ÁNIMA – O feminino no homem

 

Ánima significa “alma” em latim. É o termo que o psicólogo Carl Gustav Jung escolheu para designar a componente feminina que existe na psique masculina. Ayesha, personagem central do livro Ela, de Rider Haggard, Editora Axis Mundi,  era considerada por Jung uma das melhores metáforas literárias da ánima

Por: Luis Pellegrini

“Deixe a ánima ir à frente. Basta seguir atrás, pelo caminho que ela traça”, costuma dizer Roberto Gambini, psicólogo junguiano e cientista social que vive e trabalha em São Paulo. Seu conselho ecoa na minha cabeça quando começo a escrever este artigo para tratar de dois temas: a questão da ánima – a componente feminina que existe na psique masculina, segundo a definição do psicólogo Carl Jung -, e o lançamento, em português, de um livro importante, o romance de aventuras Ela, de Henry Rider Haggard, pela editora Axis Mundi. Por uma dessas coincidências felizes, Roberto Gambini, que vive e trabalha em São Paulo, é também o autor do prefácio para esta edição brasileira de Ela. Que tem uma coisa a ver com outra? Está explicado no texto desse prefácio de Gambini que transcrevemos mais abaixo. Mas posso adiantar dizendo que Ela era um dos livros de cabeceira de Carl Gustav Jung. Ele via no fascinante personagem central do romance – uma belíssima mulher de nome Ayesha, rainha branca de um povo negro no coração da África -, uma excelente descrição metafórica da ánima. O “Ela” do título (She, no original inglês), refere-se exatamente a esse personagem.

 

A história se passa na África, transmitindo todo o fascínio que Rider Haggard encontrava em sua paisagem, animais selvagens, sociedade tribal e passado misterioso. O romance se desenvolve em ambientes exóticos, com tesouros (materiais e imateriais), aventureiros, seres imortais, magia negra e cidades perdidas, mesclando aventura com o fantástico. Narra a saga de um pequeno grupo de três ingleses que se embrenham na África Oriental, até chegarem ao reino perdido governado por Ayesha. O encontro com essa estranha e poderosa mulher, quase uma deusa, dotada de capacidades incomuns e de semi-imortalidade, exerce fortíssimo efeito transformador nesses homens. Depois de encontrar Ayesha e, cada um a seu modo, apaixonarem-se por ela, eles nunca mais serão os mesmos.

Para Jung, toda a aventura de Ela espelha, simbolicamente, o encontro necessário que todo homem deve ter com a sua própria “ánima”, a sua alma,  para poder realmente trilhar com êxito o caminho da “individuação” – o encontro consigo mesmo, com o seu Self, segundo Jung.

Toda discussão séria sobre a questão da ánima, bem como toda contribuição válida para o seu estudo – como é o caso do lançamento de Ela -, é coisa muito bem vinda nos dias de hoje. Vivemos agora, mais do que nunca, a necessidade urgente de redefinições importantes, como aquelas que dizem respeito ao sentido real do masculino e do feminino e as das identidades de homem e de mulher no mundo contemporâneo. O que é ser homem e o que é ser mulher hoje e daqui para a frente? Quais são as novas imagens de homem e de mulher que correspondem ao atual momento histórico? Quais são os seus reais papéis no contexto constantemente mutável da nossa sociedade multicultural? São perguntas que esperam respostas mais claras.

Ninguém consegue encontrar a si mesmo, nem descobrir qual é a sua função no mundo, enquanto não definir pelo menos em grau razoável os traços reais da sua identidade. Todo esse processo de autodescoberta passa, necessariamente, pela conscientização e pelo aprendizado das nossas dualidades internas: a da ánima, a componente feminina que existe na psique do homem; e a do ánimus, a componente masculina que existe na psique da mulher. Por que, como dizia Carl Jung, “o homem é masculino por fora e feminino por dentro; a mulher é feminina por fora e masculina por dentro”.

Capa da edição brasileira de 'Ela', de Rider Haggard, Axis Mundi Editora

Capa da edição brasileira de ‘Ela’, de Rider Haggard, Axis Mundi Editora

 

Por outro lado, se uma das missões psicológicas e espirituais fundamentais do homem e da mulher contemporâneos é justamente aquela de estabelecer o contato e o diálogo entre o ego (consciência inferior ou mental) e o Self (consciência superior ou espiritual), uma correta avaliação da natureza e da ação da ánima e do ánimus é fundamental. Pela simples razão de que são justamente eles, ánima e ánimus, respectivamente para o homem e para a mulher, as entidades da psique humana que exercem uma função mediadora entre o ego e o Self.

