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Pornografia. Um problema de saúde pública?

A pornografia on-line representa uma crise de saúde? A questão é muito controvertida, e os especialistas se dividem a respeito. O médico norte-americano Arthur L. Caplan procura neste artigo esclarecer a questão.

Por: Arthur L. Caplan – Diretor do Programa de Ética Médica da New York University (NYU) School of Medicine

Fonte: http://portugues.medscape.com/

Eu li um artigo há pouco tempo no qual comissários de voo diziam que não podiam acreditar no número de pessoas que assistiam pornografia em aviões. Pessoas assistem pornografia em seus telefones ou computadores estando próximas a crianças ou outros clientes. Isso se torna uma fonte de reclamações, e um problema com o qual a companhia aérea não quer ter de lidar.

A pornografia é um grande negócio nos Estados Unidos. É uma das razões mais comuns para as pessoas estarem on-line. Companhias produtoras estão fazendo fortunas. A pornografia on-line basicamente recuou a indústria de produção de vídeos uma vez que entrou nas casas. Todos os tipos de pessoas podem acessá-la, sejam menores de idade, adultos ou pessoas com problemas psicológicos. Algumas pessoas dizem: “Temos um grande problema de saúde pública nesse país. Precisamos tratar a pornografia como uma dificuldade de saúde pública”. Eu não me oponho a essa ideia como aqueles que podem ver isso como uma questão de discurso livre ou algo que você pode escolher acessar on-line para se entreter.

Viciados em pornografia

Existem pessoas que se envolvem em problemas com a pornografia. Elas perdem relacionamentos, como casamentos, porque estão constantemente assistindo a isso on-line. Elas não conseguem encontrar uma forma de impedir esse vício. Isso requer, parcialmente, uma resposta em termos de tratamento em saúde. Você também pode se preocupar que o que é visto na pornografia pode levar a comportamentos dos quais os parceiros não querem realmente participar. A pornografia tenta chegar às margens da sexualidade porque é isso que traz audiência. Se fosse apenas o sexo tradicional, eu acredito que as pessoas não assistiriam da mesma forma. Podem existir questões de saúde pública sobre o que é aceitável e respeitoso. Lidar com o desejo por sexo ou a pornografia infantil merece uma resposta também.

Parte do problema é que não temos certeza do que fazer quanto à pornografia. Não é sempre ruim. Pode ser um entretenimento, e divertido de assistir. Pode ser adjunta à vida sexual das pessoas. Eu entendo tudo isso. Nós não necessariamente temos as pesquisas. Nós não necessariamente somos especialistas em saber quando a pornografia é uma parte da vida sexual de alguém ao invés de dominá-la, ou encorajar comportamentos que não são saudáveis ou bons para os outros.

Questão controvertida

Não acredito que o conceito geral de pornografia esteja errado, mas ela começa a se tornar um problema de saúde pública junto com o vício em drogas, o abuso de opioides e até, em alguma extensão, com a controversa questão das armas. Nós podemos fazer muitas cosias com um modelo de saúde pública de redução de risco ou dano, ou um modelo de dependência usado para ajudar pessoas a acabarem com hábitos ruins, seja obesidade ou sexualidade irresponsável. Essas são situações nas quais a medicina e o sistema de saúde têm um papel.

São os únicos lugares para se fazer isso? Não. Deveríamos censurar o que surge na internet relacionado ao sexo? Acredito que não. Existe mais a se fazer, e existem pessoas que são vulneráveis à isca da indústria da pornografia. A medicina tem o seu papel a cumprir.

Questões a serem consideradas:

Utah, South Dakota, e Arkansas aprovaram resoluções estabelecendo a pornografia como uma crise de saúde pública de proporções epidêmicas.

Alguns profissionais de saúde se preocupam com o fato de que a pornografia promove o abuso de mulheres e crianças ao colocar o estupro e o abuso como atos aceitáveis.

Algumas pessoas se preocupam que a pornografia possa arruinar casamentos e levar ao vício sexual ou a outros comportamentos pouco saudáveis, e que possa afetar o trabalho da pessoa, levando a incômodos significativos e a sentimentos de vergonha.

Defensores da pornografia dizem que a erotização pode melhorar a vida sexual, fornecer uma fonte recreativa, e até mesmo reduzir a incidência de abuso sexual.

A pornografia desencadeia a atividade cerebral em pessoas com comportamento sexual compulsivo, de forma semelhante ao que ocorre com as drogas no cérebro de um dependente. No entanto, isso não significa necessariamente que a pornografia é viciante.

Algumas pesquisas sugerem que não existe vício em pornografia. As pessoas que dizem ter problemas para controlar o próprio consumo de pornografia não apresentam uma resposta típica de vício às imagens sexuais. Com a dependência, é esperada uma atividade cerebral aumentada em resposta a estímulos relevantes – heroína no caso de vício em drogas, por exemplo. Mas participantes de estudos sobre pornografia mostraram redução da atividade cerebral em resposta à pornografia.

Depois que a pornografia foi legalizada na Dinamarca em 1969, pesquisadores relataram um declínio correspondente na agressão sexual.

Vários estudos internacionais colocam as taxas de consumo de pornografia em 50% a 99% entre homens, e em 30% a 86% entre mulheres.

A percepção de vício em pornografia na internet, mas não ao uso de pornografia por si só, está relacionada de forma única à experiência de estresse psicológico.

Até 1 em cada 25 adultos são afetados por comportamento sexual compulsivo, uma obsessão com pensamentos e sentimentos sexuais, ou comportamentos que não são capazes de controlar.