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Química e agricultura. Quais são as consequências para o ecossistema?


 A química é importante para a agricultura, disso não há dúvidas. Mas se, hoje, já existe um melhor controle das consequências dos herbicidas e similares para a nossa saúde, as notícias são bem alarmantes a respeito dos efeitos negativos dessas substâncias para os ecossistemas.

Por: Equipe Oásis

Pesticidas, herbicidas, inseticidas, não importa o nome que damos a eles, tratam-se sempre de substâncias químicas com maior ou menor grau de toxidade. A química na agricultura de hoje é onipresente, embora objeto de infinitas controvérsias. Para alguns, agricultores e agrônomos em primeiro lugar, a química é indispensável para garantir produções abundantes e segurança alimentar, não apenas nos dias que correm, mas em todo o futuro a ser percorrido pela humanidade. Para outros, ambientalistas e ativistas, são moléculas cujo uso e difusão deve ser combatido, pois são de utilidade duvidosa, e, em última análise, nocivas para a saúde humana. Para outros ainda, toxicologistas e ecologistas, é preciso levar em consideração os efeitos que tais substâncias provocam no ambiente global – e as opiniões a respeito raramente são positivas. Uma típica controvérsia sobre a química na agricultura é, por exemplo, a questão do glifosato, o herbicida mais usado em todo o mundo.

Um campo de tulipas na Holanda. Muitas plantações precisam ser protegidas contra a infestação de ervas com o uso de herbicidas.

Geralmente, no entanto, a discussão pública sobre o uso desses produtos é desequilibrada: na maior parte dos casos o centro dos debates é colocado quase exclusivamente no impacto desses compostos para a saúde humana. Isso é normal, mas é preciso dizer que a maior parte dos produtos químicos autorizados a serem lançados sobre nossos campos agrícolas não revelou, até agora, ter grandes impactos sobre a nossa saúde. As dúvidas, que persistem com insistência cada vez maior, provêm da falta de avaliações epidemiológicas a longo e longuíssimo prazo.

Uma visão mais ampla do impacto dos agrofármacos (ou fitofármacos) no ambiente revela por seu lado um quadro muito variado e complexo.

Poluição difusa

Um recente documento sobre a presença de pesticidas diluídos nas águas, produzido em 2018 pelo Instituto Superior para a Proteção e a Pesquisa Ambiental (ISPRA), na Itália, apresenta diversos cenários correlatos ao uso de fitofármacos, baseado em dados do biênio 2015-2016. A agricultura naquele país usa cerca de 400 substâncias diferentes perfazendo um total de 130 mil toneladas ao ano. O documento começa explicando a complexidade que significa avaliar o impacto de agrofármacos no meio ambiente e o quanto é difícil avaliar efeitos e peso ambiental de uma mistura tão variada de substâncias químicas diversas.

“Nas águas superficiais italianas – lê-se no documento – foram encontrados pesticidas em 67% dos 1554 pontos de monitoração; nas águas subterrâneas, em 33,5% dos 3.129 pontos monitorados”. A presença de substâncias quimicamente ativas não significa que, na Itália, as pessoas estejam cercadas por venenos, pois as concentrações dessas moléculas ainda são frações de partes por bilhão (µg/L): mas efeitos nocivos ao ambiente podem no entanto se manifestar inclusive quando as concentrações são muito baixas, sem levarmos em conta o efeito cumulativo dessas substâncias. Os protagonistas dessas aferições são sobretudo alguns herbicidas muito difusos, como o glifosato e o seu metabolito AMPA (o produto da degradação do glifosato).

O glifosato no banco dos réus

A atenção voltada para esse composto químico é agora muito ampla, exatamente porque ele é um dos mais difusos e usados em todo o mundo. Os alarmes para a nocividade direta para a saúde humana parecem um tanto exagerados, embora ainda não bem esclarecidos. Mas coisa bem diferente e de outro teor são os estudos que investigam os impactos sobre o meio ambiente. Há alguns anos, pesquisas tinham estabelecido que o glifosato está presente no solo da União Europeia, e da maior parte dos demais países do mundo.

Num primeiro momento, os resultados revelados por esses estudos não despertaram particulares preocupações. O glifosato atua particularmente no crescimento da planta (ele inibe a atividade de uma enzima envolvida na síntese de aminoácidos essenciais e da lignina), e acreditou-se que fosse relativamente inócuo para as espécies animais.

