiremos tirar da miséria esse subproletariado em expansão graças ao mercado globalizado e ao crescimento econômico? A renda mundial média cresceu inéditos 3,1% ao ano entre 2003 e 2007, até a eclosão da crise econômico-financeira global. Em Luanda, capital de Angola (crescimento econômico de 16% em 2008, graças à renda do petróleo, e uma população que poderá triplicar até 2050), os moradores mais afortunados da favela Boavista habitam as barracas do alto da colina, logo abaixo do pontal de Miramar, onde se situam muitas embaixadas. Os repórteres franceses Serge Enderlin e Serge Michel explicam a razão disso: “É porque as embaixadas alinhadas lá no alto esvaziam todas as noites seus latões de lixo sobre as cabeças dos moradores abaixo, proporcionando-lhes comida e objetos a serem recuperados.”

A problemática é vasta, e talvez a pergunta que dá título a esta reportagem encontre sua resposta de outra forma, mais natural. Ou seja, sem a necessidade da criação em âmbito mundial de políticas fascistas de controle da natalidade. Pelo menos é isso o que pensam alguns cientistas que desenvolveram uma visão mais ampla e menos imediatista da questão.

O ecologista e político verde francês Yves Cochet, por exemplo, é um dos que acreditam que nunca seremos 9 bilhões de indivíduos em 2050. “Isso é impossível por razões geológicas e agrícolas”, diz. “Os anos entre 2010 e 2030 serão marcados por uma reviravolta excepcional nos nossos modos de vida ocidentais. Assistiremos a uma queda demográfica causada não pela vontade dos indivíduos ou pela alfabetização das meninas no Terceiro Mundo, mas por uma baixa considerável do acesso econômico às matérias-primas e à energia. E nesse sentido podemos tomar todos os exemplos que quisermos – o número de automóveis, de telefones celulares, de roupas nas araras dos shopping centers… Jamais os chineses, os indianos, os africanos viverão nas mesmas condições que nós. Pois tudo isso é repartido de forma muito desigual. Digamos que o nascimento de um bebê europeu equivale, em termos de impacto ambiental, ao nascimento de dez bebês do Usbequistão ou de dez pequenos congoleses.”

Ao examinar a questão do exaurimento das reservas de petróleo e de outros combustíveis fósseis, Cochet prevê a ocorrência de gigantescas quedas demográficas nos próximos 30 anos. “Trata-se de um puro cálculo energético em relação aos ecossistemas e ao subsolo do qual dependemos”, explica. “É preciso não esquecer que para cada caloria alimentar em nosso prato, são necessárias 13 calorias energéticas para produzi-la, 8 das quais saem do petróleo.”

Assim, para pensadores como Cochet, a redução dos índices demográficos mundiais acontecerá como decorrência natural das crises desencadeadas na superfície do planeta, bem como no seio da sociedade, não apenas pelo excesso de população, mas também (e talvez sobretudo) pelos abusos cometidos pela atual cultura da produtividade e do consumismo insustentáveis. Pois, como diz Cochet: “Pertencemos todos a uma geração que cultiva a exuberância como nenhuma outra antes o fez. Essa profusão, essa prodigalidade, esses excessos, tudo isso constitui o mito ocidental da ‘sociedade do progresso e do bem-estar’. Mas tudo isso, na verdade, não terá tocado a mais de um milhão de habitantes, e por um tempo muito curto, no final do século 20. Infelizmente, esse mito producente, prometeico, difundiu-se em escala mundial.” Mas ele, poderia ter completado Cochet, simplesmente por ser insustentável, está fadado a desaparecer.

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