Cumuruxatiba – Sol e mar na Costa das Baleias

Praia de Imbassaúba, em Cumuruxatiba, sul da Bahia

 No sul da Bahia, a Vila de Cumuruxatiba prepara-se para brilhar como atração maior da Costa das Baleias. Mas outras coisas acontecem por ali: vários recém-chegados, sobretudo casais provenientes das cidades grandes, decidiram assumir muitas iniciativas com o objetivo de beneficiar a comunidade. O que transforma Cumuruxatiba num exemplo de cidadania digno de ser seguido. 

Texto e fotos de Luis Pellegrini 

Cumuruxatiba tem mironga, e das boas. Chegar lá é um tanto trabalhoso – são cerca de quatro horas de carro, 223 quilômetros ao sul de Porto Seguro (BA), 32 dos quais de terra batida. Sair de lá, no entanto, é mais difícil ainda. Para alguns, isso revelou-se impossível. Basta ver o número de casados e solteiros, nacionais e estrangeiros, que lá foram, em toda inocência, passar uns dias de férias, deixaram-se tocar pela varinha mágica dos duendes do lugar, e não resistiram. Arrumaram malas e cuias e lá se instalaram de modo definitivo. 

Quem quiser explicar esse grude que Cumuru – como a chamam os íntimos – impõe, não terá de investigar muito. Basta caminhar pelas praias do lugar, sem lenço nem documento, junto às ondas que quebram sobre as areias branquíssimas, ou no alto das falésias de arenito que as acompanham, todas elas recobertas de florestas de coqueiros. Se entregar à preguiça mais venial numa das redes que as pousadas à beira mar oferecem. Partir para um outro pecado, a gula, num dos restaurantes especializados em frutos do mar. Visitar logradouros de grande charme histórico, como a barra do Rio Cahy, logo ao lado. Muitos historiadores acreditam que foi bem ali que Nicolau Coelho, um dos almirantes de Cabral, travou o primeiro contato entre portugueses e índios. Hipótese reforçada por trechos da carta de Pero Vaz de Caminha e pela visão que se tem do Monte Pascoal, quando se está no mar, em frente ao Cahy. 

As atrações não param aí. Tem também os passeios de barco para ver, de bem perto, e a poucos quilômetros da praia, as baleias jubarte que, de julho a novembro, vão parir e amamentar seus filhotes naquelas águas calmas e pouco profundas. Não à toa o litoral de Cumuruxatiba foi batizado de Costa das Baleias. Tem também o nascer e o pôr-do-sol, quando o céu fica vermelho e o mar fica dourado, e que deve ser contemplado de preferência do alto das falésias. Tem as cocadas da dona Neuza, na pracinha central do vilarejo. Ao lado fica a lojinha de artesanato da índia Naiá, pataxó da gema, que apesar de morar na cidade faz questão de se enfeitar com seus adornos tradicionais. Tem a escolinha de navegação a vela para as crianças. Tem as lojas/ateliês das duas ceramistas do lugar, Eliana Begara e Renata Homem. Tem, no amanhecer e no entardecer, a chegada dos pescadores com seus balaios cheios de peixe. 

A lista dos encantos de Cumuruxatiba parece não ter fim. Rapidamente se percebe por que tanta gente da cidade grande, de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte e Vitória, e até alguns baianos de Salvador, escolheram se estabelecer ali. Mas o que mais chama a atenção é que praticamente todos esses recém-convertidos à cumurumania preferem não viver apenas no desfrute da sombra e da água fresca.
Cada um deles, além de desenvolver uma atividade profissional condizente com as características do lugar, dedica-se a alguma função ou obra voltada à cidadania e à preservação ambiental e cultural do lugar. Parecem ter entendido que, sem isso, a segurança desse paraíso reencontrado estará ameaçada. Os 32 quilômetros de estrada de terra batida cedo ou tarde poderão ser recobertos de asfalto, e por ele chegarão as hordas do turismo de massa com seu habitual cortejo de mazelas e destruições. 