O que acontece com os animais?

Estudos de ecotoxicologia, no entanto, estabeleceram que a substância pode desencadear efeitos muito graves em muitas e variadas espécies animais. Um exemplo: já há alguns anos se conheciam os seus efeitos teratogênicos (que causam desenvolvimentos anômalos no crescimento os animais) nas rãs.

Um estudo de 2015 publicado na revista Environmental Toxicology and Pharmacology relata os efeitos do herbicida em um organismo experimental, o dânio zebrado (Danio rerio), um pequeno peixe de água doce: durante o crescimento do animal, foram verificadas reduções do tamanho da cabeça e dos olhos, por causa da interferência da molécula com alguns genes implicados no desenvolvimento embrionário. Também um pequeno peixe anual (o Austrolebias nigrofasciatus) que vive no Brasil pode ser atingido pela presença do glifosato diluído nas águas. A substância, segundo artigo publicado na revista científica Chemosphere, reduz a fertilidade, a tolerância às mudanças de temperatura da água e também a diapausa (a paralização do crescimento em condições ambientais difíceis).

Até mesmo culturas milenares, como a do arroz na Tailândia, hoje adotam substâncias químicas para melhorar a produtividade

Outros estudos científicos informam sobre os efeitos produzidos no peixinho vermelho comum (Carassius auratus) e no Jenynsia multidentata, um peixinho de água doce. Mas não são apenas os peixes a serem atingidos: um estudo de 2018 explica como uma mistura de compostos que incluem um antigo herbicida – o 2,4 D – e o glifosato podem reduzir enormemente as populações de zooplâncton dos lagos e rios.

O Laboratório de Ecofisiologia e Ecotoxicologia dos invertebrados marinhos da faculdade de biologia da Universidade de Padova, na Itália, avalia agora o que acontece com os moluscos marinhos definidos como de grande interesse biológico e comercial, como os mariscos (Mytilus galloprovincialis) e as vongole (Ruditapes philippinarum). Para Valerio Matozzo, titular do estudo, “o glifosato pode alterar de maneira significativa importantes parâmetros dos hemócitos, ou seja as células encarregadas da resposta imunológica dos moluscos, e a expressão de alguns genes envolvidos em importantes funções celulares da glândula digestiva”. Outros efeitos negativos em répteis, pássaros, anfíbios e mamíferos terrestres já foram denunciados em diversos outros estudos.

Mas ele não é o único culpado

Não é justo, no entanto, atribuir toda a culpa ao glifosato. Nas formulações químicas dos produtos usados na agricultura a molécula original é quase sempre acompanhada de substâncias que ajudam a sua penetração nas células, os assim chamados surfactantes. Poderiam ser estes os principais responsáveis pelos efeitos no metabolismo dos animais e interferir no desenvolvimento embrionário e também em outros parâmetros.

Por outro lado, uma pesquisa realizada em 2010 estabeleceu que, injetado diretamente nas células, o glifosato tem o mesmo efeito de interferência observado em alguns aspectos do metabolismo. Outros estudos estão em andamento, por exemplo a respeito da possibilidade que o herbicida possa provocar nas bactérias do solo alguns fenômenos de resistência aos antibióticos, como foi relatado em um artigo publicado na revista Science of total environment.

Será o menor dos males? 

Uma das razões da vasta difusão do glifosato na agricultura é que ele substituiu outros herbicidas que tinham, comprovadamente, efeitos muito mais graves para as plantas e o meio ambiente, efeitos maiores daqueles provocados pelo glifosato conhecidos até o momento. Vem disso a convicção de que o glifosato seja “melhor que os demais herbicidas”. Isso no entanto não significa que ele seja uma molécula que atinge de maneira seletiva apenas as ervas daninhas para os nossos cultivos, sem outros efeitos para os ecossistemas, e os trabalhos científicos a respeito cujo número aumenta a cada dia comprovam isso.

Portanto, se por um lado não precisamos temer o risco de estarmos comendo glifosato como tempero da nossa comida, não devemos menosprezar os seus efeitos diretos e indiretos para os ecossistemas naturais ou seminaturais (como é o caso dos agrícolas) e as interações com as espécies que sofrem os seus efeitos e que poderiam, a médio e longo prazo, apresentarem consequências negativas também para a saúde humana.