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Fome à vista. Como 10 bilhões de pessoas conseguirão comer?

 

Com o aumento da população mundial e a redução da produção agrícola causada pelas mudanças climáticas, nutrir a população do planeta será um problema cada vez maior e mais difícil. Mas, segundo os especialistas, soluções existem. Desde que as providências a serem tomadas sejam imediatas.

Por: Luis Pellegrini – Equipe Oásis

Daqui a trinta anos, para matar a fome dos 10 bilhões de pessoas que habitarão a Terra, seremos obrigados a impor ao planeta um desgaste praticamente insuportável. Esta é a má notícia. A notícia boa é que, segundo um estudo de pesquisadores da Universidade de Oxford (Inglaterra), com a adoção de medidas que não são simples, porém viáveis, poderemos vencer o desafio. Mas, advertem os cientistas, é necessário pô-las em prática imediatamente.

A comida conecta a totalidade das pessoas no mundo, não importa onde cada uma delas vive. Mas o poder de controle dos recursos que nos proporcionam alimentos não está nas mãos dos cerca de um bilhão de agricultores que produzem alimento, e nem nas mãos dos bilhões de consumidores que comem aquilo que é produzido. Em vez disso, companhias e governos controlam o sistema alimentar global – e com frequência determinam quem vai comer e quem vai passar fome.

Quanto mais quente, menos comida

A produção de alimento é, por outro lado, um dos fatores que mais contribuem para a degradação do meio ambiente em termos de impacto sobre o clima, o empobrecimento do solo e a poluição dos recursos hídricos.

O último relatório do IPCC – Intergovernmental Panel for Climate Change (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que acaba de ser publicado, adverte que as colheitas e a disponibilidade de comida poderão diminuir drasticamente por causa dos aumentos agora considerados inevitáveis das temperaturas médias globais. As previsões são de que, para cada grau a mais da temperatura, a produção global de trigo diminua 6%, a de milho mais de 7% e a de arroz cerca de 3%.

Outros danos poderão vir de fatores que até agora não foram sequer levados em consideração, por exemplo os insetos. Segundo estudos recentes, com o aumento das temperaturas, o metabolismo deles aumenta e necessitarão de mais alimento. Sobretudo nas regiões temperadas, as perdas do cultivo de trigo, arroz e cevada poderão ir de 10 a 15 por cento apenas devido ao problema dos insetos!

Estratégias de sobrevivência

O grande paradoxo das décadas que seguirão é que, ao mesmo tempo em que a produção de alimentos tenderá a diminuir, teremos de enfrentar também o aumento previsto das populações. Hoje, somos cerca de 7 bilhões de almas encarnadas vivendo na superfície do planeta. Dentro de três décadas, segundo as previsões, seremos 10 bilhões! Apesar desse binômio duplamente ameaçador, segundo análises dos pesquisadores da Oxford University a combinação de várias estratégias ainda poderá tornar possível e sustentável a vida humana ao redor do globo. Esse estudo, que acaba de ser publicado na revista Nature, é o primeiro a quantificar de maneira precisa o problema e a suas possíveis soluções.

Resumidamente, a receita prevê três ingredientes: A mudança de toda a população mundial para uma dieta que utilize menos carnes e mais vegetais; cortar pela metade o desperdício e as perdas de alimento; inovar as práticas de agricultura e de criação de animais.

Precisamos nos tornar flexitarianos?

Os especialistas preveem que a adoção, em nível global, tantos nos países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento, de uma alimentação batizada de “flexitariana”, ou seja “vegetariana flexível”, que prevê um consumo muito reduzido de carne animal, poderia cortar pela metade as emissões de gases de efeito estufa, e reduzir em cerca de 25% o efeito de outros problemas ambientais causados pelo uso muitas vezes irresponsável de fertilizantes e inseticidas químicos, pela exploração excessiva da terra e pela poluição das reservas de água doce. A produção de carne, com efeito, degrada a terra de várias maneiras, desde a necessidade de aumentar os terrenos cultivados com monoculturas como a soja e o milho destinados a alimentar os animais até as emissões diretas de metano, um importante gás de efeito estufa, causadas pela pecuária intensiva.

Além das mudanças no tipo de alimentação, será necessário também modificar as práticas agrícolas, ampliando o uso de tecnologias que, em parte, já existem para aumentar as colheitas e, também, otimizar o uso da água e dos fertilizantes. Tais providências poderão reduzir à metade o impacto sobre os cultivos.

Por fim ao desperdício 

Por fim, será necessário agir para diminuir o desperdício de alimentos: se conseguirmos reduzi-lo à metade dos índices atuais, conseguiríamos reduzir globalmente o impacto ambiental da agricultura e da pecuária em cerca de 16%. Para obtermos tais resultados, será necessário, no entanto, trabalhar na inteira cadeia de produção, da armazenagem e transporte até a distribuição e a confecção e embalagem dos produtos alimentares. E, importantíssimo, tudo isso terá de ser feito agora, sem maiores protelações e atrasos. “Muitas das soluções analisadas já são adotadas em algumas partes do mundo”, diz Marc Springmann, principal autor do estudo. “Mas será necessário uma firme e decidida coordenação global e uma rápida execução das medidas para que seus efeitos sejam realmente efetivos”.