O principal alvo do interesse desses neocumuruxatibanos, como não poderia deixar de ser, é a própria comunidade original do lugar. Quase todos os seus membros pertencem a famílias de pescadores, artesãos ou pequeno agricultores que há séculos vivem ali, até há pouco quase sem contato com o mundo exterior. Que fazer para prepará-los para a chegada da grande civilização de fora, sem que percam a sua encantadora e simples identidade? Despertar neles a consciência do valor do seu próprio patrimônio cultural e histórico foi a primeira necessidade enfrentada. Várias iniciativas foram tomadas nesse sentido. 

A chef Dolores Lameirão, por exemplo, veio de Angola e levou a Cumuru todo o seu conhecimento de gastronomia desenvolvido em seu país, e depois em Portugal, na França e na Suíça. Foi lá que ela conheceu o suíço Walter Kunzi, com quem se casou, teve dois filhos, e montou em Cumuruxatiba o restaurante Mama África, um must do lugar. Junto a dois outros casais (os dentistas Ricardo e Andréia Belucio, donos do Café Gelato, e Luiz Fernando e Helena), Dolores e Walter dão cursos de culinária e gastronomia para jovens carentes de Cumuru. A bióloga Juliana e sua amiga Lucinha dirigem um grupo de danças típicas. O capoeirista P de Serra montou um grupo de capoeira. 

Aldo, Rogério e Giorgio (navegador italiano que depois de girar o mundo se estabeleceu em Cumuru com a esposa e filhos) criaram uma escolinha de navegação a vela para as crianças da comunidade. Filhos de turistas podem frequentar as aulas, pagando uma taxa módica para ajudar na manutenção dos barquinhos. 

Dona Elizete e seu marido Rui, donos do restaurante Catamarã, criaram um ateliê-cooperativa para ensinar bordados e artesanatos com tecidos a dezenas de meninas e adolescentes da comunidade. Os produtos são vendidos numa pequena butique ao lado do restaurante. Metade do que se arrecada é repartido entre as meninas, a outra metade é para a reposição do material. Luiz e Milena, donos da Pousada Rio do Peixe, dedicam-se a um projeto de reforço escolar, para ajudar a passar de ano os alunos que têm dificuldades nos cursos regulares. O médico Francisco Begara, por seu lado, desenvolve um trabalho de aconselhamento sanitário para a comunidade e nas comunidades indígenas pataxó. 

Francisco, por sinal, é o único médico de Cumuruxatiba, onde toma conta do dispensário. Nascido no Marrocos, formado em São Paulo, ele e a esposa, a ceramista Eliana Begara estão lá há pouco mais de um ano. “Este lugar é um problema para um médico, pois aqui ninguém fica doente”, conta. “Quando aparece alguém no dispensário é só para tratar de um resfriado ou do hematoma de algum moleque que despencou do coqueiro. O caso mais grave que enfrentei, há uns quatro meses, foi o parto de uma índia pataxó de 23 anos. Ela chegou em avançado trabalho de parto, mas logo vi que a criança estava em má posição. Como em Cumuru não tem maternidade nem hospital, achei melhor levá-la às pressas para a cidade de Prado, a uns 50 quilômetros de distância, por estrada de terra. No meio da viagem, talvez devido aos solavancos do meu pequeno Fiat, o bebê acertou a posição, e a índia gritou lá do banco de trás: ‘Doutor, ela tá saindo.’ Parei o carro na beira da estrada e fiz o parto ali mesmo. Quando vi a cabeleira escura da menina, exclamei: ‘Ela já nasceu de cocar!’ Quinze minutos depois a índia estava com seu bebê nos braços, enrolado nuns panos que eu levara no carro. Voltamos para o dispensário, em Cumuru, fiz uma higiene geral na mãe e na filha, e logo depois lá se foi ela, de volta para a aldeia, carregando a criança.” 

