Psicologia da corrupção. Corruptos têm ego inflado e percepção distorcida da realidade

 

Dr. Sivan Mauer

Fonte: Site http://portugues.medscape.com/

 

O Brasil nos últimos anos vem expondo um grande problema que sempre existiu no âmago de sua sociedade: a corrupção. O conceito de corrupção está embasado no uso do poder, seja público ou privado, para se ter algum tipo de benefício ou ganho para si. Corrupção é um problema complexo e multifatorial, que inclui questões culturais, morais e religiosas dos indivíduos que participam do processo, seja de forma passiva ou ativa.

 

Nas ultimas décadas a ciência tenta entender quais questões psicopatológicas são mais prevalentes nestes casos. A corrupção está incluída entre os intitulados “crimes do colarinho branco” designação estabelecida pelo criminalista norte americano Edwin Sutherland, e na maioria das vezes é cometida por uma pessoa que exerce um cargo de alta respeitabilidade e status social elevado no curso de sua ocupação profissional. Diferente do que muitos pensam, os crimes do colarinho branco não são algo exclusivo do Brasil, e os últimos escândalos não nos colocam como o país mais corrupto do mundo. Basta revisitarmos alguns dos últimos escândalos financeiros que abalaram a economia global, como o da Enron Corporation, que era uma das maiores companhias de energia norte americana, que levou seus acionistas e investidores a um prejuízo de mais de 70 bilhões de dólares, sem falar das fraudes do banco Lehman Brothers que afundou o mundo todo na pior crise financeira ocorrida depois da quebra da bolsa de valores de 1929.

“Quem roubou o dinheiro do povo?”

Os muitos modos da corrupção

Além disto, é importante ressaltar que a corrupção ou os crimes do colarinho branco não estão restritos apenas aos políticos ou aos CEOs de multinacionais, de empreiteiras ou do setor agropecuário. Muitas vezes banalizamos atos de corrupção no dia a dia, como suborno de agentes de trânsito ou outros tipos de fiscalizações.  No meio médico isso não é diferente. A corrupção acontece de diversas maneiras, como no pagamento de propina a profissionais por empresas de órteses e próteses, óticas que pagam oftalmologistas para indicá-los, sem falar na relação com a indústria farmacêutica, que oferece vantagens aos médicos em troca de prescrições. Acompanhamos diversos casos noticiados pela imprensa em relação a médicos que cobraram honorários por procedimentos feitos dentro do sistema único de saúde (SUS). Um fato de extrema importância é de que muitos médicos não prescrevem medicações usando como base pesquisas científicas e sim quais são os mais populares entre os colegas, ou os mais divulgados pelos representantes farmacêuticos. Um exemplo disto é a diminuição da prescrição de carbonato de lítio para pacientes com transtorno afetivo bipolar nos EUA, além das novas gerações de psiquiatras que infelizmente não sabem como prescrevê-lo, mesmo com todas as evidências de que esta medicação é a mais eficiente em relação a prevenção de novas crises da doença, e a única droga que comprovadamente previne o suicídio.

Do ponto de vista sociológico a corrupção não é delimitada por decisões específicas, mas por um processo que envolve uma combinação de fatores como atitudes, planejamento deliberativo, antecedentes históricos, mobilidade social e afiliação a grupos. A qualidade da burocracia, questões salariais, sistema penal, e transparências das leis também estão relacionadas como fatores de causa da corrupção. Alguns sociólogos destacam também a desigualdade social e a grande distância entre as classes como um fator relevante. É importante entender a complexidade social que envolve a corrupção e os crimes relacionados.

A patologia da corrupção

Do ponto de vista psiquiátrico, será possível identificar características comuns nos indivíduos que praticam este tipo de crime? Para tentar entender esta questão dois conceitos psicopatológicos devem ser entendidos: o temperamento afetivo e a relação dele com o insight (julgamento). Temperamento afetivo é um conceito antigo descrito desde a Grécia Antiga e posteriormente sistematizado por dois importantes psiquiatras alemães, Emil Kraepelin e Ernst Kretschmer. Primeiramente, Kraepelin apresenta conceitos como temperamentos maníacos e depressivos que levaram Kretschmer a desenvolver conceitos como hipertimia e distimia respectivamente. A questão mais importante do conceito de temperamento é a noção de que sintomas maníacos e depressivos podem ser crônicos e leves, presentes e ativos o tempo todo, fazendo parte da personalidade do indivíduo e não apenas como episódios com sintomas severos. Posto isto, temperamentos podem ser definidos como versões leves de estados de humor, incluindo alterações no nível de energia, alteração no padrão de sono, e comportamentos (como sexual, social ou relacionado ao trabalho). Existem três temperamentos básicos:

Hipertimia, que envolve sintomas leves de mania como: aumento da energia, necessidade diminuída de sono, libido aumentada, sociabilidade, extroversão, e bom senso de humor. Esses indivíduos muitas vezes são conhecidos como workaholics, e são mais dispostos a correr mais riscos.