Por causa desse seu papel crucial no processo de florescimento da auto-consciência, que Jung chamava de “individuação”, a ánima, em geral representada por personagens femininos extraordinários, tem sido desde sempre uma preocupação constante dos artistas, escritores e poetas. Eles, provavelmente, como o Rider Haggard de Ela, muitas vezes não criam tais personagens de modo objetivo e consciente. Ao contrário, são essas personagens que, existindo dentro dos autores e artistas, clamam e gritam para sair à luz e ganhar o mundo, obrigando-os a, inconscientemente, expressá-las através da sua arte ou da sua escrita.

Por outro lado, todas as tradições de fundo espiritual reconhecem a importância da ánima e do ánimus no contexto das várias situações iniciáticas. Na tradição das artes mágicas, por exemplo, o homem pode vender sua alma (ánima) ao diabo para obter em troca aquilo que desejar nesta terra. Sob múltiplas formas, formalmente diversas mas essencialmente iguais nas várias culturas, é o pacto de Fausto com Mefistófeles. Mas uma lenda alemã acrescenta que o homem que tiver vendido sua alma já não possui sombra. Não significará isso uma forma de dizer, simbolicamente, que o homem que assim procede perde toda existência própria?  A sombra seria, nesse caso, o símbolo material da alma assim abandonada, que pertence doravante ao mundo das trevas e que já não pode se manifestar sob a luz do sol. Ausência de sombra: sinal de que já não há nem luz nem consistência real naquele homem que foi capaz de vender a própria alma.

Mas este não é certamente o caso dos heróis masculinos de Ela. Ao encontrar sua alma projetada na figura mítica de Ayesha, eles não a vendem, e sim a integram. E descobrem com Ayesha que a alma do homem pode sim ser um anjo de bondade e sabedoria. Mas pode também ser um demônio impiedoso e irracional.

Mais informação: www.axismundieditora.com.br

Ridder Haggard, o autor de 'Ela'

Ridder Haggard, o autor de ‘Ela’

 

ELA, UM RETRATO DA ANIMA

Prefácio de Roberto Gambini, analista pelo Instituto C. G. Jung de Zurique, para a edição brasileira de Ela, de Rider Haggard.

Depois de anos de experiência como funcionário da Coroa britânica na África do Sul, o jovem Henry Rider Haggard, aos 31 anos – época em que deve ter-se firmado seu contato com a fonte interior de criatividade – escreveu Ela. Corria o ano de 1887 e Carl Gustav Jung tinha apenas doze anos, mal começava a ler. Alguma relação entre os dois fatos? Sim, e muito interessante. Este livro que você está prestes a ler fez uma bela e duradoura impressão na mente intuitiva de Jung (que já o cita no início do século), que nele encontrou uma excelente descrição para o fugidio embora potentíssimo fenômeno psíquico a que deu mais tarde o nome de ánima. Temos aqui portanto não apenas uma boa história, dessas que transcritas hoje para a linguagem cinematográfica encantam multidões, mas um documento histórico muito saboroso para se pesquisar as fontes de idéias e imagens – e foram tantas – nas quais Jung encontrava paralelos para contextualizar e amplificar seus inúmeros insights. Só isso já basta (mas há também o prazer da leitura/aventura) para justificar esta nova edição de Ela, na inspirada e competentíssima versão de Merle Scoss. Haggard escreveu muitas outras histórias, mais de 50 ao todo – As minas do rei Salomão (1885), Allan Quatermain (1887) eSwallow (1889) já são conhecidas do grande público graças ao cinema – mas nenhuma terá jamais a importância e o charme de Ela devido justamente à impressão que causou em Jung.

