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Sopa de plásticos. Mediterrâneo está coalhado de detritos

 

Os países ao redor do Mar Mediterrâneo não estão entre os grandes poluidores do mundo, mas este é um mar fechado, no qual objetos de plástico e microplásticos se acumulam em quantidades preocupantes. Hoje, mais do que nunca, providências urgentes precisam ser tomadas para se evitar a morte do “Mare Nostrum”. Na verdade, todos os mares e oceanos vivem o mesmo problema.

Por: Equipe Oásis

Todos os anos, em todo o mundo, os rios jogam nos mares e oceanos cerca de 9 milhões de toneladas de detritos plásticos. 86% desses lançamentos provem dos rios asiáticos da China, Índia, Sudeste Asiático e Indonésia. O resto vem dos rios da África (7,8%), da América do Sul (4,8%), das Américas Central e do Norte (1%) e da Europa (0,4%).

Great Pacific Garbage Patch – Um barco navega através da grande mancha de lixo acumulado no Pacífico. Hoje, ela atinge cerca de 700 mil quilômetros quadrados, maior que a inteira superfície da França. 

As imagens colhidas nos últimos 35 anos pela Nasa colocam em evidência a formação nos oceanos de pelo menos cinco enormes ilhas de plásticos. A maior delas é a Great Pacific Garbage Patch (grande mancha de lixo do Pacífico), também conhecida como Pacific Trash Vortex.

Rios que levam detritos aos mares

Um estudo recente, baseado na análise de amostras de detritos plásticos, identificou os 10 principais rios que transportam aos oceanos cerca de 90% da quantidade de lixo neles atirada. Esses rios são o Yangtze, o Xi e o Huanpu (China), o Ganges (India), o Cross (fronteira entre Camarões e Nigéria), o Brantas e o Solo (Indonesia), o rio Amazonas (Brasil), o rio Pasig (Filipinas) e o Irrauadi (Miamar).

Nos oceanos, a combinação de radiação solar e água salgada acelera os processos de fragmentação dos plásticos. Tais processos produzem enormes quantidades de microplásticos que se põem à deriva no meio aquático, confundindo-se com o fitoplâncton. Desse modo, entram na cadeia alimentar dos peixes e são fisicamente competitivos com a fonte alimentar principal da fauna marinha.

As previsões são dramáticas: Se não for interrompido esse derrame de detritos plásticos, até o ano 2050 existirá, nos mares, mais plásticos do que peixes. Pelo menos 95% da fauna marinha terá ingerido maiores ou menores quantidades de microplásticos, e estará sofrendo as consequências disso (doenças, intoxicações, perturbações e bloqueios do sistema digestivo, respiratório e reprodutivo, etc)

Mediterrâneo, mar fechado 

Uma das faunas marinhas mais ameaçadas é a do Mediterrâneo. Não obstante ele represente apenas 1% das águas mundiais e os derrames de detritos na Europa correspondam a menos de 0,5% do total mundial, as análises que são feitas regularmente há pelo menos dez anos mostram que nesse mar se concentra cerca de 7% dos microplásticos globais. Isso acontece porque o Mediterrâneo é um mar fechado, e por isso os plásticos nele jogados se acumulam no tempo até atingir em algumas zonas concentrações comparáveis às do Great Pacific Garbage Patch. Em particular, a concentração de microplásticos é muito elevada entre o Mar da Ligúria (Itália ocidental) e a ilha de Elba, exatamente a zona protegida do Santuário dos Cetáceos. Tudo está, portanto, preparado para que o Mare Nostrum, como é também conhecido o Mediterrâneo, se torne uma “sopa de plásticos”.

Uma tartaruga envolvida em uma rede de pesca abandonada no mar. A imagem é tirada do filme documentário Turtley Addict, dedicado à recuperação das tartarugas. A prevenção da poluição por plásticos nos mares e oceanos só é possível com a realização de sistemas eficientes de gestão de detritos plástico0s para reciclagem e reuso.

Só existe um futuro para os plásticos

As atuais circunstâncias já obrigam a humanidade a fazer com urgência a passagem de uma economia linear (produzo, uso e jogo fora) para uma economia circular (produzo, uso e reuso, reciclo, reuso, diminuo o consumo). As estatísticas, no entanto, mostram que os países (inclusive os europeus e sobretudo a China e os Estados Unidos) estão bem distantes da implantação do ciclo da economia circular. A maior parte do material atualmente reciclado não chega sequer à fase de reuso. Os processos industriais de reciclagem e de reuso demandam inovações das atuais tecnologias para que se possa melhorar a qualidade dos materiais e medidas de incentivo no mercado para apoiar os produtos reciclados em confronto com aqueles derivados do emprego do plástico virgem.

Esta não é uma ilustração: é a fotografia de um jovem albatroz do Mediterrâneo que morreu por ter ingerido vários objetos de plástico que flutuavam no mar.

Também são necessárias normas eficazes, em nível global, bem como ações voluntárias das empresas para impulsionar a difusão do bioplástico, particularmente os tipos biodegradáveis, que possam cada vez mais substituir o plástico convencional sem efeitos negativos para a qualidade dos produtos.

Tijolinhos de Lego em bioplástico

Alguns primeiros passos nesse sentido já são dados por empresas como Coca Cola, PepsiCo, Amcor e Unilever, que se empenharam em reciclar e reusar, até 2025-2030, a totalidade das garrafas e das embalagens de plástico, ou de utilizar plásticos biodegradáveis.

A Tetrapak se empenhou em reciclar pelo menos 90 bilhões de garrafas e de embalagens para produtos alimentícios e a introduzir plásticos biodegradáveis. Ford, Mercedes, Volkswagen e Toyota, por seu lado, estão introduzindo bioplásticos na lista de componentes de seus carros.

Os empenhos “voluntários” das empresas respondem, na verdade, a um aumento da sensibilidade dos consumidores e constituem uma passagem fundamental tanto para a difusão da “cultura da reciclagem e do reuso”, quanto para promover e sustentar políticas públicas e medidas de incentivo a favor dos produtos reciclados e dos produtos biodegradáveis.