“Corrupção gera pobreza”

Distimia, que envolve sintomas depressivos leves como: baixa energia, maior necessidade de sono, diminuição de libido, socialmente ansiosos, introvertidos, menos produtivos no trabalho. Estas pessoas tem uma tendência a evitar comportamentos de riscos e são mais ligadas às próprias rotinas.

Ciclotimia, que envolve constantes alternâncias entre sintomas leves de depressão e mania, como altos e baixos no humor e nos níveis de atividade. Normalmente extrovertidos e de boa sociabilização, são pessoas que às vezes têm comportamentos de risco, e são imprevisíveis.

O conceito de temperamento foi perdido no século 20, com a ascensão da psicanálise. Desde então, os termos personalidade e temperamento têm sido usados quase como sinônimos. Porém, personalidade era vista como um conceito psicológico, e não biológico, e era relacionado ao desenvolvimento emocional. Com a “redescoberta” dos temperamentos afetivos, diagnósticos de transtornos de personalidade como narcisista, antissocial e borderline podem ter uma nova abordagem.

“Lavanderia Corrupção”

Corruptos têm visão distorcida da realidade

Insight, ou julgamento em português, é um conceito complexo, que não está apenas relacionado a como o paciente entende a própria doença, mas também a como ele interage com o mundo. Geralmente o insight está preservado na depressão e prejudicado na mania. Metade dos pacientes com mania grave e a maioria dos pacientes com hipomania negam os próprios sintomas. Infelizmente existem poucas pesquisas relacionando a falta de insight a crimes, principalmente os crimes financeiros. Podemos entender que indivíduos hipertímicos e ciclotímicos têm uma tendência a ter o insight prejudicado, enquanto distímicos o mantêm preservado. Muitas vezes, pessoas com o insight prejudicado não conseguem enxergar as consequências dos próprios atos de maneira realística.

Os estudos que relacionam questões psicopatológicas a crimes do colarinho branco também são escassos. Os que existem relacionam traços de personalidade por meio do uso do Inventário de Personalidade NEO (NEO-PI). Esta escala avalia os três principais traços da personalidade: neuroticismo, extroversão e abertura para novas experiências. Um estudo na Hungria relacionou estes traços de personalidade aos três principais tipos de temperamento. Este estudo concluiu que extroversão está mais relacionada à hipertimia, e a ciclotimia está mais relacionada à abertura para novas experiências e neuroticismo. Já distimia está mais relacionada a neuroticismo. O principal transtorno de personalidade que se relaciona à corrupção e aos crimes do colarinho branco é o transtorno de personalidade narcisista. Um grande problema com relação a este diagnóstico é a falta de validade, tendo a maioria dos seus sintomas sobrepostos com transtornos de humor e ou temperamentos afetivos. Esta falta de validade ficou bem evidente com a recomendação da retirada deste diagnóstico do DSM-5 pela força-tarefa que trabalhou com diagnósticos de personalidade, mas esta recomendação não foi aceita pelo board da American Psychiatric Association (APA).

Autoimagem inflada

Uma revisão sistemática mostrou que pessoas que cometem crimes econômicos têm uma autoimagem inflada. Um estudo de 2003 entrevistou 128 empresários suecos, dentre os quais 55 já haviam cometido algum tipo de crime econômico. Neste estudo os entrevistados responderam a 87 questões. Como resultado obtido a maioria se descreveu como extrovertido e neurótico. Um estudo de caso-controle de 2006 comparou acusados de crimes do colarinho branco com acusados de furtos não violentos, apontando que os acusados de crimes econômicos têm menos risco de abuso de substâncias e transtornos depressivos do que os acusados de outros crimes.

Outros estudos demonstram também que acusados de crimes econômicos são mais hedonistas, impulsivos e sociáveis. Se associarmos os resultados destes estudos à questão do insight e aos conceitos de temperamentos – que, do ponto de vista diagnóstico, têm mais validade que a maioria dos transtornos de personalidade –, podemos concluir que pessoas com temperamentos hipertímicos e ciclotímicos teriam mais risco de se envolver em crimes econômicos. Os estudos revelam que grande parte dos indivíduos que estão envolvidos neste tipo de crime são do sexo masculino. Porém, deve-se levar em consideração a grande discrepância entre homens e mulheres que exercem cargos de liderança no mundo dos negócios e na política.  Um estudo entre 2000 líderes das mais importantes empresas mundiais encontrou apenas 1,2% de mulheres entre eles. No Brasil as mulheres representam apenas 9% dos assentos da Câmara e 13% do Senado.

Questões psiquiátricas relacionadas a este tipo de crime específico são pouco estudadas. A relação entre os diferentes temperamentos e as questões legais podem abrir uma nova via de entendimento das causas e fatores de risco para este tipo de evento. Novos estudos são necessários para se entender melhor essa relação, porém a dificuldade de se conseguir uma amostra ideal para isto e um grande obstáculo. É importante entendermos a complexidade deste assunto em vários sentidos, sejam eles sociais ou psiquiátricos. O mais importante é evitarmos a generalização de grupos específicos, sejam eles partidários ou profissionais.

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