Valeria a pena reproduzir aqui as próprias palavras do pensador suíço a respeito deste livro para podermos avaliar com alguma precisão o que acabo de dizer. No Volume 9.I das Obras Completas, num ensaio intitulado “A Respeito dos Arquétipos e do Conceito de Anima” (1954). Jung diz o seguinte: “A ánima (…) não escapou à atenção dos poetas. Há excelentes descrições dela, que ao mesmo tempo nos falam do conteúdo simbólico em que o arquétipo usualmente se inscreve. Em primeiro lugar cito as novelas de Rider Haggard ElaO Retorno de Ela e A Filha da Sabedoria. Alguns anos depois desse ensaio e certamente mais de meio século após a leitura da novela (em 1959, já no fim de sua vida), Jung escreve num prefácio a um livro de uma sua discípula: “Rider Haggard é sem dúvida o expoente clássico do tema da ánima, muito embora este já fosse familiar aos humanistas do Renascimento” (especialmente Francesco Colonna). Jung apreciava o fato de não haver na história de Haggard nenhuma pretensão psicologizante, que acaba sempre por contaminar o relato com as idiossincrasias do autor. Aí temos portanto um critério valorativo para se detectar a importância de uma obra enquanto registro da fenomenologia do inconsciente coletivo: o registro sem mediações desnecessárias da fantasia que irrompe na mente do autor conta mais do que a forma e o estilo utilizados para captá-la.

Aí temos uma clara postura junguiana frente às obras literárias. Num ensaio de 1950 sobre Psicologia e Literatura, que consta do volume 15 das Obras Completas, Jung considera que o romance psicológico é menos interessante para o psicólogo do que aquele que não tem nenhuma pretensão dessa ordem – e os exemplos que cita são Ela, as histórias de detetive de Conan Doyle e Moby Dick, de Melville. Em suas palavras: “Uma narrativa excitante desprovida de intenções psicológicas é o que acima de tudo interessa ao psicólogo. Uma história desse tipo é construída sobre um pano de fundo composto por pressupostos psicológicos não verbalizados, e quanto mais o autor for inconsciente deles, mais esse fundo se revela em toda a sua pureza ao olhar discriminador”.

Essa mesma posição é retomada e reforçada no já citado prefácio de 1959, quando Jung lembra que a grandeza e importância de um tema como o da ánima não dependem da forma como é apresentado. E recomenda: “Aquele que desejar ter um insight sobre sua própria ánima encontrará um bom material de reflexão em Ela, justamente por causa da simplicidade e ingenuidade da apresentação, totalmente desprovida de qualquer ‘intenção’ psicológica” (volume 16).

A ánima é o componente feminino instalado no interior da psique masculina e a ela corresponde uma imagem que a expressa. Segundo Jung, essa imagem de mulher que os homens carregam na mente é supra-individual, ou seja, possui características comuns em homens distintos, mesmo de épocas ou culturas diversas. Há um tipo definido de mulher que sempre reaparece e Jung tomou a si a tarefa de descrever alguns de seus traços básicos, servindo-se para tanto de suas próprias vivências da ánima, daquelas de seus pacientes e dos registros da literatura, da pintura, da mitologia e do folclore. Num ensaio de 1927, incluído no décimo volume das Obras (“A Mente e a Terra”), Jung novamente valoriza nossa história: “Esses tipos costumam ser descritos com muita precisão, com todas as suas qualidades humanas e demoníacas, em romances fantásticos como Ela e A Filha da Sabedoria, de Rider Haggard”.

 

Ursula Andress é a protagonista de uma célebre versão de 'Ela' para o cinema

Ursula Andress é a protagonista de uma célebre versão de ‘Ela’ para o cinema

 

Jung sabia muito bem que esse “tipo” que expressa a ánima é um complexo de opostos. Há uma passagem importante num texto de 1951 (volume 9.1. “Aspectos Psicológicos da Koré”), onde se percebe claramente a marca deixada pela amoral, misteriosa e atemporal Ayesha” :…a ánima é bipolar e portanto pode aparecer como positiva num momento e negativa no outro; ora jovem, ora velha; ora mãe, ora donzela; ora uma fada boa, ora uma bruxa; ora santa, ora prostituta. Além dessa ambivalência, a ánima também tem conexões ‘ocultas’ com ‘mistérios’, com o mundo da escuridão em geral, e por essa razão costuma ter uma aura religiosa. Sempre que emerge com algum grau de clareza, ela se relaciona de modo peculiar ao tempo: via de regra ela é mais ou menos imortal, por estar fora do tempo. Os escritores que tentaram evocar essa figura nunca deixaram de acentuar a peculiaridade da ánima nesse aspecto. Refiro-me à descrição clássica em Ela, de Rider Haggard. Nessas obras todas, a ánima está fora do tempo assim como o conhecemos e por conseguinte é extremamente  velha ou um ser que pertence a uma outra ordem de coisas”.