Durante a temporada, nos finais de semana, os grupos de dança, de percussão, capoeira, e ocasionalmente um outro grupo composto por índios pataxós, se exibem num espaço especialmente preparado, num ângulo da pracinha central da vila. Nessas ocasiões, arma-se um mercadinho de artesanatos regionais no mesmo local. A entrada é franca. 

Em Cumuruxatiba, a visita ao santuário das baleias jubarte é uma aventura à parte. Há milênios elas frequentam as calmas e tépidas águas da região, perfeitas para a fase de acasalamento, parto e amamentação desses cetáceos gigantes. “Elas não vêm aqui para comer, e sim para se reproduzir”, explica a bióloga Juliana, quando a bordo do barco Libra nos dirigimos para a área onde as baleias e seus filhotes se concentram. “O restaurante delas é nas águas frias da Antártica, cheias de camarões krill e de cardumes de sardinhas e outros pequenos peixes, para onde elas vão a partir do final de novembro. Aqui é só para namorar e acasalar e para cuidar dos bebês até que eles estejam fortes o suficiente para acompanhar as mães nessas longas viagens.” 

Na zona onde as jubarte se concentram o show é contínuo e o piloto do barco mal sabe para onde se dirigir: há baleias navegando à direita e à esquerda. Para saber onde elas estão, basta prestar atenção na superfície do mar e, de repente, shshsshshs! Lá está o jato d’água que elas emitem ao respirar na superfície, e que denunciam suas posições. Jato localizador que, por sinal, permitia aos baleeiros matarem milhares de jubartes todos os anos, quase levando-as à extinção. Quando o barco se aproxima, algumas, mais tímidas, mergulham e fazem aparecer a cauda manchada de branco. Outras não estão nem aí. Acostumadas à presença das embarcações carregadas de pessoas, elas parecem saber que tudo que queremos delas são algumas fotografias. E existem inclusive as exibidas, que não só não fogem como dão performances na forma de saltos (os machos quando tentam impressionar alguma fêmea), ou mantêm por vários minuto o rabo fora d’água, batendo na superfície (as fêmeas, quando querem enxotar os pretendentes). 

O passeio às baleias dura umas quatro horas, com água e frutas a bordo. Os mais sujeitos a náuseas devem tomar algum remédio antienjôo uma hora antes de embarcar. Uma tempestade estomacal é a forma mais fácil de se estragar o passeio. 

 

 

Luis Pellegrini visitou Cumuruxatiba a convite da Gol e da Cumurutur – Associação dos Empresários de Turismo e Hotelaria de Cumuruxatiba, e da Assimptur – http://www.assimptur/ 

Mais info: (http://www.cumuruxatibabahia.com/

BOOM TURÍSTICO 

A Vila de Cumuruxatiba, pertencente ao município de Prado, no sul da Bahia, inclui o núcleo urbano e arredores. Tem cerca de cinco mil habitantes, aproximadamente 70 pousadas e outros tantos restaurantes, quase sempre especializados em peixes, camarões, lulas, polvos e lagostas. Para os padrões das cidades turísticas, os preços são bastante razoáveis. 

As praias são muitas, todas bonitas, com destaque para a Japara Grande e a Japara Mirim, a de Imbassaúba e da Barra do Cahy. Elas nunca estão muito cheias. 

Além do passeio de barco para ver as baleias (que acontece apenas entre julho e novembro), várias outras excursões podem ser feitas por mar. Pode-se ir até a Ponta do Corumbau e Caraíva, com parada na aldeia pataxó de Barra Velha, cujo acesso é possível somente por meio de barco. 

As opções de hospedagem são ótimas. A Pousada Rio do Peixe é considerada a melhor, oferecendo tudo que um hotel de primeira tem. Mas várias outras nada deixam a desejar, entre elas a Pousada É, a Uai Brasil, a das Cores, todas elas situadas na praia. Há também as pousadas Axé e a Clara, destaques no centro urbano. 

Comentários

comentários

Uma ideia sobre “Cumuruxatiba – Sol e mar na Costa das Baleias

  1. maria.thereza conde sandoval

    Muito lindo, mas agora o cenário mudou. E os Alpes?????????????

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