Costuma-se falar poeticamente da ánima como fonte de sensibilidade e fruição de beleza, mas Jung nunca deixou de apontar para seu lado perigoso, até mesmo letal, imoral, desagradável e inadequado, quando a força desse arquétipo se sobrepõe e invade o ego masculino. Nessa condição, um homem se comporta emocionalmente como uma caricatura de mulher, ou se dissolve sob o peso de sua própria fraqueza. Essa questão mereceu bastante atenção por parte de Jung no decorrer  de sua vida e de seu trabalho terapêutico. Num texto de 1934, “Os Arquétipos do Inconsciente Coletivo” (volume 9.1), ele chama a ánima de “serpente no paraíso do homem inofensivo e bem-intencionado. Como o que ela quer é a vida, ela quer tanto o bem quanto o mal”. E para descrever essa assombrosa entidade e suas peculiaridades novamente Jung recorre a nosso autor, quando diz: “A ánima acredita no ‘belo e bom’, conceito primitivo anterior à descoberta do conflito entre estética e moral. A ánima é conservadora e se apega a métodos de uma antiga humanidade. Ela gosta de aparecer num clima histórico, com predileção pela Grécia e Egito. A esse respeito, mencionaríamos as clássicas histórias da ánima escritas por Rider Haggard e Pierre Benoit”. Jung citava muito em latim e em seus diários costumava usar a caligrafia gótica, bem ao gosto de sua ánima…

Para encerrar essas citações, examinemos o capítulo sobre ánima e ánimus num dos textos mais didáticos de Jung, “As Relações entre o Ego e o Inconsciente” (sétimo volume das Obras Completas), onde talvez pela primeira vez – já que a versão inicial desse ensaio é de 1916 – é valorizada a descrição que Rider Haggard  faz da invisibilidade, da imortalidade e do caráter histórico da ánima. Nesse estudo, Jung considera que a femininidade da alma masculina se constitui a partir de três fontes: 1) a mulher, 2) a vida emocional do homem e 3) a imagem de mulher que reside em seu inconsciente. A mulher influencia a psicologia do homem justamente por ser diferente, informando-o de coisas que ele não percebe: “ela pode ser sua inspiração; sua capacidade intuitiva, frequentemente superior à do homem, pode servir-lhe e seu sentimento, sempre voltado para o que é pessoal, pode mostrar-lhe caminhos que seu sentimento menos personalizado não teria jamais descoberto”. Quanto à segunda fonte, Jung considera que a femininidade da vida emocional de um homem em geral é reprimida e se acumula no inconsciente. Esses traços não vividos se sobrepõem então à imagem de mulher, influenciando assim a maneira pela qual um homem apreende a realidade da mulher exterior. Essa inconsciência da própria ánima faz com que um homem, ao se casar, escolha uma mulher que corresponda à sua própria femininidade inconsciente, que possa receber a projeção de sua alma, da qual seria um espelho – o que também pode levar um homem a se casar com suas piores fraquezas. Nesse contexto, a novela de Haggard auxiliava Jung a expressar a imperiosidade exercida pelo feminino inconsciente na psicologia masculina, quando diz: “qualquer homem com um mínimo de insight psicológico saberá o que Rider Haggard quis dizer com ‘Ela -que-deve-ser-obedecida’, e reconhecerá o ponto tocado por Benoit em sua descrição de Antinéia (em L’Atlantide). Além disso, ele sabe de imediato qual tipo de mulher encarna esse misterioso fator, do qual tem uma premonição tão vívida” – e aqui entramos no terreno da projeção da ánima e da psicologia das mulheres que se confundem com ela.

Essas considerações, todas extraídas de várias passagens da obra de Jung, devem servir para que o leitor se dê conta da importância histórica deste livro e seja estimulado a fazer suas próprias reflexões a respeito dessa impressionante figura, aquela que diz: não é pela força que governo. É pelo terror. A imaginação sustenta meu império”.

E que império, e que imaginação! Enquanto não confronta sua ánima e não a percebe em sua luz e sua sombra como um imperativo invisível que o leva para onde quer e onde não quer ir, um homem não é totalmente dono de si e não pode jamais dizer que controla seu destino.

 

Comentários

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2 ideias sobre “ÁNIMA – O feminino no homem

  1. Luis Pellegrini Autor do post

    Tamico! Minha querida, mande o seu endereço que eu lhe mando um exemplar de presente de velho amigo! Beijoca. Luis

  2. Tamico Kawanishi

    Parabéns, um trabalho maravilhoso. Vou ver se aqui tem este livro. Bjs

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